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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Escola no DF promete que forma bons soldadinhos

I.

Compare uma sala de aula com o escritório do Einstein

Recentemente, uma escola particular no DF passou a incluir no currículo aulas que supostamente preparam os alunos para concursos públicos. Olha, eu concordo que as escolas no Brasil, de maneira geral, focam excessivamente em matérias de exatas, e ainda têm uma abordagem totalmente retrógrada. Só que a criança tem que aprender sobre direito na aula de filosofia, não na aula de "cidadania". Você sabe que tá sendo enrolado quando a pessoa começa a falar de cidadania: não é o que você pode fazer pela sociedade, mas o que a sociedade pode fazer por você, ou seja, que que eu tenho que fazer pra agradar ao superego e ganhar minha recompensa?

A obsessão louca que ocorre nesse país, sobretudo em Brasília mas em toda parte, é um sintoma da falta de colhões do brasileiro*. Todo mundo se acha esperto, mas na hora do vamo ver corre rapidinho pros braços da mamãe. Que fico claro que é óbvio que é preciso de gente pra administrar o governo, e que tem gente que gosta disso e que é bom nisso. O problema é que é muito fácil. Não que seja fácil fazer espeleologia na infindável burocracia do governo, mas que se você é funcionário (vitalício!) do governo você não corre risco nenhum, e se você não corre risco nenhum, parabéns, o superego ganhou e sua vida vai ser confortável e infeliz até o fim.

O próprio sistema de educação é um fruto da nossa dependência da aprovação do papai. Eu já expliquei como o vestibular é retardado, mas o vestibular é só um exemplo de um sistema que constantemente reforça que a resposta correta está na autoridade, e não na verdade. Nas provas, não há subjetividade, não há pontos de vista diferentes, não, tá tudo já respondido e explicado. Só V ou F ou múltipla escolha. Pensa bem, a resposta à pergunta "qual é a raiz quadrada de 49?" não é 7, é "letra c)". Foda-se o que você acha, o que a escola quer saber não é se você pensa ou não, ou faz isso bem ou mal, é se você memorizou o que ela passou pra você.

Enquanto os pedagogos tão se preocupando com "inclusão social" ou abstrações do tipo, o Sistema ri ao ver você fazer tudo por ele. Você coloca seu filho na escola não porque ela vai ensinar ele a ser uma pessoa integrada, desenvolvida e individuada mas porque ela vai dar a ele mais chances de passar no vestibular ou no concurso público. No fundo, você tá é pouco se fudendo pra felicidade e pra qualidade de vida (não, não tem nada a ver com dinheiro) do seu filho, você quer é que ele reflita bem em você, "meu filho é muito inteligente, ele passou no concurso da prefeitura, obviamente eu criei ele bem". Puta merda como essa expressão "criar filho" me dá asco.


II.

Perceba que essa chantagem toda que os pais fazem passa a mensagem à criança de que o amor a elas é condicional. Você fala pro seu filho que ele só ganha carro se passar na federal, e ele ouve que você só vai amar ele se ele fizer o que você mandar. Ele vai passar a vida inteira achando que se ele desagradar o chefe ou a figura de autoridade que seja, ele não vai ganhar o que ele que ele quer, o que na verdade dificilmente vai ser o que ele realmente quer mas o que ele aprendeu que deveria querer.

No fundo, os pais de hoje em dia tão é acabando com a liberdade de escolha dos filhos. Os filhos só vão receber afeto se forem bem na escola (que por sua vez não é um julgamento dos pais, mas sim da escola - e como você sabe que a escola tá medindo bem o desenvolvimento do seu filho? Uma dica: ela não tá), se passarem no inglês (é claro que vão passar, escola de inglês não reprova porque não quer perder os alunos), etc. Aí, de duas uma: ou eles abaixam a cabeça e fazem tudo certinho, ou se rebelam de vez e buscam o afeto na boca de fumo. Muitas vezes é uma mistura dos dois, na verdade, olha a bacanália que é um churrasco de universitário - um monte de gente desesperada com tanto peso nas costas que precisa encher o cu de cana e transar com qualquer um pra aliviar a pressão só um pouquinho.

Você já parou pra se perguntar por que que o brasileiro é tão pouco empreendedor? Não, não é o tanto de imposto que você tem que pagar, porque quem decide isso é você, se você tá cansado de pagar tanto imposto então para de votar pros políticos que passam esses impostos**. O brasileiro não é empreendedor porque empreendedorismo significa tomar certos riscos, e se ele arriscar e der merda ele pode perder a aprovação dos superiores que ele tanto busca. Empreendedorismo significa apostar na sua ideia, significa fazer sacrifícios e trabalhar duro pela sua ideia. Mas pra trabalhar duro de verdade tem que ser apaixonado, obcecado, a gente ainda tá aí apaixonado por nós mesmos, enquanto deveríamos estar apaixonados pelo trabalho que fazemos.

Se não há amor incondicional, não há liberdade de escolha. A criança precisa saber que a família dela vai tar lá pra ajudar ela se tudo der errado, e que não tem problema se tudo der errado, o amor sempre vai estar lá. Se a pessoa sente que tem que agradar os pais/o Sistema de alguma forma, ela não vai fazer o que ela deseja, mas sim o que o outro deseja. O livro arbítrio sempre existe, mas em muitos casos ele está encoberto por uma série de responsabilidades e deveres externos. "Mas eu vou amar meu filho mesmo se ele não passar no concurso". Tá, pode até ser, eu tenho minhas dúvidas, mas digamos que seja verdade. Isso não importa, porque não é isso que você diz pro seu filho, você diz que ele tem que passar no concurso, desgraça.


III.



E vem cá, vamo combinar, você acha que a escola tá dando aula de direito pro seu filho porque vai ser bom pra ele, ou porque vai fazer com que mais pais bitolados e inseguros ponham seus filhos na escola? Fala o que você quiser da escola pública, que o ensino lá é uma merda (mais uma vez, porque você deixa ao eleger babacas que querem que você permaneça burro), mas pelo menos lá o foco deles é o ensino e não o lucro. Você compra uma camiseta do uniforme da escola por R$45 e acha que é porque aí tem menos chance do seu filho sofrer bullying, o que é claro é uma noção profundamente idiota. Você acha que pagou pro seu filho se dar bem, mas na verdade só pagou a entrada da BMW do dono da escola.

