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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Se o Eike é supersticioso, o que dizer sobre você?

I.


Tá, agora, lembra que isso é a Globo, ou seja, não são fatos, não é o que é verdade, é o que eles querem que seja verdade. O Eike Batista, anos atrás, foi praticamente canonizado pela mídia, o novo herói brasileiro (já parou pra pensar por que não há grandes negociadores brasileiros a nível mundial? Não, o Eike não conta, a mãe dele é alemã). No entanto, as coisas não saíram tão bem quanto se imaginava, fudeu, deu merda, Eike em crise, ou seja, Brasil em crise.

Só que é muito importante para a mídia que ela saia ilesa, então ela precisa se desassociar do Eike. Como fazer isso? Fácil, é só pintá-lo de paranoico e crente. Segundo o artigo, o Eike explicou seu fracasso como sendo resultado de mentiras e inferno astral. Qualquer um pode falar que ele tá responsabilizando o Outro e não vendo sua responsabilidade no fracasso, mas a. ele sabe muito bem por que fracassou - se não soubesse não seria quem é, seria mais um idiota qualquer; b. a gente não tá falando do Eike.

O Eike dizer que os outros mentiram pra ele é a mesma coisa que um político fazer um pedido público de desculpas por ter sido pego traindo, todo mundo sabe que a mentira tá rolando solta, mas todo mundo finge que é honesto. O que é interessante mesmo é a questão do mapa astral. Olha o que eles dizem: "O texto lembra que o empresário acredita em sorte e superstições." Viu, ele acredita em horóscopo, ele enganou a gente dizendo que era sério. Aham, beleza.

Mas para pra pensar: o mapa dele dizia que o período seria ruim pra negócios, e o período foi ruim pra negócios. Ou seja, a previsão do mapa foi confirmada. Ah, foi mal, eu esqueci, é sorte, é coincidência. Mas quando o economista da Globo acerta uma previsão, não é coincidência, é expertise. As palavras são suas inimigas.


II.

Também tem um artigo sobre o assunto na Veja, os textos dizem a mesma merda, mas olha a foto que eles usam:

Fonte: Veja
Essas fotos nunca são por acaso. Os caras sabem que quem lê a Veja odeia o Lula/PT, e puf, agora o Eike Batista é odiável também. Só que você não odeia o Eike porque ele é amigo do Lula, você odeia o Eike porque ele teve sucesso e você não.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Feliz Pá$coa

I.

Mais um cai na armadilha

O jornal anuncia: "Ovos mais caros e menores deverão prevalecer na Páscoa deste ano". Você acredita que isso é um exemplo do jornal zelando pelo bem do consumidor, esquecendo-se completamente de quem paga as contas dos jornalistas não é você, são as empresas que vendem anúncios no jornal. A ilusão é que só esse ano que os ovos vão ficar mais caros e menores, quando na verdade isso acontece todo ano.

Ainda pretende comprar ovos? Uma barra de Hersheys (130g) nas Lojas Americanas tá R$4; um ovo do Angry Birds (170g) custa R$28. Parabéns, você acabou de comprar um chaveiro por vinte e poucos contos. Mas o brinde mesmo é a diabetes.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Empatia ou narcisimo?

I.

Ah, se tivesse Facebook na 2a Guerra...

Parte do nosso objetivo aqui é de analisar não os eventos per se, mas a maneira em que as pessoas reagem a esses eventos. Naturalmente, me senti compelido a comentar (os comentários sobre) a tragédia de Santa Maria. No entanto, Lucas Napoli o faz de maneira muito mais eloquente. Portanto, vou me limitar a, bem, comentar o comentário no comentário sobre o comentário. Se você quiser me acusar de andar em círculos, vá em frente, é um elogio.

Enfim, o que vale é que nosso amigo aí acerta na mosca, e quem sabe você dá mais credibilidade a ele porque ele é, de fato, um psicanalista. Se você não teve saco pra ler ("pô, cara, não tenho paciência pra ficar lendo desse tanto, eu sou uma pessoa trabalhadora" - eu também, mas bom), a ideia é essa: você compartilhou a imagem acima, ou algo similar, pelo mesmo motivo que você comprou a pulseira do Lance Armstrong, ou seja, porque o que vale é a imagem que você transmite. Sua mensagem de "luto" (não é à toa que a palavra é a mesma que a conjungação em primeira pessoa do verbo 'lutar') não vai consolar ninguém, do mesmo modo que sua pulseirinha não vai curar câncer nenhum (como se o câncer fosse uma doença só). Mas, em compensação, ela vai dar a dica: olha como eu me preocupo com os outros!


