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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Quem irá nos salvar da pornografia?

I.

Olha, existem inúmeros problemas na forma com a qual lidamos com a pornografia. A pornografia, sobretudo os vídeos na internet, nos treinam a ligar o prazer a processos mentais ao invés de estímulos sensoriais. Ela se tornou uma rotina na vida de muitos indivíduos em nossa sociedade pós-moderna. O pornô é junk food, é comer sem estar com fome. A decisão de assistir o pornô vem antes da ereção e portanto deixa as pessoas presas nas próprias cabeças, sem conexão com o presente real.

Mas, pra variar, a causalidade tá toda errada. É muito fácil falar de como a Coca-Cola é uma merda, corporação de merda, blablabla, mas no final das contas a decisão de beber Coca ou não é sua. Ninguém apontou uma arma na tua cabeça e mandou você detonar o Cheetos. A proliferação do pornô é uma consequência do psiquismo do ser humano pós-moderno, é um reflexo de como preferimos lidar com a sexualidade.

"Só mais um pouquinho"


Aqui o pornô é o responsável não só pelos problemas físicos e emocionais de meninas inglesas como também pelo machismo do meninos. O pornô agora é só mais um item numa longa lista de bodes expiatórios. Se a culpa é do pornô, então eu, como pai e educador, não sou responsável pelos problemas dos meus filhos. Reparem que esse tipo de artigo serve exatamente pra reforçar nossa crença de que somos pais exemplares e que as dificuldades de nossos filhos não têm a ver conosco. Se o Joãozinho manda bem, é porque tem ótimos pais, mas se manda mal é culpa da pornografia.

II.

Esse artigo é só um exemplo, mas é um exemplo bom porque mostra a desconexão entre o mundo das ideias, no qual tudo tem uma explicação simples, e o mundo real caótico. Vejam o título: "a pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível". Será que eu aprendi errado o que é panorama?

1. Panorama

Visão ampla e abrangente sob todos os ângulos de coisas ou assuntos.


Tu olhou pra adolescência sob todos os ângulos e não reconheceu nada? Não, eu entendo o que tu quis dizer, mas cara, presta atenção no que tu tá escrevendo. Mas bom, trouxa sou eu se for ficar reclamando que escritores usam linguagem dramática pra chamar atenção, até porque eu faço a mesma coisa, o problema é que a pessoa tinha uma imagem na cabeça que queria transmitir (= mundo das ideias) e claramente não se preocupou com a interpretação que os outros fariam daquela frase (= mundo real).

Enfim, o grande choque é que senhoras inglesas ficam horrorizadas com o comportamento sexual dos adolescentes hoje em dia, pois é, fiquei de cara também.

Uma médica de família me contou uma história dessas recentemente. Leitores com estômago fraco podem querer desviar o olhar agora.

Pois é, é terrível, melhor ir pro Buzzfeed e ler sobre 25 Cirurgias Plásticas Que Derram Errado

Estava jantando com um grupo de mulheres quando a conversa foi para como podemos criar filhos e filhas felizes, equilibrados e capazes de formar relacionamentos significativos em uma era em que a pornografia de internet é tão acessível quanto um copo d'água. Assim como outros pais da nossa geração, estávamos numa jornada sem mapas ou luzes, mesmo que nosso instinto de proteger nossos filhos da escuridão fosse enorme.

Bom, primeiro, se você acha que o mais importante na vida do seu filho é felicidade, o buraco é realmente bem lá em baixo. Sim, a felicidade é legal e tal, mas a felicidade é uma ideia, uma ideia que o mundo real tem o hábito de impedir com uma facilidade desgraçada. Seu objetivo como pai deve ser preparar seu filho pra viver nesse mundo, a felicidade dele é responsabilidade dele, não sua. Volta aquela dinâmica: meu filho é feliz, é porque eu criei ele bem, mas ele é deprimido ou raivoso isso é culpa dos outros. Isso é tudo um jogo de identidades, o que essas mulheres querem é só o rótulo de "boa mãe", elas não tão nem aí pro que é ser mãe de verdade. E ainda tem as caras de dizer que é uma "jornada sem mapas ou luzes", como se a internet, que ela acabou de descrever como tão acessível quanto água, não existisse.

Algumas mulheres presentes disseram que já se forçaram a ter conversas constrangedoras sobre esse assunto com seus filhos adolescentes. "Eu quero que meu filho saiba que, apesar do que ele assiste no laptop, existem coisas que não se faz com uma garota no primeiro encontro, nem no quinto, talvez nunca",disse Joe.
"Grupo de mulheres", "algumas mulheres", mas até o sei "Joe" não é nome de mulher. Mais uma vez, desconexão entre o discurso e o real. E se sexo é tão desconfortável pra você que você tem que se 'forçar' a ter conversas 'constrangedoras', como que não vai ser pra sua filha? Se o sexo não é discutido com naturalidade, ele não vai ser feito com naturalidade.

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: "Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam"
É uma médica falando, podemos ter certeza que não vai dizer besteira, o diploma dela diz que ela é inteligente. Sim, o mundo tá acabando, entendi.

Basicamente, essas mulheres estão hor-ro-ri-za-das com o aumento das lesões sexuais e emocionais sofridas pelas adolescentes inglesas. E olha, eu não quero diminuir o sofrimento dessas meninas, mas vamo ter um pouco de perspectiva histórica, né. Só o fato dessas meninas poderem ir a um médico cuidar disso já faz a civilzação valer a pena. Mas o que tá acontecendo aqui não é uma busca das verdadeiras causas dos problemas das meninas, não, é tudo um jogo de identidade:

A clínica de Sue não fica em uma cidade do interior onde crianças foram brutalizadas ou vieram de culturas onde tal pratica é usada como contraceptivo.

Não, a Sue mora em Hampshire, ela é uma mulher educada, rica, poderosa. É inconcebível que essas coisas aconteçam em nossa sociedade civilizada, estupro é coisa de caipira, de índio. Quando a vida real bate na nossa porta e quebra nossas auto-imagens, de repente o mundo fica preto e branco e a culpa é da representação do demônio du jour: um tempo atrás as bruxas, hoje em dia a Sasha Grey. Lembrem-se, no entanto, que é exatamente isso que os arcontes querem, essa é a arma mais eficaz do fascismo: a invenção de um mal no qual podemos projetar todos nossos problemas, dos quais o ditador benevolente vai nos proteger.

Exatamente o tipo de menina que, apenas duas gerações atrás, estaria provavelmente fazendo balé e sonhando com o primeiro beijo, e não sendo coagida a fazer sexo violento por um moleque que aprendeu sobre intimidade física assistindo um vídeo de sexo em público no celular.

Lúcifer encarnado


Mas isso é culpa do adolescente? É culpa do pornô? Ou será que é culpa de pais que são tão distantes que sequer discutem esse tipo de coisa com os meninos? Reparem como há um tom de que essas questões sexuais podem causar arrepios e calafrios, como ter uma conversa honesta com um adolescente com esse tipo de atitude? A internet tá só preenchendo um buraco deixado pela família.

Pesquisadores dizem  que as causas também incluem  o desejo de alcançar um padrão de beleza irreal, perpetrado pelas mídias sociais  e o aumento na sexualização de meninas mais jovens.

Ah, tava demorando pra citar o outro demo, as 'mídias sociais'. Porque antes não haviam padrões de beleza, isso é coisa de Facebook. Antes do Instagram, as pessoas tinham uma ótima auto-imagem. Maldito Zuckerberg!

O que é novo e perigoso é a habilidade de postar selfies e esperar que a enxurrada de aprovação venha. Você não precisa passar muito tempo com uma garota adolescente insegura (e existe outro tipo?) pra saber que sua felicidade está ligada a ganhar likes ou coraçõezinhos no Facebook ou Instagram.

Se essa menina adolescente precisa de aprovação externa, é porque foi isso que ela aprendeu em casa. Os filhos são constantemente bombardeados com expectativas da parte dos pais e da família, são treinados a agirem de acordo com o ideal cultural dos pais, e depois surpreende que eles se preocupem com o que os outros acham. Quem condicionou seu filho a buscar aprovação foi você, porque em vez de aceitá-lo como ele é, você o força a se encaixar num padrão que não prejudica a tua auto-imagem. Você diz pra sua filha que ela só vai ganhar o brinquedo se tirar nota boa, mas a culpa é da indústria dos brinquedos, da Disney, sei lá.

Somos nós que estamos ensinando às crianças que a aprovação delas depende da imagem que elas passam. É por isso que provas são tão centrais a nosso sistema ocidental de educação: eu sei que meu filho é inteligente não porque eu converso com ele pra saber suas ideias e o desafiar, mas porque ele tirou 10 na prova de ciência. Eu posso mostrar pro meu vizinho que meu filho é inteligente, e certamente sou responasável por isso. Não é o Facebook que faz teu filho buscar aprovação externa, são as tuas cobranças, você tava interferindo no psiquismo do seu filho muito antes dele ter qualquer contato com a internet.

