quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A criação de um narcisista

I.

E ele nunca mais conseguiu parar de ver seu reflexo no lago

Juninho, um machista no capricho

Eu diria melhor. Juninho, um narcisista no capricho. O Miguel Rios quer fazer um comentário sobre a cultura machista, e bom, ele acerta em cheio, não sobre o machismo, mas sobre o narcisismo, por isso vou transcrever aqui o artigo e fazer uns comentários.

II.

Juninho nasceu. Dia de festa na família, de orgulho. O filho varão. Quarto azul, roupinhas azuis. Azul é o ursinho. Azul é o chocalho. Trata-se de um menino, homem, e tem logo que ser identificado com tal. Não deixar dúvidas.

Já temos aí o primeiro problema, os pais vão enfatizar a masculinidade dele mas o que ele vai absorver do ambiente é feminilidade, azul não é uma cor masculina, é uma cor feminina, fria, emocional, depressiva, etc. A cor masculina por excelência é o vermelho. Os pais negam seu lado feminino mas o fazem confrontá-lo todo dia. Parabéns.


Juninho é carregado pelos tios e logo seu pênis, mesmo diminuto, é louvado. "Pintão!". "Esse puxo ao tio!" As tias se apressam em arranjar um par para quem tem um dia de vida. "Agora a filha de Maria e João tem com quem namorar", diz uma. "Tem também a de Pedro e Juliana", lembra outra. Chegam logo a um consenso que ele dará conta de todas.



É garanhão. É homem. Surge a conclusão que ele estava virado para o lado direito, pois, nessa posição, poderia ficar de olho na menininha ao lado no berçário. Conversa vai conversa vem, alguém lança a teoria que quando ele chora as garotinhas se calam para escutar o grito másculo do conquistador.


O lado direito é o lado feminino, conservador


Juninho é homem e como homem será criado. É uma família que nutre a testosterona, a macheza, com muito cuidado. Não podem fraquejar, por tudo a perder.


Reparem que o interesse aqui é o dos pais, não o do filho. Eles não tão nem aí pra como ele se sente, eles só querem reforçar a própria imagem. O problema de acharem que o Juninho é sensível não é que isso é ruim pra ele, mas é ruim pros pais.


O menino cresce e é teleguiado na ordem. Bola e carrinho. Falcon e Comandos em Ação. Um dia Juninho tocou em uma Barbie. De imediato foi repreendido. "Não é para menino". Ele beijou um amiguinho na bochecha. Recebeu uma bronca maior. Roubou um beijo na boca da coleguinha. Quanta alegria dos pais, que fingiram desaprovar diante dos familiares da garota, mas comemoraram em casa o avanço do amado homenzinho. "Esse não nega. Vai pegar todas. Hehehehe!" Como o pai está feliz.

É gradual. Juninho aprende a ser homem, macho, como se espera, é o que tem que ser. O tio o abraça e pergunta: "Quantas namoradas já tem na escola?" Juninho responde: "Sete". O abraço fica ainda mais apertado. Respondeu assim... na obrigação, no escapa. De tanto ser questionado e ficar perdido sem saber o que falar, contou as amigas de classe e jogou o número na inocência. Foi premiado, viu que agradou. Tempos depois aumentou para oito. Mas comemorado ainda. Juninho fixou que quanto mais aumenta a soma, mais homenageado é.

É óbvio que o Juninho não tem literalmente sete namoradas. O tio só reforça que o que vale é apenas a imagem, a impressão que você causa. O abraço é mais forte não porque ele tem várias namoradas mas porque ele disse que tem várias namoradas. O Juninho aprende que o conteúdo real não é importante, apenas o que as pessoas acreditam.


Aprendeu. Homem tem que pegar muitas, tem que contar que pega muitas e aí causa contentamento. Mulher é feita para ser apanhada. Juninho já sabe que isso "é coisa de homem", que "homem é assim mesmo", "que quem quiser que prenda suas cabritas que o meu bodinho está solto". Juninho fixou.