Sabe pra que serve uniforme? É pra estimular conformidade. Olha os outros ramos que usam uniformes: o exército, a polícia, advogados. Todos ramos em que tudo gira em torno de seguir regras. É claro que militares e advogados têm seus lugares na sociedade, mas na escola isso não tem o menor cabimento. Racionalize como quiser, mas quem usa uniforme é quem é mandado.



* 'brasileiro' aqui quer dizer brasileiro de classe média ou alta de pelo menos segunda geração, porque o cara que acabou de comprar a primeira geladeira não vai ler esse blog

** sim, eu sei que não é tão simples, mas um povo tem o governo que merece

domingo, 1 de setembro de 2013

O vestibular é retardado

I.

Fábrica do século 18

Aff, eu não sei onde começar essa bagaça. Fui procurar qualquer coisa no Google, mas só tinha notícia de que aconteceu ou vai acontecer tal prova, tantos porcento não fizeram a prova na UEL, blablabla um monte de inanidade. Não há absolutamente nada falando sobre o vestibular como conceito, fazendo perguntas, só um eco. Então eu fui ver essa porcaria, uma "aula" de história no G1.

Primeiro que todo mundo fala que a Globo rouba do Criança Esperança mas ninguém imagina que talvez, quem sabe, haja uma ideologia por trás do que eles publicam no site? A Globo não vai ser objetiva, ela vai dar a "aula" dizendo pra você o que ela quer que você ouça. Você acha que a Globo quer que você tenha uma visão crítica, inteligente, objetiva, etc? Não, ela quer que você assista o Jornal Nacional e a novela das dez. Junte 1+1 e a gente tem...?

Essa "aula" não ensina absolutamente nada sobre a Inglaterra do século 18. É exatamente a mesma coisa que assistir Oliver Twist. Não há nuâncias, não há várias camadas, vários atores, contextos variados, etc. Não, há apenas os patrões vs. o proletariado. Mesmo se você tem o mínimo de perspicácia pra ver que isso é apenas uma lente através da qual ver a história, você não tá se perguntando por que uma corporação conservadora (redundância) tá te alimentando com uma visão de esquerda da história.

Eu podia passar mais tempo falando de como essa "aula" não ensina nada, mas faça isso você como exercício, vê se usa esse cérebro que você aposentou muitos anos atrás. O que importa aqui é que o objetivo dessa aula virtual, e por aula virtual eu quero dizer todas as escolas, não é que você entenda o que aconteceu na Inglaterra naquela época, mas que você saiba que resposta que o professor quer ouvir.


II.

Fábrica do século 21

Que a preparação pro vestibular é o único objetivo das escolas é perfeitamente claro, tem muita gente que até sabe que tá aprendendo água. O que elas não percebem é que elas tão silenciosamente cedendo o controle a uma figura maior, abstrata, a uma grande mamãe que vai cuidar de você, não se preocupa, é só esperar 5 dias numa maca no hospital público.

Eu entendo que é difícil a gente questionar o sistema escolar porque é a única coisa que a gente conhece, é o que os nossos filhos fazem, nós fizemos, nossos pais fizeram. Mas para pra pensar um pouco na merda em que você anda rolando.

Mas calma lá, Che Jr, não adianta você organizar um protesto. Isso não é uma conspiração nacional pra emburrecer a população. O Ministro da Educação não tem uma reunião com uma cabal sombria regada de charutos e prostitutas, a Dilma não tá mandando botar propaganda do PT no livro-texto, não, o problema aqui não é o governo, o problema é você.

O que acontece é que o sistema NUNCA foi desenhado pra tornar a população mais inteligente, ninguém tá emburrecendo, foi todo mundo sempre burro. E a gente tá parado, o desenvolvimento da educação nunca aconteceu, porra você não sabia até que na Finlândia, onde as pessoas se odeiam o suficiente pra ter uma das maiores taxas de suicídio do mundo, até lá eles avançam. Você reparou que não tem vestibular na Finlândia?

O que o vestibular e o sistema educacional que gira em torno dele ensinam é que a resposta não está nos fatos, não está na argumentação, não está na lógica, não está no contexto, nada, ela tá é no livro-texto (alguém sabe dizer que escreve esses livros todos? quem publica? qual o viés? etc), ela tá no professor, ela tá no cara que faz a prova. Vai tomar no cu. Sério, puta que o pariu, você já deu uma resposta criativa, sua, pesquisada, inteligente, a alguma pergunta no ensino médio? Não, três frases não serve, e de qualquer jeito você só escreveu o que acha que eu/o professor quer ouvir, não sua análise própria.

"Mas tem que escrever uma redação no vestibular!" Sério, você chama isso de redação? 30 linhas, metade delas introdução e conclusão, não dá nem pra contar seu fim de semana em só uma página. Você se acha fodão por ter tirado nota boa na redação, enquanto isso na França o menino de 13 anos tá escrevendo redação na prova de matemática.


III.

O primeiro adágio da magia é que o mago vai desviar sua atenção enquanto ele realmente faz seu truque (e se você acha que os donos do mundo, os Arcontes, não usam princípios de magia, parabéns, ela funcionou em você). Aí enquanto você tá discutindo sobre os dois lados do debate, enquanto você critica o esquerdismo dos livros-texto, você não pergunta: 1. por que que eu tou achando que vou descobrir os fatos num texto generalista e propositalmente vago? 2. por que que tem vestibular? 3. vestibular mede o quê? etc, você fala de capitalismo e não percebe que vive no feudalismo.

Enquanto você tá aí discutindo sobre cotas raciais ou que seja, você acha que tá mandando bem porque quer que os negros vão pra universidade, e não se pergunta pra que serve essa porra de universidade. Se tá tendo uma discussão no G1, no Facebook, corra antes que seja tarde, é tudo uma distração. Você fica obcecado com as respostas e não se preocupa com as perguntas.

Pode ter certeza que se começarem a questionar o vestibular na mídia, é porque as pessoas começaram a fazer perguntas demais. Pronto, controvérsia fabricada, e o sistema educacional continua a mesma merda de sempre. Você realmente acha que o problema é o salário dos professores? É claro que isso é UM problema, mas não é o problema da educação, isso é um problema social/administrativo/etc. Quando foi que você viu alguém conversando sobre a validade do currículo escolar? "Ué, mas é pra isso que servem os pedagogos." Ou seja, não você. Ponto pros arcontes.


IV.