Isso explica porque na Inglaterra mais de 4 em 10 garotas, entre 13 e 17 anos, dizem que já foram coagidas a fazer atos sexuais, de acordo com a maior pesquisa europeia sobre experiências sexuais adolescentes.

Os cientistas vêem isso como sintoma de uma sociedade doente, sei lá o que, mas eu vejo isso como progresso, porque já houve a época em que 10 em 10 garotas entre 13 e 17 anos eram coagidas a fazer atos sexuais. Mas progresso não vende, então tem que ser um desastre nacional.

1 em cada 5 garotos apresentaram "atitudes extremamente negativas contra as mulheres"

Isso se chama machismo, e o pornô que tem por aí é reflexo de uma cultura machista, não foi o pornô que fez teu filho não saber lidar com mulheres, isso ele aprendeu em casa. Reparem que eles não explicam o que são 'atitudes extremamente negativas, mas números! Ciência!

III.

A solução pra nossos problemas


Quando lemos um texto, precisamos sempre nos perguntar: o que o autor quer que seja verdade? Esse tipo de texto existe somente para prover um alvo para nossa bile e nossa raiva. "É um absurdo, precisamos fazer algo para acabar com isso!" Aí o político aproveita sua revolta, passa legislação proibindo certos sites, e sua liberdade diminui a cada dia.

Pára pra pensar, você criou uma filha que não sabe dizer 'não' pro namorado e a culpa é do pornô? Você, supostamente feminista, é tão ausente na vida da sua filha que ela precisa literalmente dar a bunda pra conseguir um mínimo de afeto? Nossos filhos aprendem com nossos comportamentos, não com nossos discursos. Sua filha não sabe dizer 'não' pro namorado da mesma forma que você não sabe dizer 'não' pra corporação que quer que você trabalhe no domingo. Ainda bem que dá pra culpar a Dilma.

É impossível mudar a sociedade sem que mudemos nós mesmos antes. Se criamos nosso filhos para aceitarem que a vontade deles não tem vez, apenas a dos pais, não podemos nos surpreender depois quando esses filhos se submetem à autoridade externa. Ou seja, sua filha não pode dizer 'não' pra você quando você obriga ela a fazer aula de violino, como que ela vai dizer 'não' pro namorado? Queremos empoderar as meninas, mas sentimos necessidade de moldar suas vidas de acordo com nosso próprios ideais absurdos.

Enquanto não tivermos a coragem de olhar pra nós mesmos antes de responsabilizarmos o demônio da moda, todos nós tomaremos no cu.









quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A criação de um narcisista

I.

E ele nunca mais conseguiu parar de ver seu reflexo no lago

Juninho, um machista no capricho

Eu diria melhor. Juninho, um narcisista no capricho. O Miguel Rios quer fazer um comentário sobre a cultura machista, e bom, ele acerta em cheio, não sobre o machismo, mas sobre o narcisismo, por isso vou transcrever aqui o artigo e fazer uns comentários.

II.

Juninho nasceu. Dia de festa na família, de orgulho. O filho varão. Quarto azul, roupinhas azuis. Azul é o ursinho. Azul é o chocalho. Trata-se de um menino, homem, e tem logo que ser identificado com tal. Não deixar dúvidas.

Já temos aí o primeiro problema, os pais vão enfatizar a masculinidade dele mas o que ele vai absorver do ambiente é feminilidade, azul não é uma cor masculina, é uma cor feminina, fria, emocional, depressiva, etc. A cor masculina por excelência é o vermelho. Os pais negam seu lado feminino mas o fazem confrontá-lo todo dia. Parabéns.


Juninho é carregado pelos tios e logo seu pênis, mesmo diminuto, é louvado. "Pintão!". "Esse puxo ao tio!" As tias se apressam em arranjar um par para quem tem um dia de vida. "Agora a filha de Maria e João tem com quem namorar", diz uma. "Tem também a de Pedro e Juliana", lembra outra. Chegam logo a um consenso que ele dará conta de todas.



É garanhão. É homem. Surge a conclusão que ele estava virado para o lado direito, pois, nessa posição, poderia ficar de olho na menininha ao lado no berçário. Conversa vai conversa vem, alguém lança a teoria que quando ele chora as garotinhas se calam para escutar o grito másculo do conquistador.


O lado direito é o lado feminino, conservador


Juninho é homem e como homem será criado. É uma família que nutre a testosterona, a macheza, com muito cuidado. Não podem fraquejar, por tudo a perder.


Reparem que o interesse aqui é o dos pais, não o do filho. Eles não tão nem aí pra como ele se sente, eles só querem reforçar a própria imagem. O problema de acharem que o Juninho é sensível não é que isso é ruim pra ele, mas é ruim pros pais.


O menino cresce e é teleguiado na ordem. Bola e carrinho. Falcon e Comandos em Ação. Um dia Juninho tocou em uma Barbie. De imediato foi repreendido. "Não é para menino". Ele beijou um amiguinho na bochecha. Recebeu uma bronca maior. Roubou um beijo na boca da coleguinha. Quanta alegria dos pais, que fingiram desaprovar diante dos familiares da garota, mas comemoraram em casa o avanço do amado homenzinho. "Esse não nega. Vai pegar todas. Hehehehe!" Como o pai está feliz.

É gradual. Juninho aprende a ser homem, macho, como se espera, é o que tem que ser. O tio o abraça e pergunta: "Quantas namoradas já tem na escola?" Juninho responde: "Sete". O abraço fica ainda mais apertado. Respondeu assim... na obrigação, no escapa. De tanto ser questionado e ficar perdido sem saber o que falar, contou as amigas de classe e jogou o número na inocência. Foi premiado, viu que agradou. Tempos depois aumentou para oito. Mas comemorado ainda. Juninho fixou que quanto mais aumenta a soma, mais homenageado é.

É óbvio que o Juninho não tem literalmente sete namoradas. O tio só reforça que o que vale é apenas a imagem, a impressão que você causa. O abraço é mais forte não porque ele tem várias namoradas mas porque ele disse que tem várias namoradas. O Juninho aprende que o conteúdo real não é importante, apenas o que as pessoas acreditam.


Aprendeu. Homem tem que pegar muitas, tem que contar que pega muitas e aí causa contentamento. Mulher é feita para ser apanhada. Juninho já sabe que isso "é coisa de homem", que "homem é assim mesmo", "que quem quiser que prenda suas cabritas que o meu bodinho está solto". Juninho fixou.

Chegou na adolescência e tem consciência de que o mundo é machista, desde o começo é desse jeito, fim de papo. Ele dos que saem e paqueram. Dos que se ligam em uma garota e vão para cima. Dos que acham que a fêmea tem que ceder, que sua cantada é imbatível, que insistir é fundamental.
Juninho aprendeu com os parças que a mulher vai ali para ser incomodada, que ela faz doce, mas ela está querendo, que não tem que abrir para o beicinho dela, que macho que é macho não desiste. Ele já beijou forçando, puxou cabelo, levou tapa na cara e bateu de volta.

Ou seja, as mulheres não tem individualidade, só têm papeis, elas não são Maria e Roberta e Laura, elas são a puta, a virgem, a popular, a nerd, etc. O narcisista não vê um mundo repleto de sujeitos, ele se acha o protagonista de um filme e todos os outros são só tipos, estereótipos, personagens secundários. Se elas são apenas imagens, é claro que não têm vontade própria, a única função delas é em relação a ele.


Juninho modelou a mente para identificar a menina para ficar e a para namorar. Normas que ele segue à risca, porque homem que é homem de respeito não se liga à vagabunda, não quer ouvir "tás com uma rodada?". Para namorar é a menina com menos fama de ficante possível. A comportada. A virginal. Para dar uns pegas é a liberta, a sem amarras, que ele conhece como piranha. A que não vai rejeitá-lo. A que taxaram como sempre disponível. Que é ir lá e pimba!, já pegou. Que se recusar ele tem o direito de reclamar: "Como assim ele ser recusado?", "Como assim aquela puta posar de difícil?". Juninho não entende. Não admite. Não foi o que lhe disseram desde sempre, está fora do eixo.



O problema, reparem, não foi ser rejeitado pela Fulana, foi ele ser visto como rejeitado. É claro que ele vai criar racionalizações, "ela é uma puta", mais uma vez apelando prum papel.



Não é o que lhe cobram. Juninho sabe que precisa corresponder. Caso algum requisito do macho ideal falte em sua ficha, ele tem que pagar. Preço, para ele, duro.



Ênfase minha.



Se Juninho tropeçar diante da banca examinadora, que nunca para de fiscalizar, é chamado de gay. Instantâneo. Se fraqueja na caça sexual, é veado. Se usa um sapato fora das regras, é boiola. Se pede um chá na cantina da escola, é bicha.