Chegou na adolescência e tem consciência de que o mundo é machista, desde o começo é desse jeito, fim de papo. Ele dos que saem e paqueram. Dos que se ligam em uma garota e vão para cima. Dos que acham que a fêmea tem que ceder, que sua cantada é imbatível, que insistir é fundamental.
Juninho aprendeu com os parças que a mulher vai ali para ser incomodada, que ela faz doce, mas ela está querendo, que não tem que abrir para o beicinho dela, que macho que é macho não desiste. Ele já beijou forçando, puxou cabelo, levou tapa na cara e bateu de volta.

Ou seja, as mulheres não tem individualidade, só têm papeis, elas não são Maria e Roberta e Laura, elas são a puta, a virgem, a popular, a nerd, etc. O narcisista não vê um mundo repleto de sujeitos, ele se acha o protagonista de um filme e todos os outros são só tipos, estereótipos, personagens secundários. Se elas são apenas imagens, é claro que não têm vontade própria, a única função delas é em relação a ele.


Juninho modelou a mente para identificar a menina para ficar e a para namorar. Normas que ele segue à risca, porque homem que é homem de respeito não se liga à vagabunda, não quer ouvir "tás com uma rodada?". Para namorar é a menina com menos fama de ficante possível. A comportada. A virginal. Para dar uns pegas é a liberta, a sem amarras, que ele conhece como piranha. A que não vai rejeitá-lo. A que taxaram como sempre disponível. Que é ir lá e pimba!, já pegou. Que se recusar ele tem o direito de reclamar: "Como assim ele ser recusado?", "Como assim aquela puta posar de difícil?". Juninho não entende. Não admite. Não foi o que lhe disseram desde sempre, está fora do eixo.



O problema, reparem, não foi ser rejeitado pela Fulana, foi ele ser visto como rejeitado. É claro que ele vai criar racionalizações, "ela é uma puta", mais uma vez apelando prum papel.



Não é o que lhe cobram. Juninho sabe que precisa corresponder. Caso algum requisito do macho ideal falte em sua ficha, ele tem que pagar. Preço, para ele, duro.



Ênfase minha.



Se Juninho tropeçar diante da banca examinadora, que nunca para de fiscalizar, é chamado de gay. Instantâneo. Se fraqueja na caça sexual, é veado. Se usa um sapato fora das regras, é boiola. Se pede um chá na cantina da escola, é bicha.



Ou seja, qualquer indício de que ele é um sujeito tem que ser escondido pra reforçar a imagem. Mas o resultado disso é que não há mais Juninho, há apenas mais um macho alfa.



Inadmissível para ele. Juninho foi doutrinado para pensar que, mas que tudo, homossexualidade é o que há de pior. Que seus tios e tias, primos e primas, avôs e avós, mãe e pai, sempre o guiaram no cabresto, com tanta pressão, tanta vigilância, tanto esforço, para evitar a desgraça. Que ele pode ser tudo. Machista, tarado, bandido, dar desfalque, trair um amigo, ser violento, mandar pessoas para o hospital. Tudo. Menos a desonra de ser gay.



Juninho treme apenas em pensar na possibilidade de que alguém bote sua macheza em dúvida. Nunca. Logo ele que para desmerecer chama logo de veadinho. Logo ele que vai para o estádio torcer e grita sem parar "Fulano, veado", "Time de mariquinhas". Que nem cogita ter um jogador homossexual manchando as cores de seu manto sagrado. Que caso ocorra vai ameaçar o cara,manda sair, já em pânico pela chacota que o adversário vai fazer pelo resto da vida.



Logo Juninho que não lava um prato, nem arruma a cama por ser trabalho de mulher. Logo ele que abusa dos gesto viris. Que abraça amigo quase na porrada para que o afeto não seja confundido com delicadeza. Que grita palavrão quando uma garota de minissaia passa, que coleciona Playboys, que de jeito nenhum chora porque nada a ver ser sensível, que transa mesmo sem estar a fim apenas para manter a reputação intacta.



Um comportamento muito comum, se você reparar, não, não o que eles dizem, o que eles fazem, é ficar se agarrando um ao outro. O autor explica bem: eles usam a desculpa da porrada, mas seja o que for, eles falam que tão se batendo mas o mundo vê eles se pegando. Lembra que eles adoram UFC.