Porra, é tanta coisa que fica difícil dividir e falar, mas enfim, vamo lá. Pra que serve escola? Sério, alguém já respondeu essa pergunta sem repetir o que algum professor idiota falou? "Pra formar cidadãos." Tá, o que é um cidadão? "Pra aprender a viver no mundo." Ah, então foi na escola que você aprendeu a fazer imposto de renda, aprendeu a não ser influenciado por propaganda, aprender a fazer orçamento, e tudo mais, né, ufa, ainda bem. "Pra aprender os fatos que vão usar no mundo adulto." Eu te dou R$20 se você tiver mais de trinta anos, não for biólogo, e me explicar como se reproduzem os moluscos, um dos fatos tão úteis que aprendeu na escola.

A escola hoje em dia tem uma preocupação (eu tou falando da sua escola particular, não da escola em Serra da Poeira, Alagoas), e essa preocupação é passar os alunos no vestibular. Assim, mais pais desesperados, que não sabem o que é educação, vão querer botar os filhos nessa escola, e assim o ciclo se repete. Já parou pra pensar que o resultado que importa pra escola não é o aprendizado dos alunos, mas quanto dinheiro sobra no final do mês, quem sabe eles abrem outra escola em outro bairro?

Duas histórias ilustram essa tristeza:

  • Na aula de física, a menina claramente não entendeu porra nenhuma (o problema, é claro, não é que ela não aprendeu os princípios da física, que vão servir a ela no dia-a-dia, mas que ela não aprendeu os fatos cobrados na prova); o sinal toca, e a amiga dela fica pra trás com ela pra elas revisarem; o professor não aceita isso "VOCÊ É LOUCA, VOCÊ TÁ ENSINANDO SUA CONCORRENTE, ELA VAI ROUBAR SUA VAGA NO VESTIBULAR". Mensagem recebida: o que importa não é aprendizado, é receber ordens.
  • Palestra pra pais interessados em escola particular de renome, a diretora, falando sobre os alunos da escola dela: "aqui a gente ensina, desde essa idade, que esse menino é concorrente dessa menina". Eles não têm 15 anos, eles têm 8.

Pensa bem sobre isso.


V.

O valor do vestibular não tá em sua mensuração de inteligência, porque isso é a última coisa que ele faz. Ele não tem valor nenhum para os que o fazem, é só mais um obstáculo colocado pelo contexto deles que eles acham que têm que ultrapassar. O valor tá pros pais desses meninos: "meu filho passou em Direito na federal!" Parabéns, você acabou de formar mais um concurseiro.

Os pais dos adolescentes não têm a menor ideia do que é educação, do que é ensino, de como ele acontece, etc. Eles só conhecem o que eles mesmos passaram, que pode até ter nome diferente, ginásio ou sei lá que porra, mas é exatamente a mesma porcaria que hoje em dia. Portanto, é só isso que eles sabem cobrar dos filhos. Eles não têm a menor ideia se o Junior é criativo pra cacete ou só mais um autômato, eles não sabem se ele tem senso critíco, eles não sabem julgar nada disso. Por isso, eles se voltam para algo tangível, algo que eles podem medir (passou/não passou).

E é só disso que eles precisam. Como eles não sabem o que é um adolescente inteligente/etc, eles usam símbolos, que permitem a eles objetificar seus filhos, e reforçar sua identidade de "bons pais". Um bom pai se preocupa com a qualidade do aprendizado do filho, mas precisa saber medir essa qualidade, e ninguém sabe, então eles precisam de documentos ou que seja que mostre pra eles que os filhos aprenderam, notas, números, coisas vazias.

Você acha que o pai que essencialmente força o filho a fazer direito tá preocupado com a felicidade do filho? Claro que não. Ele tá preocupado com o filho fazer artes cênicas e todo mundo no trabalho falar que é viado, é hipster, sei lá. Ainda se o pai achasse que o filho tem um talento nato pro direito, aí quem sabe, mas não, ele sabe o filho é lesado e nunca se daria bem como advogado. "Pelo menos com direito ele passa num concurso público." Percebeu que o barômetro dele é o status do filho, não o conhecimento ou a habilidade dele? Ninguém quer um filho que seja excelente jurista, quer um filho que seja juiz, competência que se dane.


VI.

Vejamos o que o bom menino estudioso aprendeu:

  • que a resposta certa não é a que é lógica ou ética, é a que o corretor determinou
  • que ele não tem que aprender a analisar conteúdo, ele precisa memorizar fatos
  • que na vida é tudo certo ou errado, múltipla escolha, que não há ambiguidades ou ambivalências ou relatividade
  • que basta ele passar no vestibular ou se formar na universidade que ele vai ser uma pessoa competente, moral, etc
  • que o que mede a inteligência dele é uma prova binária
  • que apenas fatos importam, não contexto
  • etc
Parabéns, você não formou um cidadão, formou mais uma bateria pro Sistema.

"Cara, mas o que que tu tá querendo dizer?" Não importa o que eu quero dizer, importa o que você entendeu.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Representante, sim, mas de quem?

I.

"Feliciano não me representa!"

"Um governo do povo e para o povo". Taí um dos maiores moinhos do quixotesco povo brasileiro. "Mas, afinal, nós vivemos numa democracia, e elegemos nossos representantes". O problema aqui é que você até questiona o termo 'elegir' de vez em quando (sobretudo quando você quer impressionar as minas que tão no protesto), mas você nunca questiona o termo 'representante'. Será que o deputado Fulano, o presidente Beltrano realmente representam seus interesses? Todo mundo adora dizer que o Feliciano não os representa, mas se não é ele, quem então? É a Dilma?

Pense bem: coloque-se no lugar de um político qualquer. O que é mais importante? Garantir a permanência no cargo e o aumento da influência, ou fazer sacrifícios em prol de alguma minoria obscura? "Ah, mas eu tivesse no Congresso eu ia lutar pelos direitos de todos!" Ah, é? Então por que você não tá lá agora? A política, por natureza, atrai tipos que se interessam por poder, e não em ajudar os outros. Quem quer ajudar os outros faz caridade, doa seu tempo, seus recursos, porque o que interessa não é seu próprio benefício mas o benefício de todos. Quem é bonzinho assim não consegue sobreviver (às vezes literalmente) o jogo político porque seu senso de auto-preservação não é tão afiado.

