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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Já tentou invadir a Rússia?

I.

Tem que passar por ele antes


Depois eu explico a dos russos. A questão do bullying é extremamente simples (como quase tudo). Sim, o bullying é um problema sério, sim, eu sei que você também sofreu com bullying, etc. A questão não é as causas do bullying, isso é muito fácil de identificar, o problema tá na resposta que dá à questão.

O que mais se ouve quando algum psicólogo ou repórter fala na TV ou na Veja é que o que as crianças devem fazer é relatar ("isso não é dedar" brincar de semântica é fácil, por definição é dedar sim) aos pais ou professores ou que seja. Isso é um absurdo. O resultado disso não é o fim do bullying, o bullying sempre existiu e sempre existirá, ao menos enquanto ainda houver pobreza e raiva e ambivalência no mundo. O resultado disso é uma geração de concurseiros.

O Cartoon Network ("eu não assisto isso" não, mas seu filho assiste - ou será que assiste, você não deve ter ideia do que ele vê) tem um site que pretende lutar contra o bullying. Bom, a primeira dica que eles dão é "não fique calado". Relaxa, você não precisa reagir à agressão, é só contar o que aconteceu. Ótica dica se você quer que seu moleque seja um covarde histriônico. A dica certa é "não fique parado", mas calma, vamo ver o que mais o Cartoon tem pra nos falar.

Tem uns videozinhos que passam no canal também que mostram um nerd e um malandro, ou alguma oposição dessa, se juntando pra falar de um interesse em comum. Hmm, beleza, os pais acham isso lindo, mas a criança sabe que ela nunca, nunca vai ver isso. Se ela ver, é apenas a exceção que confirma a regra. Pra que servem esses vídeos? Pra manter as crianças numa fantasia.


II.

Olha, relaxa cara, eu também acho que agressão não deve ser aceita, ela tem que ser canalizada, mas para com isso, o seu filho não é o bully, é a vítima. Não adianta nada falar dos bullies porque você não tem como (muito menos o direito de) interferir na família e no ambiente desses caras, a gente tem que falar aqui é de quem sofre a agressão.

O que a psicologia popular e os pedagogos e tal dizem é que devemos encorajar as crianças a delatar o meliante (viu, não é legal ficar fazendo joguinho com palavra). Mas pensa bem nas consequências disso. A criança tá aprendendo que a solução aos problemas dela nunca se encontra nela mesma, mas em alguma autoridade, que a redenção dela é função da vontade de quem detém o poder. Ou seja, a solução para a falta de poder é a entrega do pouco poder que ainda se tem.

Isso pode até resolver a situação na escola (provavelmente só vai piorar), mas o que a pessoa faz quando ela se acostumou a simplesmente relatar as agressões e depois que ela sai da escola não tem mais a quem recorrer? O que ela faz quando sofre agressões do chefe, de um assediador, de um rival, etc? As possibilidades são várias, mas provavelmente envolvem extremismo, raiva, álcool, pílulas, ou alguma combinação. "Não fique calado" cria um monte de vítimas.

A resposta certa vai variar de situação em situação, de contexto em contexto. Não adianta generalizar, o que funciona pro menino de classe média que é chamado de gordo não vai funcionar pra menina cuja bunda é diariamente alisada na favela. O que é importante, mesmo se não der certo, é encorajar a criança a resolver a situação ela mesma, na medida do possível. Tá, se o menino tá levando porrada de uns idiotas a solução não é aula de jiu-jitsu, mas se ele tá sendo chamado de nerd e tão rindo da cara dele, que caralho que vai adiantar falar isso pro professor?

A criança (ou adolescente ou adulto) tem que saber resolver problemas, e sem necessariamente partir pra agressão (meio difícil aprender isso quando até os pais agridem, mas enfim). Igualmente, não adianta achar que tudo tem solução. A criança também tem que entender que há certas coisas desagradáveis no mundo que ela simplesmente não pode mudar, às vezes o outro tem mais poder e acabou. Para de contorcer a cara, life's a bitch. Não duvido nada que seu avô tenha sofrido bullying de alguma forma, mas isso não impediu ele de mandar todo mundo tomar no cu e sair pra construir sua vida.


III.