II.

O cara do blog é simpático demais pra jogar a real nesse/a comentador/a, mas eu não tenho tais restrições. Essencialmente, essa pessoa dá mais uma demonstração da questão que o cara tava falando. Vamos por partes:

Entendo o ponto de vista, mas não consigo concordar. Muitas pessoas ficaram realmente chocadas com essa tragédia, uma coisa que poderia ter acontecido em qualquer lugar do Brasil, qualquer boate… Poderia ser você, seus filhos, seus amigos, seus irmãos.

Hmm, tá, isso já aconteceu na Argentina, mas você não tava nem aí. Sem contar que isso não quer dizer nada, qualquer coisa "pode" acontecer em qualquer lugar a qualquer hora.

E isso choca. Minha familia por parte de mãe é toda de Santa Maria, foi onde meu irmão mais velho nasceu, foi onde eu passei minhas férias, foi onde eu fui estudar por um tempo, onde a minha irmã faz faculdade. No momento estou fazendo estagio na França e, mesmo de longe, essa tragédia me pegou em cheio.

Ah, agora começa a fazer sentido. Repare que o fato da pessoa estar na França é completamente irrelevante ao argumento dela, mas ela se sente obrigada a mencionar do mesmo jeito. Deu pra ver como o que interessa aqui não é a tragédia em si, mas é a própria pessoa que comenta? É uma questão de credibilidade: eu estudo na França, portanto eu sou inteligente, portanto você deve me ouvir. Ou seja, o que ela quer é ser vista como uma pessoa ao mesmo tempo sofisticada e compassiva. Mas isso não tem a menor importância, só o que deveria ter aqui é uma explicação de por que ela acha que o autor está errado.

Quando acordei e vi a noticia, liguei pra minha irmã e senti um alivio quando seu namorado atendeu e falou que eles estavam em casa dormindo, nem sabiam o que tinha acontecido naquela madrugada. Vi todos os meus amigos de Santa Maria desesperados atras de seus amigos, de seus vizinhos, colegas de infancia. Vi seus pais agradecendo a Deus por seus filhos não terem ido aquela boate naquela noite.

Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu...

Quem não morava em Santa Maria parou para pensar como são as boates que eu frequento e a maioria viu que poderia ser qualquer um de nós ali, mortos em 5 minutos, por não termos mais ar pra respirar, porque não conseguimos achar a saida, porque nossos olhos não conseguem mais enxergar. Talvez seja eu, não sei, mas foi dificil dormir ontem a noite, a imagem daquelas pessoas desesperadas, fico imaginando e SE… se tivesse mais uma saida, se a porta fosse maior, tivessem exaustores, janelas nos banheiros, extintores que funcionassem, se eles tivessem conseguido controlar o pânico, se abaixar como é dito pra fazer em caso de fumaça… Eu fico pensando E SE… quantas pessoas poderiam ter saido dali com vida… Também penso na dor desses pais e no trauma desses jovens sobreviventes, que se salvaram, mas tiveram que deixar amigos pra tras, que viram pessoas morrerem em seus braços, viram um mar de vidas acabadas ali, bem na sua frente.

Resumindo: a vida é um filme, e você é o personagem principal. Certamente você já reparou que conhece um monte de gente que sofre da mesma condição narcísica: "se eu tivesse estudado mais", "se os políticos não fossem corruptos", "se ela soubesse o quanto gosto dela", etc...Sim, se minha tia tivesse um pinto ela seria meu tio. Olha, tragédias acontecem toda hora. Isso foi só mais uma. Sim, foi péssimo, minhas condolências pras famílias das vítimas, etc, mas meu Deus, se eu for postar alguma coisa cada vez que alguém morrer sem ser de velhice (outra coisa que não existe, mas enfim), vou passar o dia fazendo isso. Essa tragédia em particular é cativante porque as pessoas podem se imaginar se safando, fazendo as coisas certas, salvando vidas, e tudo mais. Mas é aquela velha história: todo mundo acredita que sobreviviria ao apocalipse zumbi.