E não se engane, a política é isso mesmo: um jogo. É uma briga por poder, por posicionamento, por fama. O progresso humanitário real não hierarquisa. A diferença entre nossa atual era pós-moderna e a Idade Média é que ninguém sabe direito quem é o rei hoje em dia, e em vez de um exército de soldados, ele usa um exército de lobistas. E tudo isso é um jogo. Quem é o mais fodão do quarteirão?


II.

Eu já mencionei antes que o cúmulo na política brasileira é o voto secreto. Isso confirma de fato que você não tem a menor ideia quem um devido político representa. Quer dizer, dá pra ter uma ideia sim, é só ver quem patrocinou a campanha dele, direta- ou indiretamente. Às vezes é difícil saber mesmo. Mas o que interessa é que definitivamente o representado não é você. A representação é uma ilusão. E já que você ainda pode comprar seu iPad e seu carro, ainda que a preços exorbitantes, você não tá nem aí pro que os políticos fazem, mesmo quando eles esfregam na sua cara que tão gastando seu dinheiro com cocaína e segurança particular.

"Mas então basta ver quem doou mais?" Hah, se fosse tão simples assim. Peguemos o caso das eleições municipais de Curitiba em 2012. O então-prefeito Luciano Ducci recebeu, de longe, mais doações do que todos os outros candidatos juntos (se você não sentiu um cheio podre aí pra começar, bom, talvez o AirWick tá dessensibilizando seu olfato). Mas infelizmente pra ele, isso não foi o suficiente. Saiu na Veja, por estranha coindiência, alguns meses antes da eleição, uma matéria em que ele é acusado de alguma corrupção ou outra. Se ele realmente roubou ninguém sabe (o MPF arquivou o caso, claro), mas o dano estava feito: o Ducci não conseguiu ir nem pro segundo turno. Ou seja, mesmo se, apesar dos milhões em doações, o Ducci fosse um "candidato do povo" (e quem melhor do que um médico pra saber como é ser um cidadão comum), ele não teria tido chance perante a máquina midiática - quem decidiu a eleição não foi você, foi a Veja.

Mas talvez mais interessantes sejam as eleições pra vereador. O candidato Zezinho do Sabará recebeu 6.600 votos e não foi eleito, enquanto o candidato Geovane Fernandes foi eleito com 2.861. Isso é a sua democracia representativa. Todo mundo aceita essa putaria porque, tanto na escolinha quanto em casa, que o que é válido é o que a autoridade diz quando fala sobre 'democracia'. O que não vale é pensar por si próprio o que a democracia realmente significa. Por que que você acha que as provas são quase sempre V ou F ou múltipla escolha? Porque aí não há necessidade de pensamento crítico ou filosofia, é só memorizar o que a autoridade determinou como sendo a escolha certa. E não adianta querer mudar as regras do jogo: não é você que escolhe elas. Você ainda pode, no entanto, parar de jogar.


III.

É aí que entra o Feliciano. Ele é só mais um numa lista infindável de distrações. Se você prestar bem atenção, sempre se discutem questões tangencias à democracia, e nunca a democracia per se. Todo mundo adora falar dos escândalos de corrupção e dizer pros amigos como fica revoltado, todo mundo compartilha posts anti-Feliciano e anti-Calheiros, e acaba que ninguém se pergunta por que que sempre aparece um escândalo de corrupção, por que que sempre tem um Feliciano ou um Calheiros.

Mais uma vez, tudo volta à educação. O que que a gente aprende na escola? Que teve escravidão, que teve monarquia, que teve ditadura. Nos apresentam uma sucessão de vilões que podemos odiar, e que nos permitem pensar "nossa, eu tenho problemas, mas antes era bem pior!" Nos dizem que hoje o Brasil é um país democrático, um país onde controlamos nosso destino. Dê uma olhada nesse artigo do site Brasil Escola:

"Nos tempos coloniais, observamos que o exercício dos direitos políticos se restringia a uma limitada parcela de proprietários de terra, conhecidos como “homens bons”. No interior das câmaras municipais, eles decidiam quem ocuparia os cargos políticos mais importantes e quais leis teriam validade."

"Em nossa independência, vemos que uma elite interessada em manter suas vantagens econômicas capitaneava o fim do pacto colonial."

"Na chamada Primeira República, vemos que a exigência ainda se somou a um sistema eleitoral corrupto e contaminado por mecanismos que determinavam a alternância das oligarquias no poder."

Como se tudo isso não acontecesse hoje em dia! O mundo sempre foi governado por "elites" interessadas em manter suas "vantagens econômicas", pouco importa se elas estão vestidas de monarquia ou democracia (ou até de comunismo). Se você ainda acha que o interesse dos políticos é de avançar o país, você precisa parar de comer lasanha congelada e miojo, esses produtos químicos tão estragando teu cerébro. Se você sai ganhando como consequência de alguma decisão política, pode ter certeza ou que isso é um efeito colateral ou que o político precisa do seu voto.


IV.


Mas nada disso importa. Afinal, você tem sua casa ("faltam só 257 prestações!"), seu carro semi-novo, seu laptop, seu iPod. Você pode usar sua camisa da Aéropostale, pode xingar a Dilma na internet. Você vive uma ilusão de que atingiu o objetivo da vida. Agora, é só relaxar e esperar a aposentadoria. Enquanto isso, o Marcos Valério tá passando a mão na sua grana, mas de boa, você assinou a petição no AVAAZ. Enquanto isso, o governo continua usando dinheiro público para fazer propaganda de si mesmo. E você continua trabalhando que nem um condenado (ou não trabalhando nem um pouco, depende se você foi pro setor privado ou pro público) pra conseguir pagar as parcelas da TV de 50 polegadas.

Você pode até achar que tá fazendo uma diferença com suas petições e compartilhamentos no Facebook, mas o sistema não tem o menor problema com isso, porque você ainda é uma bateria alimentando o sistema. Você ainda vota certinho (afinal, é obrigatório) e ainda paga seus impostos bonitinho, ainda consome de maneira totalmente irracional, e é só isso que interessa pra eles.

Quer dizer, isso tudo funciona muito bem, até você for se aproximando da casa dos 50. Depois do divórcio, dos filhos que te ignoram, das dívidas, você vai perceber que seu Citroën e sua impressora wireless não significam absolutamente nada, não vão te levar pro céu ou pra próxima vida, e certamente não vão te adiantar depois que seu fígado desistir.