Sem dúvida você já viu esse vídeo do menino gordo que é agredido por um magricelo e depois arremessa ele no chão. Olha o que nos diz o jornal da Globo, repara que a mensagem é mais uma vez "corra pra quem tem poder". Mas isso é natural, o jornal quer que você sempre ceda à autoridade, aí ele pode te falar o que fazer, seja votar no Serra ou comprar cerveja aguada. O problema é quando você responde desse jeito.
Esse menino foi celebrado como herói, e isso nos diz várias coisas. Primeiro é que não, não foi uma resposta apropriada, ele só se deu bem porque o magrelo não se deu mal. O gordinho é dez vezes maior que o moleque, você não precisa quebrar a clavícula de alguém pra impor seus limites. Se você acha que a resposta certa à violência é mais violência, parabéns, você é que nem os idiotas que comemoraram o assassinato do bin Laden.

Segundo que isso mostra que não você não tá procurando justiça, você tá procurando vingança. "Eu não, não sou assim" certo, mas é você que assiste Batman e Dexter. Presta bem atenção nisso porque isso é muito importante: ao se vingar, você não tá sendo justiceiro, você tá simplesmente perpetuando o status quo. A raiva do agressor original ainda vai existir, e se ele não puder descontar em você, vai descontar no filho dele, que em troca vai descontar no teu filho. Repara bem que ninguém deu muita bola pro magrelinho, mas pode ter certeza que a situação na casa dele é pior que a situação do gordinho.


IV.

E que que os russos têm a ver com isso? Bom, pra começar que nenhum império ocidental jamais conquistou a Rússia. Por quê? Porque se você tenta conquistar uma cidade russa e tem um exército maior, eles simplesmente queimam a cidade e as plantações e deixam você morrendo de frio e fome. Isso não quer dizer que você tem que dar uma garrafa de Stolichnaya pro seu filho, quer dizer que quando o outro cara é mais forte, a melhor defesa não é um bom ataque e muito menos uma autoridade, é a sagacidade.

Mas porra, é foda, como que você vai ensinar a criança a se defender (de maneira sensata) se a vida toda você falou pra ela que violência é errado, e que ela tem que reprimir todo instinto de agressão? Bom, pelo menos saiu o edital do BaCen.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Assassinato pós-meditado

I.

Cuidado, ele pode te esquartejar

Uma das "notícias" (o caso começou em março passado) mais lidas no G1 recentemente é sobre o assassinato de uma atriz britânica por seu irmão. Vamos tentar entender não só o que levou a esse crime mas, sobretudo, por que esse artigo é um dos mais populares de um site que todos visitam quando não têm nada pra fazer (sim, tudo bem, você vai dizer que é pra se manter atualizado em relação aos eventos importantes que ocorrem mundo afora - por isso que o que você mais lê o Planeta Bizarro, né?)

Uma olhada no título, "Atriz britânica teria sido morta por irmão após briga por torneira aberta", já nos dá uma informação pertinente: o cara não matou a irmã por causa de uma torneira. Também vão  enfatizar o uso de maconha por parte do irmão. "É o sistema querendo criminalizar uma erva, maconha não leva a violência!" Calma aí, cara, a raiva veio antes da maconha, mas veio do mesmo lugar. Isso tudo tem a ver com uma figura notável por sua ausência - o pai.

Antes que você venha me dizer como você foi criado muito bem apesar do seu pai ser um alcóolatra, que fique bem claro que quando me refiro ao pai, não me refiro necessariamente ao pai biológico, mas a qualquer figura que tenha desempenhado essa função na vida da pessoa. Se isso foi sua mãe biológica, ótimo, mas é meio complicado ela desempenhar duas funções (uma já não é fácil) ao mesmo tempo que trabalha pra te sustentar (sem dúvida algo que você ouve bastante). Enfim, o que interessa é que não consegui encontrar uma biografia da atriz pra ver como era a relação com o pai, mas já podemos adivinhar.


II.

"O caso ganhou destaque na Grã-Bretanha por causa das circunstâncias nas quais a história veio à tona: primeiramente, com a notícia do desaparecimento de Gemma, seguida da detenção de Tony, que havia ido à polícia para registrar seu desaparecimento, e o encontro do corpo desmembrado e espalhado em vários locais."

Hmm, não, o caso ganhou destaque na Grã Bretanha porque os ingleses são como nós: adoram quando a linha entre a realidade e ficção (novelas) fica borrada. Isso não quer dizer que eles sentem um prazer sádico quando a atriz é morta, isso quer dizer que eles o sentem quando o vilão é preso e "paga por seus crimes" (nesse caso é válido porque não acredito que ele vá saber se defender na prisão). Perceba que o que importa é a história. Esse tipo de assassinato acontece no mundo todo todo dia, mas esse caso é popular porque a vítima era uma atriz, e tudo se desenrolou exatamente como aconteceria na novela.