Ou seja, qualquer indício de que ele é um sujeito tem que ser escondido pra reforçar a imagem. Mas o resultado disso é que não há mais Juninho, há apenas mais um macho alfa.



Inadmissível para ele. Juninho foi doutrinado para pensar que, mas que tudo, homossexualidade é o que há de pior. Que seus tios e tias, primos e primas, avôs e avós, mãe e pai, sempre o guiaram no cabresto, com tanta pressão, tanta vigilância, tanto esforço, para evitar a desgraça. Que ele pode ser tudo. Machista, tarado, bandido, dar desfalque, trair um amigo, ser violento, mandar pessoas para o hospital. Tudo. Menos a desonra de ser gay.



Juninho treme apenas em pensar na possibilidade de que alguém bote sua macheza em dúvida. Nunca. Logo ele que para desmerecer chama logo de veadinho. Logo ele que vai para o estádio torcer e grita sem parar "Fulano, veado", "Time de mariquinhas". Que nem cogita ter um jogador homossexual manchando as cores de seu manto sagrado. Que caso ocorra vai ameaçar o cara,manda sair, já em pânico pela chacota que o adversário vai fazer pelo resto da vida.



Logo Juninho que não lava um prato, nem arruma a cama por ser trabalho de mulher. Logo ele que abusa dos gesto viris. Que abraça amigo quase na porrada para que o afeto não seja confundido com delicadeza. Que grita palavrão quando uma garota de minissaia passa, que coleciona Playboys, que de jeito nenhum chora porque nada a ver ser sensível, que transa mesmo sem estar a fim apenas para manter a reputação intacta.



Um comportamento muito comum, se você reparar, não, não o que eles dizem, o que eles fazem, é ficar se agarrando um ao outro. O autor explica bem: eles usam a desculpa da porrada, mas seja o que for, eles falam que tão se batendo mas o mundo vê eles se pegando. Lembra que eles adoram UFC.



Que acha que o mundo corre perigo de enveadar por causa dos direitos LGBTs. Que ficou sabendo que ativista homossexual é gayzista, que ser homofóbico é apenas bater em gays, que destratar, querer que continuem subcidadãos, subalternos, é defender o orgulho hétero, as famílias, a ordem natural. Que acha o mundo é hipócrita, já que ninguém quer ter filho gay, mas ficam defendendo.



Isso é projeção, o hipócrita é ele, ele sabe que os gays merecem os mesmos direitos que todo mundo, mas ele não pode admitir isso, nem pra si mesmo.



Juninho é algoz e vítima. O mundo, que ele tanto acredita ser imutável, que como está deveria ficar, solidificou aos poucos, desde quando bateu suas primeiras palminhas, o que ele prega.



O mundo de Juninho é o de verdades velhas, fabricadas por interesse, de seus antepassados, que ele absorveu como suas. De que há pessoas subordinadas, que o lugar delas é aquele, que não têm nada que contestar. Elas têm é que se contentar.



A ideologia primária não é anti-gay ou anti-mulher ou que quer que seja. O que interessa é que você aceite seu papel de bateria da Matrix, que você não questione nada, que você se submeta à autoridade. Eles se posam de macho alfa mas no fundo são os machos ômega.



Juninho é um rei. Está no lucro. Posto no topo da cadeia alimentar, em um ecossistema onde outros são presas. Para capturar, acasalar, procriar ou para destruir. Ele luta para perpetuar seu lugar dominante.



Isso é o que ele quer ver. O melhor escravo é aquele que não sabe que é escravo, que se acha o rei.


Juninho não atenta, em seu silêncio crítico e criativo, o quanto ele nada tem de atitude. De ele mesmo. É um papagaio, uma cópia. Um escravo, que asfixiou uma parte de si para dar satisfação, se moldar ao que se quer dele. É passivo.

Ele não asfixiou uma parte de si, ele se asfixiou por completo. Não há Juninho, nem ele acredita mais nisso.



Mas Juninho está nem aí, nem vai chegando. Raciocínios novos são frescuras de veado. Ficar lamentando injustiça é mimimi de veado. Homem bebe, arrota e dá no couro. E fica tudo bem.



Juninho tem mais é que se preocupar com o casamento que se aproxima. Com menina que ele desvirginou e engravidou. Não está muito na de juntar as escovas de dente, já caiu na greia dos companheiros, de que vai para a forca, que perder a liberdade, mas ele se compromete a não deixar a farra e a pegação. "Mulher em casa nada impede mulher na rua". E arranca gargalhadas. Se não der certo, separa e volta por completo para a curtição.



Na verdade o provável é que ele traia ela de mais em mais frequentemente, com mulheres de mais em mais jovens, porque ele não conseguirá aceitar o fato de que está envelhecendo, a única coisa que ele sabe fazer é pegar piranha, mas vai chegar uma hora que todo o Viagra do mundo não vai levantar o pinto desse cara. Ela vai ficar com ele porque ela não conhece outra coisa, presta atenção, ela tá com o cara que desvirginou ela até hoje. O mundo inteiro dela tá no dele porque os pais dela não ensinaram ela a ter respeito próprio, a valorizar a si própria, olha com quem ela casou porra.



O importante é que Netinho nasce daqui a seis meses. Enxoval azul já encomendado. Max Steel e Hot Wheels na prateleira. Netinho vai puxar ao pai. Macho todo.



E aqui está o problema de verdade. Já não há mais esperança pro Juninho, ele já ficou pra trás. E agora, quem vai salvar o Netinho?

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Não é raiva, é inveja

I.

Lúcifer encarnado

Se você entrou na internet na última semana, você deve ter visto a tragédia mais relevante dos últimos tempos. Se você pensou na Síria ("fica perto do Oriente Médio, né?") ou na erosão da economia mundial ("quê? eu comprei um iPad ontem!"), parabéns, você ainda tem chance. Se você pensou na escolha do Ben Affleck pro papel do Batman no próximo filme do Super-Homem (?!?), se remova do genoma humano antes que seja tarde demais.

Fãs realizam petição para tirar de Ben Affleck o papel de Batman

Puta que o pariu. Eu não sei nem por onde começar.


II.

Pense bem: cada segundo que você passa criticando a decisão ou assinando petições é um segundo que não contribuiu absolutamente nada nem pra si mesmo nem para os outros. Você realmente tem alguma ilusão que uma petição vai fazer com que os produtores voltem atrás? A única maneira que você tem de influenciar essa decisão é de não assistir o filme, mas eles sabem que isso nunca vai acontecer, então eles ganharam.

"Mas eu vou ver o filme na internet, não vou dar dinheiro pra eles." Talvez, mas você vai conversar sobre o filme com teu broder, que depois vai querer assistir no cinema. Eles ganharam de novo, esquece cara, eles são muito mais experientes nisso que você. Você realmente acha que o Pirate Bay continuaria a existir se os picas-grossas da indústria do entretenimento não deixassem? Se você respondeu que sim, eu conheço um príncipe nigeriano que precisa da sua ajuda com uma transação bancária.

O fato é que você tá fazendo um enorme investimento psíquico numa questão que é, no melhor dos casos, superficial. Mas tudo bem, eu entendo, se você investir sua energia psíquica no autodesenvolvimento vai se dar conta que sua vida é uma mentira, é difícil aguentar esse tipo de choque. Isso é, mais uma vez, masturbação. Pensa bem: seus 15 minutos foram mais mal gastos do que com uma punheta, porque pelo menos com a punheta você goza.


III.

A única coisa que interessa pros produtores é quanto dinheiro vai entrar na conta deles depois que o filme sair. É por isso que eles gastam centenas de milhões pra promover os filmes, a ideia é saturar você com a ideia do filme até que você assistir o filme seja inevitável.

Ou seja, quando você chama o pessoal pra participar na petição, a única coisa que você tá fazendo é promover o filme, porque o que importa é que as pessoas estejam falando sobre o filme, foda-se o conteúdo efetivo da conversa. Até uma prostituta ganha um pouco de (ou muito) dinheiro quanto ela vende o corpo. Você vendeu a alma e não ganhou um tostão.

A escolha do Ben Affleck foi uma controvérsia fabricada, eles não escolheram ele apesar da reação dos fanboys, eles escolheram ele por causa da reação dos fanboys. Eles contaram com sua petição, cara. O artigo acima ainda faz o favor de mostrar a futilidade dessa discussão dando o exemplo da reação dos fanboys à escolha do Heath Ledger. Eles reclamaram, resultado, o Heath Ledger virou um rock star e dirigiu seu carro até o pôr do sol.

Alguém lembra da atrocidade que foram os filmes do Batman que vieram antes do Chris Nolan? Schwarzenegger e Jim Carrey, sério? E o Ben Affleck é ruim? Olha, eu até concordaria se fosse dez anos atrás. Todo mundo fala do Demolidor (?!?) mas esse cara fez Gigli, desculpa, Contato de Risco, puta merda, mas felizmente o Ben Affleck não é que nem você, ele evolui, ele cresceu, e hoje em dia ele tem uma pilha de Oscars e buceta à la carte e você não tem nada.