Sabe por que que a escravidão foi abolida? Porque o melhor escravo é o escravo que não sabe que é escravo.

domingo, 17 de março de 2013

A culpa é de quem eu elegi!

I.

Renan Calheiros resolveu vender sua casa, pois o IPTU está muito alto


Dois dos grandes tópicos do momento (tá, da semana passada...retrasada) são os cargos atingidos pelo Padre Feliciano e pelo Renan Calheiros. Meu Deus, o Facebook pegou fogo. "Que absurdo!", "Temos que fazer uma petição agora!", "Protesto no dia 20!". Enquanto isso, alguma maracutaia muito absurda tá rolando debaixo dos nossos narizes e a gente só consegue prestar atenção no Feliciano falando mal dos gays ou dos negros.

Não se preocupe, não vou vir com aquela velha lição de moral de que você provavelmente nem se lembra em quem votou pra deputado (o que não deixa de ser verdade), portanto devia participar melhor do processo democrático pra ter direito de reclamar, blablabla. Eu não tou nem aí pra quem você votou porque não faz a menor diferença. Mesmo se você se lembra em quem votou, você sabe me dizer quem foi responsável pela melhoria na rodovia? Pra qual vereador você tem que agradecer pela renovação da escola? Se o cara em que você votou é, basicamente, bom ou ruim no trabalho dele? O que faz, exatamente, um deputado? Ah, ele faz lei. Ah...mas pra quem e por quê?

Prova de que não é importante é que no Brasil, pra ser eleito basta ser famoso, não importa o motivo. Vide o Tiririca, o deputado mais votado nas últimas eleições. Mas tudo bem que ele com certeza teve ajuda dos hipsters, que votaram nele porque seria "irônico". O próprio Tiririca mostra que, se você tem grana, não precisa nem saber ler e escrever direito - o que importa é que seu nome seja reconhecível. Isso sem contar que as pessoas nem votaram no indivíduo: votaram num papel, numa imagem. Ninguém votou pro Francisco Silva, todos votaram pro Tiririca - um personagem.


II.

Um belo dia, você tá lá postando mais uma foto sua no espelho, quando aparece um link pruma petição contra o Renan Calheiros. "Ah, boto fé, vou assinar. Foda-se esse Renan Calhorda." E você se sente uma bela duma cidadã. Comenta com todos seus amigos que assinou a petição. Até quem não tá nem aí vai ficar sabendo. Enfim, resultado final da petição: Renan Calheiros continua presidente do Senado. E mesmo que ele caísse, ia entrar um cara igual, só que talvez com uma aparência um pouco mais honesta.

Eu aposto R$50 que você nem sabe quantas assinaturas precisam pra que a petição valha alguma coisa, ou se é que é possível que faça uma diferença. O que interessa é que seu nome tá lá, e portanto você é um Cidadão. "Eles deviam se sentir assim na Grécia antiga!" Meu amigo, se você acha que consegue ter um mínimo de noção de como se sentia um grego, esquece, você não tem noção nenhuma.

É a mesma coisa com o protesto. Eu admito que já fui a um desses, mas também admito que me senti ridículo marchando numa faixa da pista, 500 pessoas no máximo, carros passando ao lado, a polícia ditando tudo. Mas que seja um protesto de dezenas de milhares de pessoas. Nada disso vai fazer diferença nenhuma porque a única coisa que importa é a eleição, e os políticos se preocupam muito mais com a massa popular religiosa do que com um monte de aspirante a revolucionário (eu convido quem tiver usando uma camisa do Che a viver da França na época do Terror que sucedeu a ilustre Revolução). O que um político quer é que qualquer um de nós quer: um emprego fixo. E o que ele precisa pra manter o emprego dele é ser eleito. E você que vota nele.


III.

Perceba que a faixa não quer dizer nada

Mas a grande sacada, o grande truque das eleições é que elas satisfazem tanto eleitores quanto candidatos porque nada muda no final das contas. O deputado sabe que vai ser re-eleito sem muito esforço porque ele pode essencialmente comprar os votos da maioria leiga, funcionalmente analfabeta, e portanto garantir seu lugar na mesa dos adultos. Do outro lado, o eleitor ganha porque ele fica totalmente livre das consequências de suas ações: o que der errado é culpa do governo/da oposição. Todo mundo esquece que ser cidadão significa ser responsável pelas escolhas de seus representantes.

E é aí que entra o outro fator: o governo é algo distante. É algo a qual não nos sentimos intimamente ligados. Desse jeito fica muito fácil ficar culpando os políticos, porque eles são praticamente lorde feudais (pense bem, eles colhem os impostos e gastam em seu próprio benefício) então a gente não tem culpa se eles só fazem merda. Enquanto você não se sentir responsável pelo que você vê na sua frente, enquanto você não se admitir que é parte da corrupção que ocorre de maneira absurdamente aberta, a situação vai permanecer do jeito que quem tá no topo quer: a mesma.

O clássico exemplo é o fulano que reclama a torto e à direita do governo, e dos partidos, e do presidente, mas que não sente nenhum remorso por furar sinal, por enganar a Receita, por colar na prova da faculdade. Os políticos são convenientes porque eles te ajudam a projetar seu próprio lado corrupto neles, se sentindo desse jeito livres de corrupção. O que vale é o que a gente faz, não o que a gente fala.


IV.


Uma solução é não ser responsável pela corrupção. Eu não voto, portanto não me sinto culpado quando descubro que um deputado roubou não sei quantos milhões. Por outro lado, eu também aceito as consequências disso, ou seja, que quem se eleger faz o que quiser. É o que acontece de qualquer jeito, então whatever.

"Ah, mas e se eu não votar, os que vão contra meus princípios vão ser eleitos!" Só que o único princípio que os políticos servem é a auto-preservação, já que a política atrai quem quer poder, não quem quer fazer mudanças reais no mundo. Sempre vai haver deputado honesto - mas até que ponto ele é honesto só na imagem? O voto é secreto! Você nem sabe pra quem seu deputado tá votando, como você sabe quais são os princípios dele?

O único jeito que você tem de mudar o que quer que seja é de ser responsável pelas próprias escolhas. No entanto, é decididamente mais fácil quando a mamãe-governo tá ali pra nos proteger se algo der errado. O governo tá ali pra te proteger de você mesmo - é só ver a proibição contra as drogas. Não tomar heroína deveria ser uma escolha moral e pessoal, não a escolha do governo. No Brasil, não nos responabilizamos por nosso uso de drogas. Se você nunca tomou heroína porque é ilegal, então tá na hora de cortar o cordão umbilical. Você não devia tomar heroína porque ela te fode, mas se você quiser se fuder, quem sou eu pra julgar? O corpo é seu.