Pense nessa história: "a vítima desapareceu, e o culpado, que havia registrado seu desaparecimento para tentar se safar, tentou esconder o corpo". É por isso que o caso ganhou destaque? Isso já aconteceu milhões de vezes. Esse caso ganhou destaque porque as mídias britânica e mundial deram destaque, e elas fizeram isso porque sabem que você vai querer ler, e eles precisam vender propaganda. Nesse sentido, esse caso não é nada mais que um BBB Vida Real.

"O torso da atriz foi encontrado no dia 6 de março do ano passado no Regent's Canal, canal que liga o Parque Olímpico, no Leste de Londres, ao Regent's Park, cortando alguns dos mais importantes cartões postais e bairros ricos de Londres."

Por falar nisso, a TTT Turismo está com uma promoção de pacote pra Londres imperdível, 10x sem juros pra você e um acompanhante poderem contar pros seus amigos como lembraram da coitada da atriz quando passeavam pelos "cartões postais", é triste saber que coisas tão horríveis acontecem num país tão culto e civilizado (ainda bem que o ônibus do tour não passou perto do estádio depois do Chelsea perder pro Arsenal).

Mas você não vai questionar a estranha menção dos "bairros ricos", afinal já tá se imaginando lá, fazendo pose do lado do guarda, indo ao British Museum e fingindo que aquilo vai automaticamente te tornar uma pessoa mais inteligente (não, não vai). Mas perae, não tinha um torso nessa história?

"Mais partes do corpo, desde então, vinham sendo removidas do canal, embora a polícia somente tenha achado a cabeça da atriz meses depois, em setembro."

Ela foi encontrada no artigo da BBC que todos os outros canais ao redor do mundo compartilharam. Sério, só eu acho estranho botar uma foto da cabeça dela depois de falar que acharam a cabeça decapitada?


III.

Na segunda metade do artigo, que você não vai ler porque tem uma foto grande e ei, um cara na China fez uma parada mó esquisita, a polícia tenta explicar o crime.

"Segundo o promotor Crispin Aylett, havia uma tensão crescente entre os dois irmãos, principalmente por conta do consumo frequente de maconha e skunk (forma mais potente da droga) por Tony."

Primeiro, ignore que o repórter (finge que?) não sabe absolutamente nada sobre maconha.

O que a srta. McCluskie devia saber é que o irmão dela fumava maconha provavelmente pelo mesmo motivo que ela virou atriz - um pai (arquetípico) ausente. Mas também não ache que isso é psicologia popular, não tem nada a ver com o fato que ninguém avisou pra ele/a que maconha/vida de atriz é "perigoso". Todo mundo tá careca de saber isso. Não, o problema aqui é que o pai criou (nada reprsenta uma cultura como sua escolha de palavras) um filho narcisista. "Mas você não sabe que ele era egoísta/megalomaníaco." Realmente, mas isso não é narcisismo.

O narcisista é aquele que não se preocupa em agir de acordo com alguma essência moral, alguém para o qual o que importa é a imagem que ele transmite. Ele é o personagem principal e todos os outros são coadjuvantes. Não podemos dizer se Gemma era narcisista, afinal, por mais que sua carreira seja na TV, ela realizou coisas na vida. Por mais que seja uma novela, uma carreira requer uma certa consistência de esforço. O que não requer esforço é fumar maconha às custas da irmã.

Calma, Cheech, o problema não é fumar maconha. O problema é fumar maconha como substituto para, simplesmente, fazer alguma coisa, ou melhor, fazer coisas. Certamente era suficiente para Tony que ele era irmão de uma pessoa (relativamente) bem-sucedida. "Ah, no pior dos casos minha irmãzinha me ajuda." O problema é que o pior dos casos já devia ocorrer há anos. Claro, ele poderia ter sido demitido recentemente, os tempos são de recessão, mas não há nada que indique isso. Não acho que você vá encontrar muitos tipos financeiros curtindo um baseado (eles preferem pó).

O que determina sua identidade não é quem você diz que é, é o que você faz. Pode ter certeza que o Tony tinha mil projetos pra vida. Por ter certeza também que a irmã já tinha reclamado várias vezes que ele só falava e não fazia nada. Por que então que ele estourou dessa vez? Comparar com o álcool seria injusto, então é suficiente deixar claro que maconha aumenta muitas coisas, sensações, palas, gostos...mas a raiva não é uma delas (valeu Robin). Não se engane: não tem nada a ver com a maconha, e nada a ver com a irmã. A dica tá aqui:

"Tony McCluskie, de 35 anos"

Quando se está ainda nos 20 e tantos anos, o mundo ainda é cheio de possibilidades. Ainda há energia vital e bastante tempo pela frente. Aos 20 e tantos, você ainda acredita quando diz que daqui a pouco vai parar de fumar e fazer alguma coisa "produtiva" na vida. Aos 35, é mais difícil.