IV.

Falar mal do Affleck é fácil, mas eu te garanto que você trocaria de vida com ele num piscar de olhos. A verdade é que ele é perfeito pro papel: ele é branco, ele é atraente, ele tá perto dos 40, ele é um bom ator. Que mais você quer, porra? Mas não, o problema não é que ele não daria um bom Batman, eu te garanto que vai tar todo mundo pagando pau quando o filme sair, o problema é que ele não é quem você imagina na sua fantasia do Batman.

O Christian Bale é conhecido por fazer papeis difíceis e sombrios, portanto ele é bom, enquanto o Ben Affleck faz filmes de ação e comédias românticas, portanto ele é ruim. O que você esquece é que eles são atores, eles são pagos pra mentir pra você, os papeis que eles tiveram antes do Batman não tem absolutamente nenhuma relevância ao desempenho deles como Bruce Wayne.

Mas isso é só secundário, a principal razão que você não consegue imaginar outra pessoa no papel é que os filmes do Nolan foram seu primeiro contato real com o Batman (não, assistir o filme do Tim Burton aos oito anos não conta), ele que é o SEU Batman. Ou você acha que seu primo mais velho não achou que o Christian Bale era uma péssima escolha? (tá, tudo bem, talvez nem tanto porque qualquer pastel seria melhor que o George Clooney, que claramente tava zoando com o diretor - e por extensão, com você)

A única maneira de descobrir se o Affleck vai ser bom como Batman vai ser de assistir a porra do filme. O que acontece é que você não consegue sair dessa bolha que é sua existência, em que tudo gira em torno de você. A escolha do ator TE desagradou, portanto você vai mover mundos e fundos (= fazer uma petição, xaropar no Facebook) pra deixar perfeitamente claro pra todo mundo que você é um grande conhecedor do cinema e sabe melhor do que ninguém quem seria ideal pro papel. Tudo isso é uma ótima distração à percepção que você é praticamente irrelevante, ou seja, inexistente.

Eu aposto que você pensa que se fosse um quaquilionário você também seria um justiceiro. Talvez não enfrentando mafiosos e corruptos, mas de alguma forma. Mas isso é uma fantasia, se você tivesse nascido num berço de ouro você taria cheirando coca na bunda de uma stripper e batendo racha bêbado com sua Porsche. O que tornou o Bruce Wayne no Batman foi a morte dos pais dele. Ele (relativamente) rapidamente chegou à conclusão que toda a riqueza no mundo não preencheria o vazio que ele sentia, nada fazia sentido na vida dele, na verdade ele só virou o Batman porque ele não tinha nada a perder.

Se você tivesse a escolha de ser o Batman, mas tivesse que perder seus pais aos 8 anos, você o faria? Eu também não. Não é a vida do Batman que você quer, é a máscara dele.


V.

Tudo bem que é um alvo fácil, quem passa seu tempo em sites assim não tem muita esperança anyway, mas vale mostrar alguns pra exemplificar o que eu tou falando:

As pessoas nao tem mesmo mais com o que se preocupar ne?

Realmente, essa galera que fica postando nos sites da Globo é foda

Só lembrando, ele acabou com o Demolidor!!!!!!!!!!!!!!!!

Não, quem acabou com o Demolidor foi você que não consegue assistir um filme em que ninguém usa uma máscara (e você é o que você consome)

Samuel L. Jackson é o Nick Fury, CHRISTIAN BALE é o Batman, Matt Damon é o Jason Bourne. Certas coisas não se deve mudar.

Certamente não você né campeão

Acho que tem que ser o Christian Bale novamente,ele é perfeito…

Errado, ele pode ser o melhor ator da história mas ele ainda é um ser humano (uma característica clara do narcisismo é uma incapacidade de ver indivíduos, apenas imagens, tipos)

O resto dos comentários é do mesmo naipe, "eu acho", "eu acredito", "na minha opinião" PUTA MERDA EU JÁ SEI, seu nome tá logo acima caralho. É tudo eu, eu, eu, o que acontece aqui não é avaliação crítica, não é distanciamento objetivo, é afirmação de identidade. O problema é que essas pessoas tão afirmando a identidade delas num vácuo, elas não conhecem as outras pessoas que tão postando, elas tão fazendo isso unica- e exclusivamente pra se reafirmarem pra si mesmas

"Ah mas você tá aí falando desse assunto, quem é você pra criticar?" sim, tudo bem, a diferença é que você tá se posicionando como PhD em Batmanologia, enquanto minha pretensão é apenas ser um espelho. O que você vê?

domingo, 18 de agosto de 2013

Inteligente ou inconsciente?

I.

Pessoas inteligentes

"Pessoas mais inteligentes dormem tarde, afirma estudo." Eis a manchete de um artigo postado no blog Engenharia É. O que você acha que tá lendo é que a ciência mostra que seus hábitos noturnos foram justificados, mas o que você lê de verdade é somente um reforço a sua identidade, à identidade que você acha que escolheu pra você mesmo. Se você tá lendo esse blog, certamente você se acha um cara inteligente, e provavelmente é, pelo menos num sentido de capacidade de raciocínio lógico e espacial. Mas o que esse artigo realmente faz é dar uma desculpa pra você não mudar. Se você leu, é pra você.

Vamos olhar pra você, Pedro Henrique, aluno de engenharia. Você tá no 6o semestre, já bombou uma ou outra matéria, não sabe direito o que quer da vida ainda, mas ei, pelo menos vai ter um bom emprego quando se formar, certo? Você tá passeando pelo Facebook às 3 da manhã, e vê a manchete acima. É claro que você vai clicar no link, porque isso permite que você alivie a sensação de inutilidade que pervade sua vida. Esse artigo vai passar a mão na sua cabeça e te assegurar, dizendo que não é culpa sua que você passa seu tempo memorizando dados e jogando videogame e dormindo mal pra caralho, é porque você é um cara Inteligente, é você que vai salvar o mundo do Feliciano, naquele momento mágico em que você for O cara.

Uma rápida passada pelo artigo, e amanhã você comenta isso com teu broder enquanto vocês matam a aula pra comer um salgadinho: "Quem dorme mais tarde é mais inteligente!" Repare que você trocou a causalidade sem nem pensar no assunto. Isso é porque esse artigo, esse estudo, são uma fraude. Começa com o estudo: cadê ele? Não tem nenhum link pra tal estudo, só pro jornal de onde eles tiraram essa informação. Isso já devia acionar seus alarmes, mas eu acho que duas décadas de Coca e Cheetos devem ter deixado ele meio defeituoso. Mas tem pior.

II.

"Outros estudos encontraram uma ligação entre o período vespertino com tirar notas boas na escola"

"Outros estudos", ou seja, impossível saber se foi algo rigoroso ou se eles só tiraram isso tudo da bunda e assinaram os nomes de cientistas em baixo. Mas tem outro problema. Você pensou "eu tirei boas notas, eu durmo tarde, há, sou eu!", parabéns, pode mandar seu contracheque direto pro BB e pro PT, você perdeu, cara. Quem sai ganhando aqui é o Sistema, porque você continua vivendo sua vida medíocre, achando que tá tudo bem porque você é "inteligente". Você já parou pra pensar o que são notas e o que elas medem? Vou te dar uma dica: não é inteligência.

Achar que é "inteligente" pode funcionar pro PH enquanto ele tá na facu, mas não vai adiantar muito quando ele tiver se divorciando e odiando o emprego dele fazendo banco de dado pro TCU. Esse tipo de artigo não é ciência, é masturbação, é punheta mental. Pro blog ele serve pra gerar conteúdo, porque os editores sabem que você vai acabar postando esse link no muro da sua mãe, e olha só que bacana, saiu um livro novo do Dan Brown, como que eu não sabia disso?

O PH nunca parou pra pensar que nenhuma criança na história disse "quando eu crescer, quero ser programador de banco de dados!". Quando ele era pequeno ele tinha sonhos de ser jogador de futebol, de ser caubói, de ser ninja. Hoje em dia o sonho dele é sentir tesão pela mulher que tá cada dia mais gorda e mais perua, mas nem isso rola. Ele esqueceu dos sonhos dele pra viver uma fantasia que ele absorveu dos pais/família/sociedade/cultura. Pra isso que serve esse tipo de artigo: depois de mais uma noite em que a mulher dele tem dor de cabeça, ele se lembra que pelo menos ele é inteligente, ele dorme tarde. Ah, mas hoje em dia ele não dorme mais tarde. Será que ele emburreceu?

III.