E se você ainda tem fé no poder do seu voto, eu só te lembro que o Fernando Collor é senador hoje em dia. Um povo tem o governo que merece.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sindicato dos restaurantes quer competir com a indústria automobilística

I.

Então hoje eu entro no CorreioWeb, e qual a notícia principal? "Preços sobem até 22% em restaurantes, bares e lanchonetes do DF". Será que algum editor encontrou uma mosca na sopa? Domingo é o dia que o povo mais sai pra comer, e a notícia é publicada às 8 da manhã e é a principal manchete no site.

Mas o problema é que no fundo ele tá fazendo um favor pros restaurantes, publicando numa "notícia" a desculpa do sindicato, porque todo mundo lê o que tá no jornal como sendo Verdade. Veja o que eles dizem:

"Em discurso unânime, donos de bares e restaurantes dizem ser quase impossível não mexer nas tabelas: as variações dependem do tipo de negócio e do tamanho da margem de lucro aplicada pela empresa. Eles elegem como principais vilões as bebidas de maneira geral, a carne, os legumes e as verduras. Reclamam, ainda, da carga tributária de produtos como o vinho (que corre o risco de encarecer cerca de 15% nas próximas semanas) e do impacto da folha salarial, responsável por algo entre 20% e 30% do custo operacional de um restaurante."

Isso é tudo deflexão, que que a folha salarial tem a ver com o aumento dos preços? Vai me enganar que o salário dos funcionários tá aumentando? Mas mesmo se tivesse, aumentaria no máximo no passo da inflação. Tudo isso que eles falam não encobre um simples fato: "Alguns estabelecimentos, porém, chegaram a reajustar os cardápios em até 22%, quase quatro vezes a inflação oficial acumulada nos últimos 12 meses". Ou seja, mesmo se houvesse algum custo a mais além da inflação, isso não justifica um aumento quatro vezes maior. Resumo: os restaurantes aumentam os preços de maneira abusiva, depois recebem simpatia porque botam a culpa no governo, e todo mundo sabe que a culpa sempre é do governo.

Por que os restaurantes aumentaram tanto os preços? Pelo mesmo motivo que o Brasil tem o carro mais caro do mundo: porque você é trouxa e paga.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Cotas raciais não são um problema de raça


I.

Tiago se depara com uma opinião contrária à sua

Se formos escolher um assunto polêmico, uma das escolhas óbvias é a discussão sobre cotas raciais nos vestibulares e, mais recentemente, nos concursos. Os que são a favor dizem que são medidas necessárias para que se corrija os erros cometidos pela escravidão, e os que são contra repetem que isso é apenas dar continuidade ao racismo, e que o nível nas universidades cairá. Qual lado, afinal, tem razão?

Se você respondeu essa pergunta, você caiu na armadilha. O fato de ser a favor ou contra cotas é absolutamente irrelevante porque você já aceitou a forma do debate. Você já aceitou que é um assunto polêmico (de acordo com quem?), que é um problema de raça (quem só tem antepassado de uma ‘raça’ que atire a primeira pedra), que é o governo que vai resolver prum lado ou pro outro (“papai vai cuidar de mim!”). Você não questionou nenhuma das minhas premissas, e deixou que eu controlasse a questão.

Acho bom você começar a pensar sobre isso, porque a mídia e a publicidade fazem isso com você todo santo dia.

No final das contas, ninguém questiona se a discussão das cotas é uma discussão que vale a pena se ter. Ninguém toma uma distância objetiva para julgar o mérito não só dos dois lados, mas da própria problemática. Ao discutir os prós e os contras das cotas, você está deixando de discutir os méritos do vestibular, do sistema educacional brasileiro, de um diploma universitário. Você cedeu a uma redução arbitrária, e perceba que esse é exatamente o problema do próprio conceito de raça: a tentativa de se reduzir algo infinitamente complexo a grandes categorias que não dizem nada sobre a personalidade ou o caráter da pessoa.

Vejamos como isso se aplica no caso das cotas.

II.

Uma premissa que é inconscientemente aceita é que a universidade automaticamente melhora a condição básica de um indivíduo. Vários irão dizer que estudos comprovam que quem tem ensino superior tem uma renda maior. Mas perceba que há uma causalidade implícita onde há apenas correlação. Poderia dizer, e seria igualmente válido, que pessoas que se esforçam mais têm maior probabilidade de ter diploma e, ao mesmo tempo, uma renda maior por serem esforçadas. Isso é uma charada, uma ilusão de ótica.

O que acontece é que as pessoas confundem o ideal de universidade com a realidade da universidade. As pessoas imaginam que irão à faculdade, e irão absorver conhecimento (note que educação quer dizer, semanticamente, “trazer para fora”), adquirir pensamento crítico, etc... Certamente muitos irão adquirir conhecimentos técnicos (médicos, advogados...) necessários à sua função, mas a maioria, sobretudo nas humanas, irá simplesmente ficar regurgitando ideias de outras e tentando agradar o professor e atingir o conceito dele de “verdade”. Por que que médicos e advogados, por exemplo, são mais bem-vistos e bem-pagos (independente dos méritos de cada indivíduo) pela sociedade? Não é por que seus empregos são “mais importantes”; isso é uma noção elitista. Seria realmente pior viver numa sociedade sem coletores de lixo do que numa sociedade sem médicos? Os médicos poderiam desempenhar seus papeis sem enfermeiras, sem secretárias, sem faxineiras, sem seguranças? Não. O valor inerente do médico e do advogado se encontra no fato de que são profissões que por definição requerem uma grande quantidade de esforço. Sim, você pode virar um vagabundo depois de se formar em medicina (será?), mas nesse caso o rótulo de “médico” não se aplica mais a você. O médico recebe mais dinheiro porque, por mais que a secretária seja essencial, é mais difícil ser médico do que secretária. Requer mais sacrifícios, requer mais força de vontade, requer mais proatividade. Infelizmente, um resultado disso é que o campo tende a atrair pessoas que se esforçam não para curar, mas para atingir o status de “médico”.