Cada pessoa no meu facebook que eu vejo prestando homenagem ou desejando condolências eu realmente acredito que, assim como eu, elas desejam paz para todas essas pessoas que morreram ou que hoje choram pela ausência de alguém querido. Eu realmente acredito que por menor que seja o seu pesar, o seu sentimento, boas energias somadas poderão aos poucos confortar essas pessoas que tanto precisam de paz.

Eu também acredito nisso, uai. Que tipo de filho da puta não desejaria paz pras vítimas e suas famílias? Quem é que fica mandando energias negativas pra que as pessoas sofram mais? A diferença é que eu não sinto necessidade de transmitir isso publicamente, porque não é o post no Facebook que vai fazer a diferença, é a intenção, que é puramente abstrata e não precisa de mais ninguém. Fica claro que a pessoa não entendeu o que o Lucas tava falando: sim, com certeza você sentiu empatia pelas vítimas e tal, mas desde quando isso quer dizer que todo mundo precisa saber (o que já é meio óbvio se você não é um psicopata)?


III.

"Tenho certeza que ele está num lugar melhor."
"Sério, por que ninguém me falou antes?! Agora posso voltar ao normal!"

Imagine a situação: você chega em casa, e sua mãe te fala que o pai do Fulaninho morreu de cirrose/sífilis/cocada na cabeça. Vem aquela sensação péssima: putz, que terrível, não consigo nem imaginar isso acontecendo comigo, queria poder ajudar o Fulaninho. E você pode, mas não da maneira que você pensa.

Agora é o funeral. Todos tristes, ninguém sabe muito bem o que dizer, rola empatia mas rola um certo desconforto também. Nunca te ensinaram como se comportar em tal situação, e seu avô morreu quando você tinha 5 anos, então você nem se lembra como é direito. Você se sente super mal e quer ajudar, mas não sabe direito como. Nesse momento, você avista o Fulaninho sozinho, chorando. Como você não tem ideia de como agir, você se volta ao que você conhece: filmes, desenhos, etc.

Nos filmes as pessoas sempre vão fazer alguma coisa pela pessoa que sofre, algo que as faz sentir melhor. Mas acho melhor já estourar sua bolha aqui: nada, absolutamente nada que você disser vai fazer ela se sentir melhor. Que isso fique bem claro: se alguém perder uma pessoa próxima e não se sentir triste, algo está errado. Isso é a resposta natural e necessária a qualquer perda do tipo (por exemplo, um término: quando sua namorada terminou com você, você nada mais sentiu do que luto pelo relacionamento). Só que você não sabe lidar com o sofrimento alheio, porque seus pais passaram toda sua infância tentando fingir que o sofrimento não existe ou que ele pode ser evitado ou prevenido.

Acho que a essa altura do campeonato a vida já deve ter te ensinado que a coisa não funciona bem assim. Mas pensa bem: alguém conseguiu acabar com aquele aperto no coração? Não. Mas você acha que tem que dizer alguma coisa pro Fulaninho, que você é um escroto se não for lá e der seus conselhos amadores e gestos semi-automáticos. É isso que uma Pessoa Que Liga faz, e você é uma Pessoa Que Liga. A realidade que não há nada, de fato, que você possa fazer, é mascarada para tentar evitar um sentimento pior que o sofirmento-por-empatia: a falta de poder. O que te dá agonia não é a morte do pai, nem as lágrimas do Fulaninho: é que não há nada que você possa fazer, e isso vai ao contrário do que te foi dito pelos seus pais, professores, tios, e tal.

Qual é a resposta apropriada então? "Fulaninho, sinto muito por sua perda. Se você precisar de qualquer coisa, não hesite em me ligar." Ponto. Final. O sofrimento da pessoa é da pessoa. É ela que sente, é ela que tem que lidar com isso. Isso não quer dizer que você a deva rejeitar: se ela quiser falar com você, chorar no seu ombro, você cancela seus compromissos do dia. Também não quer dizer que você não deve ficar preocupado se o Fulaninho ainda tiver remoendo a morte depois de 3 anos. Mas além disso, não há nada a se fazer a não ser dar tempo ao tempo.


IV.