Toda psiquê é possuída de mecanismos de defesa, sem os quais seria impossível sobreviver os massacres diários da vida. Precisamos ter um sentido de identidade consolidada, senão não dá pra aguentar seu chefe cretino: "eu posso ser um reles empregado, mas pelo menos não sou um babaca que nem ele". O problema é que o pai do PH foi ausente ou fraco, ele prestava mais atenção ao futebol e à secretária dele do que aos próprios filhos. Resultado: o PH nunca aprendeu a superar os mecanismos de defesa, ele ficou subserviente a eles, a mãe dele disse que ele podia ser qualquer coisa e o pai dele não disse porra nenhuma e agora ele acha que precisa ser tudo, sem ser nada.

O PH aprendeu que ele pode escolher o que ele quiser, o que parece lindo, mas o problema é que ninguém ensinou pra ele COMO escolher. Depois ele se encontra fazendo inscrição no vestibular, sem nunca se perguntar pra que diabos serve essa merda de vestibular, não, os pais dele sempre reforçaram que o importante era ele passar no vestibular, senão não ganhava carro, e como ele não aprendeu a escolher ele deixa os outros escolherem por ele. E ele escolhe uma engenharia qualquer, meio arbitrariamente, porque aí a mãe dela ia poder se gabar pra vizinha: meu filho passou em engenharia! E daí?

Anos depois, o PH tá miserável na engenharia, ele só estuda pra não receber bronca dos pais por bombar mais uma matéria. Estuda porra nenhuma, memoriza. Ninguém ensinou ele a estudar também. Só que largar o curso tá fora de cogitação, todo mundo ia ver que ele não é "inteligente" nem "responsável". A mãe ia ficar horrorizada. "Tudo bem, eu vou fazer um concurso, aí depois que eu passar eu posso descobrir quem eu sou." Resultado: mais alguns meses ou anos de memorização inerte, um concurso nada meritocrático, dois semestres de francês, uma viagem pra Europa, algumas aulas de violão, e a percepção que ele tá mais perto dos 40 do que longe.

O que nos leva a um ponto crucial no artigo:

IV.

"A pesquisa também afirma que  as pessoas que ficam acordadas até tarde são menos confiáveis e mais propensas a sofrer de depressão e vícios diversos."

Ele nunca vai admitir isso pra ninguém, mas o Pedrinho sabe que no fundo ele não é confiável e que ele é deprimido e viciado em pornô/bebida/maconha/videogame. Ele racionaliza/projeta que quem não é confiável é o Malafaia, é o Sarney. Mas ele sabe que no fundo esse "estudo" tá falando dele, que não precisa se preocupar com a depressão e o vício porque ele é "inteligente", e ele pode falar isso pra mãe, que conta pra vizinha que sim, meu filho dorme absurdamente tarde, mas isso só mostra que ele é inteligente (NB. como ela sabe que não fez merda nenhuma na vida, ela usa o filho pra se redimir).

Ou seja, ele ainda faz tudo pra manter a identidade que passaram pra ele, de que ele é inteligente porque ele tirou nota 10 na prova de ciência da 5a série. Já que ele nunca se preocupou em procurar uma identidade própria, já que ele recebeu tanto reforço positivo pra ser quem mamãe queria que ele fosse (tudo que ela não foi), ele não consegue se imaginar sendo outra coisa. O artigo e punhetas parecidas são o que faz com que o Pedro Henrique não tome duas caixas de Dorflex, ao mesmo tempo em que impedem que ele reconheça que ele não é tão "inteligente" assim, mas que não tem absolutamente nada de errado com isso.

domingo, 17 de março de 2013

A culpa é de quem eu elegi!

I.

Renan Calheiros resolveu vender sua casa, pois o IPTU está muito alto


Dois dos grandes tópicos do momento (tá, da semana passada...retrasada) são os cargos atingidos pelo Padre Feliciano e pelo Renan Calheiros. Meu Deus, o Facebook pegou fogo. "Que absurdo!", "Temos que fazer uma petição agora!", "Protesto no dia 20!". Enquanto isso, alguma maracutaia muito absurda tá rolando debaixo dos nossos narizes e a gente só consegue prestar atenção no Feliciano falando mal dos gays ou dos negros.

Não se preocupe, não vou vir com aquela velha lição de moral de que você provavelmente nem se lembra em quem votou pra deputado (o que não deixa de ser verdade), portanto devia participar melhor do processo democrático pra ter direito de reclamar, blablabla. Eu não tou nem aí pra quem você votou porque não faz a menor diferença. Mesmo se você se lembra em quem votou, você sabe me dizer quem foi responsável pela melhoria na rodovia? Pra qual vereador você tem que agradecer pela renovação da escola? Se o cara em que você votou é, basicamente, bom ou ruim no trabalho dele? O que faz, exatamente, um deputado? Ah, ele faz lei. Ah...mas pra quem e por quê?

Prova de que não é importante é que no Brasil, pra ser eleito basta ser famoso, não importa o motivo. Vide o Tiririca, o deputado mais votado nas últimas eleições. Mas tudo bem que ele com certeza teve ajuda dos hipsters, que votaram nele porque seria "irônico". O próprio Tiririca mostra que, se você tem grana, não precisa nem saber ler e escrever direito - o que importa é que seu nome seja reconhecível. Isso sem contar que as pessoas nem votaram no indivíduo: votaram num papel, numa imagem. Ninguém votou pro Francisco Silva, todos votaram pro Tiririca - um personagem.


II.

Um belo dia, você tá lá postando mais uma foto sua no espelho, quando aparece um link pruma petição contra o Renan Calheiros. "Ah, boto fé, vou assinar. Foda-se esse Renan Calhorda." E você se sente uma bela duma cidadã. Comenta com todos seus amigos que assinou a petição. Até quem não tá nem aí vai ficar sabendo. Enfim, resultado final da petição: Renan Calheiros continua presidente do Senado. E mesmo que ele caísse, ia entrar um cara igual, só que talvez com uma aparência um pouco mais honesta.

Eu aposto R$50 que você nem sabe quantas assinaturas precisam pra que a petição valha alguma coisa, ou se é que é possível que faça uma diferença. O que interessa é que seu nome tá lá, e portanto você é um Cidadão. "Eles deviam se sentir assim na Grécia antiga!" Meu amigo, se você acha que consegue ter um mínimo de noção de como se sentia um grego, esquece, você não tem noção nenhuma.

É a mesma coisa com o protesto. Eu admito que já fui a um desses, mas também admito que me senti ridículo marchando numa faixa da pista, 500 pessoas no máximo, carros passando ao lado, a polícia ditando tudo. Mas que seja um protesto de dezenas de milhares de pessoas. Nada disso vai fazer diferença nenhuma porque a única coisa que importa é a eleição, e os políticos se preocupam muito mais com a massa popular religiosa do que com um monte de aspirante a revolucionário (eu convido quem tiver usando uma camisa do Che a viver da França na época do Terror que sucedeu a ilustre Revolução). O que um político quer é que qualquer um de nós quer: um emprego fixo. E o que ele precisa pra manter o emprego dele é ser eleito. E você que vota nele.


III.

Perceba que a faixa não quer dizer nada

Mas a grande sacada, o grande truque das eleições é que elas satisfazem tanto eleitores quanto candidatos porque nada muda no final das contas. O deputado sabe que vai ser re-eleito sem muito esforço porque ele pode essencialmente comprar os votos da maioria leiga, funcionalmente analfabeta, e portanto garantir seu lugar na mesa dos adultos. Do outro lado, o eleitor ganha porque ele fica totalmente livre das consequências de suas ações: o que der errado é culpa do governo/da oposição. Todo mundo esquece que ser cidadão significa ser responsável pelas escolhas de seus representantes.

E é aí que entra o outro fator: o governo é algo distante. É algo a qual não nos sentimos intimamente ligados. Desse jeito fica muito fácil ficar culpando os políticos, porque eles são praticamente lorde feudais (pense bem, eles colhem os impostos e gastam em seu próprio benefício) então a gente não tem culpa se eles só fazem merda. Enquanto você não se sentir responsável pelo que você vê na sua frente, enquanto você não se admitir que é parte da corrupção que ocorre de maneira absurdamente aberta, a situação vai permanecer do jeito que quem tá no topo quer: a mesma.

O clássico exemplo é o fulano que reclama a torto e à direita do governo, e dos partidos, e do presidente, mas que não sente nenhum remorso por furar sinal, por enganar a Receita, por colar na prova da faculdade. Os políticos são convenientes porque eles te ajudam a projetar seu próprio lado corrupto neles, se sentindo desse jeito livres de corrupção. O que vale é o que a gente faz, não o que a gente fala.


IV.


Uma solução é não ser responsável pela corrupção. Eu não voto, portanto não me sinto culpado quando descubro que um deputado roubou não sei quantos milhões. Por outro lado, eu também aceito as consequências disso, ou seja, que quem se eleger faz o que quiser. É o que acontece de qualquer jeito, então whatever.