Outra “verdade” implícita é que o vestibular, independente de cotas, é uma maneira adequada de se medir a afinidade da pessoa para a vida universitária. Preste bem atenção nas palavras que usei aqui. Os ramos acadêmicos são apenas uma parte da grande estrutura da sociedade (que é fisicamente construída por pedreiros, diga-se de passagem), e, do mesmo modo que certas pessoas possuem afinidade para esportes, certas pessoas possuem afinidade para a academia. Veja bem que, ao ditar a necessidade da universidade, você está dizendo subtextualmente que a universidade é melhor que a não-universidade. O vestibular, pra que não haja nenhuma dúvida sobre o assunto, é uma FARSA. É uma prova que mede sua capacidade de memorizar fatos e aplicar fórmulas. Agora quero que você me encontre um emprego cuja função principal é memorizar fatos e aplicar fórmulas. “Ah, mas ele vai aprender pensamento crítico e essas coisas na universidade!” Se ele não aprendeu pensamento crítico na escola nem em casa, você realmente acha que ele vai aprender numa estrutura hierárquica como a da universidade? O Brasil, por mais que se veja como estando na vanguarda da pedagogia, é um dos poucos países mais desenvolvidos que ainda adota uma prova de V-ou-F e múltipla escolha como único critério de entrada em universidade. E agora pense: você já viu alguém, que concorde ou discorde de mim, falando do assunto nesses termos, na televisão ou no jornal?

E lembre-se que isso tudo é encoberto por essa meta-discussão sobre cotas. Enquanto você posta uma citação de outra pessoa no Facebook mostrando como você é progressista/feminista/humanista, o cara que passou a adolescência aprendendo a fazer uma prova não sabe o que fazer quando se depara com um debate sobre a Alegoria da Caverna, ao mesmo tempo que o cara que monta baterias no quintal com laranjas e um alicate fica frustrado por não ter chegado perto de passar em Engenharia.

Mas afinal, isso não é uma discussão sobre o vestibular. Isso fica pra outra hora. Isso também não é uma discussão sobre cotas. Isso é uma discussão sobre você.

III.

Digamos que você tá no Facebook, e sua amiga feminista compartilhou um artigo do Estadão que diz que cotistas têm melhor desempenho na faculdade que não-cotistas. “Po, que bacana, as cotas realmente tão funcionando.” Sua vez de compartilhar. Mas será que você leu mesmo? Tá, tudo bem, você clicou no link. Foi além do terceiro parágrafo? Descobriu se o estudo foi realizado com controle, em mais de um local, de maneira objetiva? Se questionou se há relação entre notas altas e sucesso na vida (não se esqueça de definir sucesso)? Tentou descobrir qual é o viés da reportagem e o do jornal? Pesquisou para ver se há outros estudos que contradizem o do Estadão?

Se você o fez, ótimo. Mas a probabilidade é que você tenha compartilhado o artigo não para transmitir informação, mas para transmitir uma identidade. Quando você posta o link, o que as pessoas vão ver não vão ser novos dados, novas perspectivas. Elas vão te ver como progressista, elas vão ver como você tem razão porque a “ciência” está do seu lado, elas vão ver que você se importa com os pobres e oprimidos. Você realmente acredita que vai mudar a opinião de alguém sobre o assunto? Você vai meramente reforçar não só a sua própria identidade, como irá reforçar a identidade de todos aqueles que ou concordam com você ou te odeiam (mas é claro não tanto quanto você odeia a “injustiça”).

“É claro que não, seu idiota, eu tou defendendo a igualdade!” Sério? Você, compartilhando citações, está fazendo algo para mudar a situação? Não acho que o menino que acabou de perder o pai pro tráfico se importa muito com seu status no Facebook.

“Mas você espera que eu vá pra favela dar dinheiro pros pobres?” Claro que não. O que eu espero é que você não tenha ilusões de que o fato de você compartilhar (que palavra bonita, né) o que você acha (leia-se: o que leu, de outra pessoa) sobre o determinado assunto faz alguma diferença fora do mundo das imagens. Na prática, você não fez nada.

Agora, não entenda isso como acusação. Eu também não fiz nada. O que importa é que você entenda por que que você é a favor ou contra cotas, e lembre-se, esses motivos não têm nada a ver com lógica e racionalidade. Por que que você sentiu raiva quando viu aquele cara que você conheceu no churrasco falar que era contra cotas porque cotas é racismo? Por que que você ficou orgulhoso quando convenceu seu pai a ser a favor das cotas?

Por que que você liga quando uma pessoa que não enxerga além do próprio nariz diz que acha que cotas são uma burrice/uma necessidade?

É tudo muito simples. No fundo, o que importa não é validade dos seus argumentos, mas como os outros vão ver você dependendo de que lado da questão você está.

IV.

Por falar em outro lado da questão... vamos sair um pouco da nossa própria realidade (difícil, eu sei), e vamos tentar ver como o negro pobre vai ver essa situação toda. Ele provavelmente vai interpretar as cotas em uma de duas maneiras: ou vai entender “o sistema está tentando maquiar uma injustiça sistêmica (er, não nessas palavras, ele se revoltou contra a escola muito tempo atrás) e eu não vou participar dessa palhaçada” e vai voltar a cuidar da loja ou a pichar o muro da loja; ou, na maioria dos casos, vai entender (inconscientemente, por favor) “está claro que você não está apto para sair do buraco por causa dos brancos ricos/educação pública péssima/falta de recursos, então aguenta aí enquanto os brancos ricos resolvem o problema” e vão continuar cedendo à autoridade. Sim, é paradoxal, mas onde há um paradoxo há um núcleo de significado.

É muito difícil para as pessoas aceitarem que motivação extrínseca é no máximo temporária. De que adianta botar o cara na universidade se ele vai sair de lá achando que é o estado que vai resolver todos os problemas dele? Aposto o que você quiser que esse mesmo cara vai se mudar pra Brasília pra estudar pra concurso, que aliás já vai ter cotas também.

Não se discute um alívio da carga tributária/burocrática para pequenos negócios, se discute cotas. Não se discute taxas de juros e subsídios para microempresas, se discute a escravidão – aliás, como se fosse um fato histórico e não um fato moderno: se você só tem dinheiro pra comprar comida e mora num barraco, como que sua vida é diferente da de um escravo?