Pra fechar, vale voltar àquela palavra "luto". Às vezes vale dar uma olhada mais concentrada num conceito pra entendê-lo melhor. Aqui vai uma definição:

s.m. Profundo pesar causado pela morte de alguém.

Ou seja: o luto é um sentimento, uma coisa particular, que só quem sente vai saber como é. Quando ocorre uma morte à sua volta (e Santa Maria é bem longe, se liga), seu reflexo é de querer ajudar de alguma maneira, e não há nada de errado com isso. Mas por favor, se você quer ajudar, vai fazer uma doação, faça uma prece, um pentagrama, sei lá. São coisas que realmente podem trazer um ganho qualitativo, se não pras vítimas, pra possíveis futuras vítimas ("Mas prece não traz ganho qualitativo!" Ah é, você é perito em religião por ser ateu, foi mal). O que não faz diferença nenhuma é postar no Facebook que você se sente mal pela tragédia, ou falar pro Fulaninho que vai ficar tudo bem, que o pai dele era ótimo.

Não posso saber o que você sente de fato ou não, portanto não posso te julgar com base nisso. Mas sentimentos são, ahn, sentidos, e se você sente (ahá) necessidade de transmitir ao público o que você tá sentindo sem que o público tenha pedido, talvez você seja um narcisista.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ausência de fatos não compromete matéria de jornal

I.

"Espelho, espelho meu, quem sou eu?"

Tá, saiu uma matéria no Correio Braziliense, e no site só tem uma prévia, mas nessa prévia tem tudo que a gente precisa. Lembre-se, saiu no jornal é Verdade (ok, não sei quem tá lendo, então só pra deixar claro, não, não é Verdade, é verdade, e se você não percebe diferença, faz bem meditar um pouco sobre o assunto). Essa matéria nos diz, essencialmente, que não são necessários dois pais para uma criança crescer saudável (o que isso realmente quer dizer, só Deus sabe). Suponhamos que o estudo seja representativo...

...não, isso não funciona. O estudo é pura prestidigitação (o que palhaços como David Blaine e Criss Angel fazem). Primeiro, o estudo foi realizado nos Estados Unidos. Talvez você nunca tenha ido aos Estados Unidos, mas deve ter uma noção que você foi criado com valores diferentes que o Jimmy. Agora imagine como deve ser diferente pra Yuhiko ou pro Vijay. Certamente foi diferente pro seu vô, e mais ainda pro vô do seu vô. Ou seja: esses estudos não são universais, como eles querem que você acredite, mas puramente específicos de uma geração de uma zona geográfica/cultural. Se você deixou de pensar no que define o "ser humano universal", eu te perdoo, isso não existe, é um beco sem saída filosófico. Sim, tem arquétipos, mas num nível que está além da nossa existência. Não há arquétipos de carne e osso.

Mas mesmo que fosse feito com gente do mundo todo:

"Após estudar 86 crianças, os cientistas concluíram que..."

Se você leu o final da frase, game over, cara. Um estudo de 86 pessoas não diz nada, a não ser que você conheça essas pessoas. Mesmo se o estudo fosse realmente representativo, ele foi feito nos Estados Unidos e você tá lendo no Brasil. Mas sério, 86 pessoas? Posso pegar 86 pessoas aleatórias no meu Facebook e fazer um estudo com elas, mas eu saberia que ele já teria um viés enorme. Tudo bem, quanto mais gente mais a gente pode falar de verdades (lembre-se, não de Verdade), mas se você tá chegando a conclusões (e ponto final!) com 0,0000000287% da população, talvez você seja um narcisista.

Mas antes de você começar a zoar o cientista, pare pra pensar sobre o fato que é basicamente isso que você lê o tempo todo. O jornal pega um estudo que representa a mensagem que quer transmitir e publica um artigo. Perae, quem disse que o artigo sequer está de acordo com as conclusões do(s) próprio(s) cientista(s)? Uma rápida procura por informações adicionais nos dá esse pequeno dado:

"O estudo não estudou mães solteiras diretamente, e todas as famílias incluíam dois pais."

Isso não contradiz diretamente o título do Correio? "Ausência do pai ou da mãe não compromete o desenvolvimento dos filhos". Ou seja, eles chegaram à conclusão que o fator X tem um efeito Y nas pessoas, sendo que o estudo não considerou nenhum caso X! O jornal, em outras palavras, não quer que você saiba a Verdade: ele quer vender propaganda. E você, ainda pega suas informações com a mídia? Espero que seu filho não seja preso tentando comprar maconha na favela.