"Ah, mas e se eu não votar, os que vão contra meus princípios vão ser eleitos!" Só que o único princípio que os políticos servem é a auto-preservação, já que a política atrai quem quer poder, não quem quer fazer mudanças reais no mundo. Sempre vai haver deputado honesto - mas até que ponto ele é honesto só na imagem? O voto é secreto! Você nem sabe pra quem seu deputado tá votando, como você sabe quais são os princípios dele?

O único jeito que você tem de mudar o que quer que seja é de ser responsável pelas próprias escolhas. No entanto, é decididamente mais fácil quando a mamãe-governo tá ali pra nos proteger se algo der errado. O governo tá ali pra te proteger de você mesmo - é só ver a proibição contra as drogas. Não tomar heroína deveria ser uma escolha moral e pessoal, não a escolha do governo. No Brasil, não nos responabilizamos por nosso uso de drogas. Se você nunca tomou heroína porque é ilegal, então tá na hora de cortar o cordão umbilical. Você não devia tomar heroína porque ela te fode, mas se você quiser se fuder, quem sou eu pra julgar? O corpo é seu.

E se você ainda tem fé no poder do seu voto, eu só te lembro que o Fernando Collor é senador hoje em dia. Um povo tem o governo que merece.

sábado, 9 de março de 2013

Se um não quer, dois não transam

I.

Uma cruzada feminista não deixa de ser guerra

Você não precisa ter um doutorado em psicologia social pra saber que o Brasil é um país tremendamente machista. Certamente as feministas não nos deixam esquecer. E o pior é que grande parte do machismo é velada, inconsciente. É que nem o racismo: o problema geralmente não é que a pessoa é racista intencionalmente, mas que ela nem sabe que está sendo racista. Nesse sentido, o avanço do feminismo é positivo, feminazis à parte, porque traz à tona a questão do preconceito sexual e da objetificação. A questão é: nossa atitude em relação ao preconceito e à objetificação ajudam a eliminá-los, ou, em muitas instâncias, simplesmente o reforçam?

Façamos uma analogia com os Estados Unidos. O que acontece lá? Cada dia que passa as opiniões lá se tornam de mais em mais extremas. Hoje em dia não há mais espaço para a conciliação: ambos os lados se recusam a ceder o que quer que seja, e botam a culpa de tudo nos opositores. É claro que nesse caso a situação é mais ampla e mais grave, mas é um bom indicativo de onde as coisas podem acabar aqui: de um lado os progressistas, de outro lado os conservadores, ou seja, feministas e machistas. Vale perguntar: até que ponto o feminismo ativamente encoraja o machismo? Nos Estados Unidos, se você é democrata e discute com um republicano, você só acaba reforçando a imagem dele, e o extremismo reina. Veja aqui para entender melhor como funciona essa dinâmica.

"Mas que absurdo, o problema são os machistas cretinos!" Sim, eles são a origem do problema. Mas numa briga a culpa é tanto de quem começa quanto de quem continua. É claro que as pessoas devem continuar lutando por igualdade de direitos (e deveres, mas ninguém gosta de falar disso no Brasil), mas é preciso tomar muito cuidado com nosso discurso. É claro que há uma tremenda objetificação, mas o problema não é que apenas as mulheres são objetificadas, mas que todo mundo é. É claro que as mulheres são alvo de preconceito, mas quem realmente tenta entender por que isso acontece?


II.

Você vai pensar que eu tou sendo um puta hipócrita falando que o discurso feminista é muito opositorial, sendo que eu mesmo provoco e enfatizo as oposições? Mas a questão é justamente essa: eu tou fazendo de propósito. Eu provoco pra que você não tenha uma atitude passiva de "ahã, ahã" - é por isso que eu não tou aqui declamando os absurdos do machismo: bastante gente fala disso. Eu enfatizo as oposições pra que você perceba que há oposições e que eles afetam nossa visão de mundo em todos os aspectos. A ideia é que você olhe para si mesmo de uma perspectiva diferente - as conclusões às quais você chegar são problema seu.

Da mesma forma que no exemplo citado acima, dos evangélicos versus os ateus, se você tá participando da batalha, você já perdeu. Se o cara vem e fala que a mulher foi estuprada porque as roupas dela (ou a falta de roupa, no caso) provocaram o estuprador e a culpa não é dele, olhe pra ele com desdém porque esse tipo de opinião não merece seu tempo. Se você começa a debater o cara, ele só vai ficar defensivo e vai insisitir ainda mais na (i)lógica dele. Esse tipo de argumento não é mais sobre lógica ou filosofia ou o que seja, é pessoal, é sobre eu x você. Aliás, não exatamente. É sobre a imagem de 'eu' x a imagem de 'você'.

Esse cara que culpa a mulher no caso do estupro não chegou a essa conclusão porque ele fez uma decisão racional. Desde o século XVII, o racionalismo tem bombado, e realmente, naquela época precisava mesmo, mas o que aconteceu foi que acabamos nos esquecendo que a irracionalidade é 50% da realidade. Esse cara diz que é culpa da mulher porque ele tá se identificado como "macho de verdade". O machismo dele não é uma escolha consciente per se, mas um sintoma da escolha de imagem dele. Ele tá preocupado demais com o que as pessoas acham dele pra refletir sua própria moralidade, e se ele tenta estabelecer essa identidade de macho, é porque de alguma maneira ele é recompensado. O problema não é que ele é machista, o problema é que ele é narcisista.


III.

Mas falemos de objetificação. Vamos deixar bem claro que o papel da mídia é execrável, pra você não vir gritando sobre os padrões inatingíveis. Mas quem que tá consumindo a mídia mesmo? A mídia é má, pode até ser, mas ela só faz isso porque dá IBOPE. A questão aqui não é a mídia, ainda tem muita propaganda por aí pra comentar isso.

Pra entender essa questão melhor, precisamos considerar a diferença entre sexo e masturbação. O que os dois têm em comum é que em ambos os casos há uma expressão da sexualidade, da libido. A diferença é que no sexo você transa com um outro ser humanos, enquanto que na masturbação você transa com um objeto. Mas isso é óbvio, certo? O que não é óbvio é que masturbação não é só o que você faz no chuveiro sozinho. O Carnaval, por exemplo, é um festival de masturbação.

"Uai como é que é masturbação se eu tou transando com a outra pessoa?" Não, você não tá transando com outra pessoa, você tá transando com um objeto. Você só tá preocupado em gozar, em botar mais nome na sua lista de conquista, em dizer que pegou geral. O que rola não é uma troca de energia vital com outra pessoa. Ou vai querer me convencer que você liga pra outra pessoa? Que você quer saber o que ela gosta de ler, o que ela do marxismo, de onde vem a família dela?

Veja bem, isso não quer dizer que há algum problema com a masturbação. Masturbação é divertido e todo mundo faz de vez enquando, sozinho ou não. Quem não goza fica pirado (vide os escândalos sexuais nas igrejas onde os padres são celibatos), não há dúvida. Mas que fique bem claro: masturbação é sexo com objeto. Se você vai no churrasco da universidade e depois reclama que os caras lá são todos babacas machistas, o problema é que você foi lá em primeiro lugar. Você sabe que as pessoas lá vão te encarar como objeto, esse é praticamente o objetivo declarado do evento! "Chupol", chama o churrasco do curso de Ciência Política. Se você sai num encontro com o cara e ele passa o tempo todo olhando pros seus peitos e não presta atenção no que você fala, sim, ele é um cretino. Agora, se você vai de mini-saia e decotão pruma bacanália qualquer, o cara que fica olhando pros seus peitos não é cretino, ele é honesto. É uma questão de intencionalidade.

Ou seja, há objetificação sim, mas tenho que repetir: se um não quer, dois não brigam. Se você fala em "pegar vários" ou só quer um monte de one-night stand, massa demais, só não vem reclamar que não consegue achar homem/mulher que preste. "Ah mas o cara que pega vários é garanhão, e a mulher que pega vários é fácil, isso que é o machismo!" Sim, então faça o que é melhor pra todo mundo: vá embora. Não converse com essa pessoa. Se você não dá valor ao comentário que você é 'fácil', então esse pedaço de discurso desaparece. E você ainda promove sua própria individualidade: você não é mais 'fácil' ou 'difícil', você é a/o [insira seu nome].


IV.

Acima: 'homem de verdade' de verdade

Mas o grande risco do feminismo é que as mulheres queiram se tornar homens. O problema do machismo não é que ele subvalora a mulher, mas que ele subvalora o feminino, e isso são coisas distintas. Afinal, a gente fala de 'feminismo', não de 'mulherismo'. As feministas novatas apontam para o pequeno número de mulheres presidentes, CEOs, diretoras, etc, sem perceber que aí elas tão deixando sua definição de sucesso ser aquela do masculino. O feminino, arquetipicamente, não busca atingir uma posição de liderança externa, isso não importa, é coisa do masculino. "Ah mas e se a mulher quiser virar presidente?" Ótimo, que ela o tente (Dilmão conseguiu - o apelido não é à toa) - mas isso vale pra mulher que características masculinas.