A “controvérsia” sobre as cotas é fabricada (dificilmente de maneira consciente, calma lá) pra mascarar os problemas endêmicos*. É uma conversa que muda o foco da discussão do pobre negro pra você. O que vale é como você se vê e como os outros te veem, e nosso caráter é um mero zero à esquerda. “Não doei nenhum dos meus 13 casacos, mas pô, eu sou super a favor de cotas!”

Veja bem, isso não quer dizer que você seja uma pessoa imoral. Isso quer dizer que a sua opinião sobre as cotas deveria ser uma consequência natural da sua moralidade, não uma faceta da sua identidade a ser construída através de estudos “científicos” e citações populares. Se você realmente quer fazer uma diferença, não diga que é a favor de cotas e espere o governo resolver o problema – vá ser tutor de um menino pobre, vá fazer campanha na sua comunidade (ou faça algo para que o conceito de comunidade volte a significar alguma coisa), vá abrir a mente de outros, vá reformar a escola, vá e FAÇA!

A satisfação é proporcional ao esforço, então não espere uma sensação de dever cumprido quando ver o cara pegando dois ônibus xexelentos por três horas pra ir pra universidade descobrir que a professora viajou pruma palestra no Chile e ele não vai ter aula hoje.

V.

O professor e juiz William Douglas está aqui para nos dizer que ele é um cara super bacana porque agora ele é a favor das cotas pra negros e índios**. Ele começa seu discurso sobre como salvar o mundo pelo único começo lógico: ele mesmo, é claro:

“William Douglas, juiz federal (RJ), mestre em Direito (UGF), especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ), professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis.”

Todo o primeiro parágrafo nada mais serve para estabelecer a sua própria identidade diante de sua plateia virtual. Aqui ele já estabelece credibilidade (ele é juiz, professor e escritor – mas você sabe o que ele julgou, professou ou escreveu?) além de estabelecer que é branco (implícito: “apesar de ser branco, não sou racista”***). “Ouçam-me porque esses pedaços de papel dizem que minha opinião é válida nos olhos da sociedade.” Mas tem mais:

“Quem procurar meus artigos”

Fica a dica ;)

“Embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos.”

Não esquece que eu sou juiz, então você não pode questionar essa opinião, tá?

“Não me valerei de argumentos técnicos nem jurídicos...”

Repito porque meus sentimentos que importam!

“Por isso, em texto simples, quero deixar clara minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor, "guru dos concursos" e qualquer outro adjetivo a que me proponha.”

Além de ser juiz e cristão (leia-se: pessoa de moralidade), sou um guru!

“Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular "para negros", aceitei convite para aulas como voluntário naquela ONG...”

Minha ideologia é válida porque eu faço caridade! (por ‘caridade’ entenda-se ‘ensinar aos pobres como entrar no sistema – regra número 1: não questione o sistema)

"Meu pai foi lavrador até seus 19 anos, minha mãe operária de "chão de fábrica", fui pobre quando menino, remediado quando adolescente.”

Eu fui pobre, eu sei do que tou falando! Sua opinião de rico não vale!

“Nada foi fácil, e não cheguei a juiz federal, a 350.000 livros vendidos e a fazer palestras para mais de 750.000 pessoas por um caminho curto, nem fácil.”

É bom o Deepak Chopra se ligar que a concorrência tá chegando! Viu como eu tenho razão, tantas pessoas me ouvem!

“Mas tive heróis que me abriram a picada nesse matagal onde passei. E conheço outros heróis, negros, que chegaram longe, como Benedito Gonçalves, Ministro do STJ, Angelina Siqueira, juíza federal. Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio.”

Viu como eu não discrimino?

"Minha filha, loura e de olhos claros...”

O nome dela? Não importa, ela é minha filha!

E por aí vai. Aqui encontramos o que é pra ser uma discussão sobre os méritos do sistema de cotas, eu tudo que consigo ler é EUEUEUEUEUEUEUEU. Esse artigo não foi publicado para trazer algo à discussão empírica, ele foi publicado pro autor mostrar como ele é inteligente e humanista. O que interessa aqui são apenas imagens: a imagem dele de juiz, de branco (desculpa, “caucasiano”), de bom pai, de pensador, de conhecedor.

Esqueça lógica: você tem que ser contra cotas porque esse advogado branco passou um tempo dando palestra pra pobres, o que mostra como ele entende do assunto. Ele descreve que resolveu “passar um dia na cadeia” (metáfora de um cara que já morreu) para entender como é do ponto de vista dos pobres. Que ser humano! Veja como ele sofre com os pobres:

"Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio.”

Perceba que independente do resultado, fica implicado que não é o pobre que vai se ajudar – ou ele precisa de psicólogo e curso de inglês, ou ele precisa de palestras e cursinhos. Isso tudo é apenas um meio de aliviar a culpa branca de classe média: “estou fazendo minha parte!” Ah, é você que vai resolver, ufa!

Tem muito mais o que falar, mas eu convido você a ler o artigo e ver por si mesmo –desconstrua-o e pergunte-se: o que o autor quer que seja verdade? No entanto, há um último pedaço que não posso deixar passar...

“Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem faze-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo.”

E agora, quem vai falar pra ele que os nazistas também usaram cotas raciais?

VI.

“Mas afinal de contas, cotas é bom ou não?” Hah, não, valeu, não vou cair nessa. O problema não são as opiniões a favor ou contra, mas a motivação por trás dos debates. Não deixe os outros tomarem as rédeas do discurso. Em vez de postar uma citação, desenvolva sua própria ideia. Em vez de debater o mérito das cotas, debata o mérito do sistema. Pense não só em por que a pessoa tá divulgando aquele estudo, mas por que você adorou/odiou o artigo. Considere se é um discurso que vale a pena. Em vez de falar, FAÇA. A sua identidade não é determinada pelas ideologias com a qual você se alinha, mas pelas suas ações concretas.

O problema não é o racismo. O problema não é o sistema. O problema é você.





* é o mesmo que o prefeito que manda repavimentar as ruas da cidade (com asfalto barato) pra fingir que “está preparando a cidade pra copa”, enquanto o sistema de transporte público continua ultrapassado e malfeito – “ah, mas o prefeito Fulano tá fazendo alguma coisa, o anterior não fazia nada!”

** outro ponto que ninguém lembra: cota pra índio nada mais diz que “bah, esse estilo de vida dos índios não é legal, eles precisam da universidade dos brancos (“e em breve negros!”) pra serem alguém na vida.”

*** então por que se classificar como branco?
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