II.

Mas, se o cara que escreveu esse artigo (quer dizer, mais provável que tenha sido uma mulher, mas perae, pra que essa raiva? Se você chegar à conclusão que eu sou machista, você não tá lendo o blog certo) tem as bolas de dizer o contrário do que diz o estudo (enviesado e parcial), quer dizer que você tá lendo e acreditando. Por que que ele/a achou que você ia ler isso?

Dá uma olhadinha no começo da matéria. Ele fala sobre três mulheres de idades e situações diferentes, mulheres como você, que têm filho e o cafajeste do marido caiu fora. Mas o que, pelamordedeus, o que que essas mulheres têm a ver com você? "Uma delas é jovem, loira com luzes, que nem eu!" Tá, mas ela tem a mesma religião que você? Veio do mesmo estado? Tem o mesmo emprego? Gosta das mesmas coisas? Claro que não. Essas mulheres tão aí pra você se sentir próximo, pra você se identificar. Por que que um jornal, que supostamente deveria apresentar as notícias objetivamente, tá falando de casos particulares? Pra te dar impressão que o que eles vão falar pode afetar a vida da mulher comum. Ah, por falar nisso, as Casas Bahia tão com uma promoção imperdível!

"Tá, eu sei por que o jornal publicou, mas por que eu tou lendo?" Ora, porque você se sente melhor. Se o seu marido te largou pela secretário, se você não lembra pra quem deu na saída da boate, o Correio tá aqui pra te resgatar e te dizer "não, shh, vai ficar tudo bem, você é forte, você pode..." Eu espero que já tenha ficado claro aqui que os dois pais são essenciais. Sim, você tá pegando a coisa, figuras paterna e materna. Ou seja, sim, é possível criar filhos de boa sem o pai ou sem a mãe, mas você tem que ver que é bem mais fácil quando tem um homem e uma mulher* com a idade certa por perto.

O que a matéria quer que você acredite é que sua situação é não só normal mas "saudável". Ela tá te reassegurando, passando a mão na sua cabeça. Mas não se esqueça que sua mãe também te diria que "vai ficar tudo bem" se você descobrir que tem câncer ou se o seu pai saiu de casa, isso não quer dizer que é verdade. O leitor da matéria, no final das contas, provavelmente não teve pai (presente, eficiente): se você engravida aos 17, sua mãe vai te dizer que tá tudo bem, seu pai vai te dizer que, porra, se prepara, vai ter que pagar o preço da sua irresponsabilidade. Só que seu reflexo é de ler e acreditar na matéria. Ponto pras Casas Bahia.


III.

"O novo diretor da revista gosta de trazer o bichano pro escritório"

Por um lado, isso não quer dizer que os repórteres e editores e tal do jornal estejam fazendo isso conscientemente (mas pode ter certeza que alguns tão ligados), mas por outro, eles sabem exatamente o que estão fazendo. Eles sabem que você nunca vai tentar achar o estudo per se, se é que existe. Eles sabem o que faz você clicar nos links e comprar os jornais/revistas**. Tudo que eles precisam fazer é justificar sua existência.

Voltando ao cenário anterior: você engravidou aos 17. Hoje tá com 20. Você tá tomando café da manhã, e dá uma olhada na edição do Correio que sua mãe ainda assina, tomando seu café no copo de requeijão. De repente, você se depara com uma notícia sobre um estudo americano (se você falar "estadunidense", por favor, vá embora) que diz que pais solteiros podem ter filhos saudáveis (bem, não exatamente, mas é isso que você lê). De repente, não é tão ruim assim que o Jorge trocou você por aquela vadia. O jornal basicamente diz Mães Solteiras = Fodonas. E isso só reforça sua identidade.

Agora, você pode chegar pra sua amiga e falar "um estudo lá diz que filhos não precisam de pai pra ser saudáveis***, meu filho não precisa daquele escrotinho do Jorge". Sua amiga vai entender você, ela sabe que você é forte e que seu filho vai ser alguém na vida (mas será que ele vai saber quem?). Resultado: você se preocupa ainda menos com a função paterna, e num piscar de olhos seu filho tá dirigindo loucasso e destruindo o carro "que ainda faltam 16 prestações".