A questão toda é uma questão de valoração, não uma questão de valorização. A valorização implica dar um valor, ou seja, tornar aquilo um objeto. 'Valoração' significa 'dar valor a', e é isso que faz tanta falta no caso do feminino. Dizer a uma mulher para ele se valorizar é muito perigoso - e sim, eu entendo que não é nesse sentido que a palavra é usada, mutabilidade da língua, blablabla, mas a escolha de palavras não deixa de ser importante, até pela atuação no nível inconsciente.

Como podemos ver mais uma vez no caso do racismo, não demora muito pra projeção seguir a desvaloração: as características associadas aos negros (seja quais fossem) eram negadas pelos próprios brancos, e eles as projetavam (projetam...) essas características de volta nos negros, sentindo-se desse modo desassociados a elas. Mas o Jung não foi o único a perceber que isso leva a uma série de problemas, que geralmente permanecem no plano do inconsciente.

É isso que acontece no mundo da guerra dos sexos. O feminino já é desconsiderado há muito, e o ápice veio no Iluminismo - por mais que se falasse de igualdade e liberdade, o irracional ficou de lado. Ele teve um breve ressurgimento no Romantismo (não por coincidência, quando o movimento feminista começou), mas hoje em dia ainda vive em maior parte no subterrâneo (é só ver como é popular hoje em dia ser geek, babar ovo da "ciência" - que por sinal não é tão racional quanto pensam - etc...).

O resultado não é que os homens subvaloram as mulheres, mas seus próprios lados femininos. Isso, em consequência, faz com que ele gaste ainda mais energia projetando uma imagem de ser masculino, e só consegue ver o feminino na mulher. Por exemplo: o masculino se preocupa em espalhar a semente, enquanto o feminino se preocupa em manter um só masculino. Ou seja, é masculino sair metralhando por aí, e é feminino se dedicar a um relacionamento só. No entanto, o cara procurar um relacionamento saudável torna-o por definição mais feminino, e isso apavora os narcisistas machistas. Além de tudo, ainda sentem raiva das mulheres pistoleiras, porque eles as vêem como que roubando seu papel. Se os narcisitas machistas (vejam que eu evito que 'homem é assim' e 'mulher é assado' - aí, perde-se o sujeito) conseguissem aceitar seus próprios lados femininos ("homem não chora!" - até que o papai corta a grana do fim de semana), não sentiriam necessidade de criticar mulheres mais masculinas, não as sentiriam como ameaça.

Quem sai perdendo mesmo é a mulher feminina, porque os machistas vão todos dar em cima dela, e as feministas vão criticá-la por não apoiar o feminismo ativamente (ou seja, de forma masculina). Ou seja: se você quer ser feminista, dê valor ao próprio feminino em vez de realçar as suas características masculinas. A discriminação contra as mulheres é uma consequência, não uma causa.


V.

Voltamos então ao título. Sem dúvida você pensou "como assim, no estupro a mulher não quer mas o cara transa com ela!" Aí é que tá: isso não é transa, é masturbação (o objeto sendo não uma mulher, mas um ser humano inferior de alguma - é uma fantasia de poder, olha quanto estupro tem na prisão). A transa, ou seja, a sexualidade, requer dois sujeitos.

Sem dúvida o feminismo é importante, mas no sentido de valorar o feminino. Ou seja, essa questão será resolvida não quando mais mulheres forem presidentes ou cientistas, mas quando o narcisismo e o anti-socialismo (desrespeito às regras sociais - leia-se, estupro, nesse caso) não forem mais as forças dominantes, quando o extremismo de qualquer tipo for eliminado - ou pelo menos restrito às margens, não sei se é possível acabar com o extremismo. O mundo ideal não é um mundo feminista - é um mundo em que o feminismo não é necessário.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Peludo? Eca. Incompetente na cozinha? Rawr!

I.

Rá, fiz você olhar, agora lê!
Oh céus, mais uma controvérsia: dessa vez tão processando a Gillette por discriminação contra homens peludos, devido a uma campanha publicitária que caracterizava homens peludos como nojentos ou sei lá que. Hmm, tá, e por que ninguém processa as propagandas de produto de limpeza por caracterizar os homens como incompetentes e incapazes? O que acontece é que esse caso tem credibilidade com o público porque eles criaram a controvérsia - no caso dos produtos de limpeza, não há controvérsia implícita, ou seja, ninguém questiona nada.

E o pior é que retratar os homens como idiotas é complicado porque os homens realmente acabam saindo prejudicados na parada - essa história de peito raspado, no final das contas, não afeta ninguém. Seria fácil fazer a mesma campanha com a mensagem inversa: é só deixar implícito que homem de peito raspado é boiola e criar um hashtag tipo #homemdeverdade. A questão é que pra deixar o peito peludo não precisa comprar nada.


II.

Se você acha que o mecanismo da propaganda é que o cara vai sair correndo pra farmácia querendo raspar o peito e vai comprar Gillette, então com certeza a propaganda vai funcionar em você, porque você acha que não vai ser afetado pela propaganda. Veja bem, essa campanha é muito mais pras mulheres que pros homens. Muito provavelmente, se o cara já tem o peito peludo, ele não vai querer raspar arbitrariamente. Ele pode até ver a propaganda, mas ele sabe que não é ter o peito raspado ou não que vai mudar o quanto ele pega no Carnaval. Se ele achasse que fizesse diferença, já tinha raspado. Agora, se tiver uma outra motivação...

Imagine a situação: a Fulaninha vê a propaganda. Como ela sabe que é pra homem, ela acredita que a propaganda não é pra ela (dica: se você tá vendo, é pra você), então passa tudo batido. No entanto, o que ficou registrado com ela, ou seja, o que é implícito na propaganda, é que peito raspado é o novo masculino. Tempos depois, ela vai começar a fazer pressão no namorado, sobretudo depois que as amigas delas zombarem o peito peludo do Fulaninho. Resultado: claro que ele acaba cedendo e compra...uma G/gilllette (se você é marketeiro e consegue fazer que o nome da sua marca vire substantivo comum, parabéns, você zerou o jogo).

Em outras palavras, o marketing funciona tão bem porque as pessoas acham ou que o marketing não é visado pra elas ou que elas são imunes ao marketing. Infelizmente, nenhum indivíduo pode ser. O marketing das grandes empresas não funciona a nível individual, mas a nível social. O marketing de verdade da campanha da Gillette é fazer com que as pessoas acreditem que masculino é raspar o peito, é "pegar todas", é encher o cu de cana (a AmBev agradece). Eu espero que fique bem claro que, enquanto você só questionar o que a autoridade te disser pra questionar, você vai continuar à mercê dos departamentos de marketing, provavelmente americanos pra piorar. O verdadeiro escravo é aquele que não sabe que é escravo.

E se você ainda não acredita, olha o que disse a Gillette: "a campanha “baseia-se em um vídeo engraçado e irreverente focando na preferência das mulheres por homens lisinhos, sempre respeitando nossos consumidores”.


III.

Você pega aqui, eu pego ali...

Repare também que o mesmo mecanismo que se aplicava pro caso do Silas Malafaia também se aplica aqui. A propaganda reforça a identidade tanto de quem raspa o peito quanto de quem não raspa. O cara que raspa vai se achar o gostosão da balada, enquanto o cara peludo diz que não raspa porque não é gay. Acontece que os públicos-alvo são diferente. O cara que raspa o peito quer as piriguetes do carnaval, enquanto o peludo quer as minas indie/hipster/cult bacaninha. No final das contas, os dois saem ganhando com a propaganda, por isso ninguém pára pra pensar.

"Críticas à campanha foram publicadas na própria página da Gillette no Facebook. “A maior palhaçada que eu já vi na minha vida! Em pleno século XXI, me aparece uma marca tentando impor um padrão estético”, escreveu o internauta Italo Bacci. “Ô Gillette, eu gosto de homem PE-LU-DO!”, protestou a consumidora Cristiane Souza."

Ítalo: uma marca É uma imposição de um padrão estético. A única coisa que interessa pras empresas é impor um padrão estético. Marketing funciona a base de persuação, não de convicção. Cristiane: ponto pro barbudo que te pegou depois dessa.

Mas teve também que curtiu. "Que legal! Já imaginaram as mulheres peludas? Direitos iguais? Por que o homem não pode depilar? Acho que todos já assistiram filmes das décadas de 70-80-90. Viram cenas de nudez? A mulher tinha mais pelos pubianos que o necessário. Hoje 99,9% usam a depilação em todo o corpo", escreveu J Icassati Icassati.

Mais que o necessário? Cara, não existe uma "quantidade necessária" de pêlos pubianos. Alguém já explicou que essa história das mulheres rasparem os pêlos pubianos começou com um grupo de irmãs brasileiras? Chama "Brazilian wax". Taí uma boa pra aula de marketing. Ah, e outra coisa: devo admitir que não foi científica, mas minha pesquisa pessoal revelou que esse número de 99,9% não bate nem um pouco. Pelo menos agora ele pode usar os pêlos da mina como desculpa pra quando ele brochar: "parada nojenta, sifudê".