O que aconteceu com o Tony foi que ser expulso do apartamento da irmã significava que ia ter que arranjar um emprego, começar um negócio, alguma coisa. Mas ownar neguinho no Call of Duty não é uma habilidade desejada pelo mercado. Você não precisa ser Carl Jung pra perceber que a "gota d'água" (o que é linguagem e o que é realidade mesmo?) foi altamente simbólica. Doía toda vez que o Tony era chamado de maconheiro, porque ele sabia que ele era um cara criativo/empreendedor/etc. Mas ele não podia sair batendo na irmã ou nos pais, senão os outros perceberiam que ele é um cara raivoso (veja mais uma vez como são suas ações que determinam sua identidade, não o que você fala). Evidentemente, ser expulso de casa destruiria qualquer imagem que ele tinha conseguido preservar até então.

A raiva é a consequência natural do narcisismo. Isso não quer dizer que temos que condenar todos os narcisistas pro inferno. Os adolescentes são narcisistas por natureza, é uma etapa necessária do desenvolvimento. No entanto, é uma etapa, ou seja, precisa ser ultrapassada. O objetivo do narcisismo na adolescência é permitir que a pessoa crie uma identidade própria, testando máscaras diferentes até achar a que caiba. Então se a sua filha de 16 anos fuma maconha/ouve black metal/usa roupa de marca, relaxa, larga esse martelo, ela só faz isso porque você não gosta.

Eu sei que a notícia é da Inglaterra, mas o site é brasileiro, e você tá lendo. Quem não leu o artigo e pensou que o cara é um louco? Sim, é óbvio que ele é doido, mas isso é só uma desculpa pra não pensar no caso, "eu não sou maconheiro, não sou pirado que nem esse cara". Por acaso, o próprio Tony já deve ter dito isso várias vezes, bom talvez às vezes "não sou pirado como vocês pensam". Essa notícia deveria ser um aviso: o Ministério da Saúde adverte, se preocupar com sua imagem e não com sua essência causa raiva, que pode se manifestar de diversas formas. E você, acredita em quem vê no espelho?




V.

"Segundo o relato do promotor ao júri, Tony tentou criar pistas falsas ao enviar uma mensagem ao celular da irmã no dia seguinte ao suposto crime, no dia 1º de março, para fazer aparentar que ela ainda estava viva.

Ele depois registrou seu desaparecimento à polícia, que com base nos detalhes passados por ele, categorizou o caso como de baixo risco.

Tony também disse à polícia que um ex-namorado devia dinheiro a ela e que as autoridades deveriam falar com ele."

Vejam bem como ele tenta construir uma história, criar uma meta-narrativa. "Eu não sou o tipo de cara que faria isso, quem faz isso é aquele ex safado dela". Felizmente, a lei ainda dá mais peso aos fatos do que aos testemunhos, mas sabe-se lá quanto tempo isso ainda vai durar.

A cereja no bolo é quando Tony diz que não premeditou o crime (eu acredito, tente fazer um plano coerente depois de fumar n baseados como nosso amigo aqui) mas que não se lembra de nada. Sim, eu acredito que o cara que bebeu 10 vodkas com energético não lembra de nada no dia seguinte, mas se ele passa a manhã preocupadamente deletando mensagens e fotos e rezando pra que ninguém tenha postado nada no Facebook, eu começaria a ter minhas dúvidas.

VI.

Não, eu não sou psicólogo, nem repórter nem nada, mas isso não é motivo pra você quebrar essa garrafa. Eu espero que fique claro que eu não tenho nenhuma pretensão de que "todos vejam a Verdade". Não, não há Verdade. Eu posso estar completamente enganado, e a mídia pode ter distorcido a história até nos detalhes. Mas isso não interessa. Os fatos do caso, a real patologia do Tony, só interessam à família e aos amigos da vítima e à polícia. O que me interessa é a história que você tá lendo.

Sim, tudo isso é meio nonsense. Eu sei. Acabei de falar: o que interessa é a história, e não um ponto de vista absoluto a se ter em relação à história. Dane-se se você acha que o Tony é vítima de abuso de drogas, que isso é um crime que chocou uma nação, blablabla. Dane-se por quê? Porque a mídia já me diz isso a qualquer oportunidade, e repetir o que o repórter/tradutor da Globo disse não é debate nem aqui nem na China (bom, talvez na China). O que eu quero é que você tenha mais de uma perspectiva, e no fundo não importa qual é, e que você nunca esqueça que você é o que você faz.
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