Presta bem atenção: essa matéria não traz nenhuma informação útil ao leitor. Ela não ensina mães solteiras a desempenhar bem as funções paterna e materna. Ela não diz como a família da mãe solteira pode ajudar a compensar a falta do pai (só que ela pode). Ela não diz como um viúvo pode encarar a situação. É tudo um grande monte de nada, que em vez de gerar uma conversa produtiva, gera renda pra megaempresas e dívida pra você ("porra, mas tava em 8 vezes sem júros, como que eu não ia comprar?"). Aliás, não é bem um nada. É um espelho, só que não é um espelho real, "verrugas e tudo mais", não, é o espelho do Harry Potter, e o que você mais deseja é uma identidade.


IV.

Mas assim, não esqueça, uma identidade não é algo que você descobre. Não é algo que te é explicado nos jornais (e nem nos blogs). Não é algo que se escolhe de um leque infinito. É algo que se vive. A sua identidade é determinada pelas suas ações, não por estudos realizados numa cultura diferente. É o que você faz que conta. Infelizmente, esse tipo de matéria só serve pra reforçar a ideia que a única coisa que você pode fazer que faz uma diferença é compras.

Meu objetivo aqui não é demonisar os coitados dos repórteres não. Não duvido nada que eles acham que estão fazendo um bom trabalho, algo produtivo. A questão é que, não, que isso fique BEM claro, não é legal não ter pai. Sim, certamente a maioria das pessoas não fica bitolada, nem precisa de remédio de tarja preta, mas daqui a pouco você tá achando que é até melhor não ter pai (afinal, homem é tudo cafajeste, né) e seu filho te odeia e você não sabe o que fazer, mas tudo bem, ele é "saudável".






* sim, os gays também podem ser pais, calma, não é a situação ideal mas é certamente melhor que o 3/4 de mãe e 1/5 de pai da classe média comum

** "pô, mas tu não vai falar logo da Veja?" 1. você não lê mais Veja 2. eu me sentiria um hipster curtindo música sertaneja

*** já sabe como funciona o telefone sem fio, né?

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sindicato dos restaurantes quer competir com a indústria automobilística

I.

Então hoje eu entro no CorreioWeb, e qual a notícia principal? "Preços sobem até 22% em restaurantes, bares e lanchonetes do DF". Será que algum editor encontrou uma mosca na sopa? Domingo é o dia que o povo mais sai pra comer, e a notícia é publicada às 8 da manhã e é a principal manchete no site.

Mas o problema é que no fundo ele tá fazendo um favor pros restaurantes, publicando numa "notícia" a desculpa do sindicato, porque todo mundo lê o que tá no jornal como sendo Verdade. Veja o que eles dizem:

"Em discurso unânime, donos de bares e restaurantes dizem ser quase impossível não mexer nas tabelas: as variações dependem do tipo de negócio e do tamanho da margem de lucro aplicada pela empresa. Eles elegem como principais vilões as bebidas de maneira geral, a carne, os legumes e as verduras. Reclamam, ainda, da carga tributária de produtos como o vinho (que corre o risco de encarecer cerca de 15% nas próximas semanas) e do impacto da folha salarial, responsável por algo entre 20% e 30% do custo operacional de um restaurante."

Isso é tudo deflexão, que que a folha salarial tem a ver com o aumento dos preços? Vai me enganar que o salário dos funcionários tá aumentando? Mas mesmo se tivesse, aumentaria no máximo no passo da inflação. Tudo isso que eles falam não encobre um simples fato: "Alguns estabelecimentos, porém, chegaram a reajustar os cardápios em até 22%, quase quatro vezes a inflação oficial acumulada nos últimos 12 meses". Ou seja, mesmo se houvesse algum custo a mais além da inflação, isso não justifica um aumento quatro vezes maior. Resumo: os restaurantes aumentam os preços de maneira abusiva, depois recebem simpatia porque botam a culpa no governo, e todo mundo sabe que a culpa sempre é do governo.

Por que os restaurantes aumentaram tanto os preços? Pelo mesmo motivo que o Brasil tem o carro mais caro do mundo: porque você é trouxa e paga.
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