IV.

Outro ponto que vale ressaltar. Esse aqui é de um comentário no artigo: "Isso não existe preconceito contra pessoas peludas , pelos é uma coisa que dá pra se tirar , isso é só desculpa pra ganha um dinheirinho em cima do processo". Eu aposto meu ovo esquerdo que você nunca mais vai ouvir falar desse processo. Sabe por quê? Há duas possibilidades em relação a quem iniciou o processo: ou gente doida mesmo (você acha que algum juiz o que seja acreditaria que isso é discriminação mesmo? Júri? Cara, isso não é Law & Order), ou funcionários da própria Gillette.

"Ué, por que que a Gillette se processaria?" Pra que você estivesse aqui conversando comigo sobre o processo, depois de ler o artigo no G1. Isso é que é o marketing de verdade. O G1 não fica postando essas coisas de graça. Por que falar dessa propaganda e não da outra? Porque teve processo. Por que teve proceso? A-ha...

Ah, e isso tudo sem contar as feministas que vão ficar falando no Facebook que mulher já tem que se submeter a isso por conta de machismo, mais uma vez divulgando a marca de graça. Claro que a nossa sociedade é machista (não por muito tempo), mas vale lembrar que escravidão requer consentimento.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Na terra dos cegos

I.

"Me bate que eu gosto!"

Recentemente tenho visto muito no Facebook as pessoas postando sobre o Silas Malafaia e sua coorte de lacaios e prestidigitadores. Quer dizer, já faz tempo isso, mas teve um pico esses tempos. O que você provavelmente não percebeu até agora é que é exatamente isso que eles querem que você faça. Não acho que conscientemente, mas a consciência não tem muito espaço no nosso mundo pós-moderno (pós-consciência?)

Tudo que vou descrever são mecanismos inconscientes. Com certeza há um punhado de cretinos que fazem isso deliberadamente, mas de que adianta criticar uma pessoa que não tem moralidade? O que acontece nessa charada é você e o Silas são dois dos participantes no Jogo da Identidade, em que um reforça a identidade do outro, e assim perpetuam o status quo - todo mundo ganha e o espírito humano perde.

O vídeo abaixo, que tem circulado bastante, é um exemplo disso. Esse blogueiro preocupado (com o quê?) explica como a genética desprova os comentários de nosso querido pastor no programa da Marília Gabriela (e repare bem, não é porque você não assistiu que essa entrevista não foi feita pra você), reforçado pelo eco interminável de comentários inanes. A ciência mais uma vez vindo à defesa! Mas se o argumento dos religiosos é de uma influência sobrenatural, você acha que é a ciência natural que vai convencer eles?


Veja como ele começa o vídeo: "Oi Silas Malafaia, tudo bem?" Perae, quê? Você acha que o Silas vai ver esse vídeo? No máximo ele vai usar isso no próximo sermão como prova da influência do demônio ou qualquer coisa do tipo. O homem (desculpa, "ser humano") que traz a espada da racionalidade prum duelo contra a pistola da irracionalidade não vai se dar muito bem.


II.

Uns comentários aleatórios no vídeo:

"A entrevista do silas malafaia é triste. Cheia de falácias e ad homines, que parecem convincentes porque ele grita, e grita e grita. Aí os crentes, por acharem que ele acabou com a mulher, vão ecoar toda a ignorância que esse bispo vomitou o programa inteiro, "glória, DEUS. O bispo é um intelectual, acabou com a gabi". Aí chegam aqui, e bem... vejam só, todo mundo dando de cara com argumentos consolidados, baseados em pesquisas empíricas. O que eles fazem? O que sempre fizeram: fecham os olhos."

Ou seja, o cara vem e insulta os milhões de "crentes" Brasil afora, e espera que eles venham ouvir sua grande sabedoria? Muito legal acusar o outro de usar falácia de argumentação (mais sobre isso em breve) e cometer uma falácia no mesmo argumento (por exemplo, a falácia do acidente ou a falácia do espantalho). Só que nada disso importante, porque o que rola na igreja não é convencimento, é persuasão.

"*Criar um filho que venha a ser homossexual ... -_-"

Questionar a lógica de um pastor é fácil, quero ver você questionar o uso da expressão abominável que é "criar um filho".

"Véi, vc já imaginou se do dia pra noite a gente tivesse q parar de sentir tesão em bunda e peitos? Fodeuuu, meu jovem."

Ou seja, a homossexualidade é tão horripilante pra você quanto pro Silas. Oy vey.


III.

Mas então, por que que essa gente toda diz isso, sendo que os evangélicos sequer vão ver o vídeo, e muito menos os comentários? É simples: o que você, compartilhador de Facebook e comentarista de YouTube, estão fazendo, é afirmando e reforçando suas próprias identidades. Os comentários não são pros evangélicos lerem, são pros ateus feministas veganos lerem. Você tá dizendo que a ciência desprova as crenças do bispo ("desprovar crença" é ótimo), mas o que todo mundo lê é que você é um intelectual culto que tem o refinamento de saber das nuâncias genéticas inerentes ao homossexualismo (opa, não, foi mal, você usaria "homosexualidade"). Você quer que as pessoas te vejam como Ser Racional, o que é claro só faz com que você negue mais ainda sua irracionalidade e a projete em alvos convenientes como o Silas.

Aqui um colunista do UOL nos explica que até a Igreja católica não condena mais os homossexuais, como se a Igreja fosse um grande parágono da moralidade e da ética. Ele nos diz que até a própria Bíblia contém alusões à homossexualidade, etc... Mas, mais uma vez, o único evangélico que vai ler esse artigo é o Silas, pra depois usar no sermão dele como prova de que os não-crentes caíram sobre a influência do demo. Resultado final do seu compartilhamento: você projeta uma identidade de racional e intelectual, o Silas projeta a identidade de defensor dos pobres e oprimidos, e tudo continua exatamente na mesma merda que tá há milênios.

Mais uma vez, independentemente de você ser crente ou ateu, gay ou homofóbico, homem ou mulher, o que acontece é que você participa do debate na forma que foi determinada por quem detém o poder. Lembrem que quem sai ganhando numa guerra não é um lado nem outro, é a indústria bélica. No caso, quem tá ganhando aqui é quem faz propaganda no YouTube ou no UOL. O que reina é a discórdia, e o espírito conciliatório desaparece.


IV.

Tá com raiva do Silas? Ponto pra ele!

"Mas então que que eu vou fazer, deixar esses homofóbicos ganharem?" Cara, por que que você ainda acredita que isso é uma luta? Quem disse que você tem que ganhar? Que se dane o que Silas Malafaia acredita! Ao comentar no barzinho que você viu (os primeiros 2 minutos e meio da) a entrevista, ao compartilhar o post da ATEA ou do humor inteligente ("pleonasmo..."), você tá não só criando uma identidade e esperando que os outros acreditem que você é essa pessoa, você também tá entregando munição pros evangélicos fazerem essencialmente a mesma coisa do lado deles. O olho-por-olho deixa todos cegos no final das contas.

Pare de mandar os pastores evangélicos à merda. Como você se sentiria se um evangélico já chegasse acusando você de ser um pecador imoral (erm, tá, talvez não foi o melhor exemplo, há uma boa chance que você adoraria isso)? Se você quer ajudar os homossexuais, pare de dar credibilidade aos homofóbicos! Se você quer convencer os "ignorantes" a "ouvirem a voz da razão", esquece, a razão é só 50% da história.

Mas se a razão não vai convencer ninguém, por que que os evangélicos continuam indo à igreja e dando o dízimo? Já te falei, não é convencimento, é persuasão. Você já se imaginou no lugar de um cara desses? "Ah, mas se eu fosse ele, eu..." errado, se você fosse ele você não seria você, tem que ser tudo sobre você? Se você vivesse na escassez e não tivesse nenhuma oportunidade pra subir na vida (e não me vem com esse papo que a classe C tem maior poder de compra - não deixa de ser classe C), quem você iria ouvir? O cara que diz que tudo isso é um acaso, e que se você nasceu pobre, azar o seu? Ou o cara que diz que tudo isso é uma prova, é coisa do diabo, que no fundo você é merecedor do céu (e pode dividir em dez vezes!)?

Olha, tudo bem, eu sei que seu propósito não é se mostrar como superior, mas quando você acusa alguém de ignorância, você se coloca necessariamente como superior. Sem contar que trazer a ciência pruma discussão religiosa é tão ruim quanto trazer a religião pruma discussão científica. Isso não quer dizer que religião e ciência são mutuamente exclusivos, mas que um argumento científico não tem lugar num debate religioso e vice-versa. No final das contas, você acaba se colocando como adversário, e só vai reforçar ainda mais a crença do indivíduo.

E a sua própria.
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