Que acha que o mundo corre perigo de enveadar por causa dos direitos LGBTs. Que ficou sabendo que ativista homossexual é gayzista, que ser homofóbico é apenas bater em gays, que destratar, querer que continuem subcidadãos, subalternos, é defender o orgulho hétero, as famílias, a ordem natural. Que acha o mundo é hipócrita, já que ninguém quer ter filho gay, mas ficam defendendo.



Isso é projeção, o hipócrita é ele, ele sabe que os gays merecem os mesmos direitos que todo mundo, mas ele não pode admitir isso, nem pra si mesmo.



Juninho é algoz e vítima. O mundo, que ele tanto acredita ser imutável, que como está deveria ficar, solidificou aos poucos, desde quando bateu suas primeiras palminhas, o que ele prega.



O mundo de Juninho é o de verdades velhas, fabricadas por interesse, de seus antepassados, que ele absorveu como suas. De que há pessoas subordinadas, que o lugar delas é aquele, que não têm nada que contestar. Elas têm é que se contentar.



A ideologia primária não é anti-gay ou anti-mulher ou que quer que seja. O que interessa é que você aceite seu papel de bateria da Matrix, que você não questione nada, que você se submeta à autoridade. Eles se posam de macho alfa mas no fundo são os machos ômega.



Juninho é um rei. Está no lucro. Posto no topo da cadeia alimentar, em um ecossistema onde outros são presas. Para capturar, acasalar, procriar ou para destruir. Ele luta para perpetuar seu lugar dominante.



Isso é o que ele quer ver. O melhor escravo é aquele que não sabe que é escravo, que se acha o rei.


Juninho não atenta, em seu silêncio crítico e criativo, o quanto ele nada tem de atitude. De ele mesmo. É um papagaio, uma cópia. Um escravo, que asfixiou uma parte de si para dar satisfação, se moldar ao que se quer dele. É passivo.

Ele não asfixiou uma parte de si, ele se asfixiou por completo. Não há Juninho, nem ele acredita mais nisso.



Mas Juninho está nem aí, nem vai chegando. Raciocínios novos são frescuras de veado. Ficar lamentando injustiça é mimimi de veado. Homem bebe, arrota e dá no couro. E fica tudo bem.



Juninho tem mais é que se preocupar com o casamento que se aproxima. Com menina que ele desvirginou e engravidou. Não está muito na de juntar as escovas de dente, já caiu na greia dos companheiros, de que vai para a forca, que perder a liberdade, mas ele se compromete a não deixar a farra e a pegação. "Mulher em casa nada impede mulher na rua". E arranca gargalhadas. Se não der certo, separa e volta por completo para a curtição.



Na verdade o provável é que ele traia ela de mais em mais frequentemente, com mulheres de mais em mais jovens, porque ele não conseguirá aceitar o fato de que está envelhecendo, a única coisa que ele sabe fazer é pegar piranha, mas vai chegar uma hora que todo o Viagra do mundo não vai levantar o pinto desse cara. Ela vai ficar com ele porque ela não conhece outra coisa, presta atenção, ela tá com o cara que desvirginou ela até hoje. O mundo inteiro dela tá no dele porque os pais dela não ensinaram ela a ter respeito próprio, a valorizar a si própria, olha com quem ela casou porra.



O importante é que Netinho nasce daqui a seis meses. Enxoval azul já encomendado. Max Steel e Hot Wheels na prateleira. Netinho vai puxar ao pai. Macho todo.



E aqui está o problema de verdade. Já não há mais esperança pro Juninho, ele já ficou pra trás. E agora, quem vai salvar o Netinho?

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Não é raiva, é inveja

I.

Lúcifer encarnado

Se você entrou na internet na última semana, você deve ter visto a tragédia mais relevante dos últimos tempos. Se você pensou na Síria ("fica perto do Oriente Médio, né?") ou na erosão da economia mundial ("quê? eu comprei um iPad ontem!"), parabéns, você ainda tem chance. Se você pensou na escolha do Ben Affleck pro papel do Batman no próximo filme do Super-Homem (?!?), se remova do genoma humano antes que seja tarde demais.

Fãs realizam petição para tirar de Ben Affleck o papel de Batman

Puta que o pariu. Eu não sei nem por onde começar.


II.

Pense bem: cada segundo que você passa criticando a decisão ou assinando petições é um segundo que não contribuiu absolutamente nada nem pra si mesmo nem para os outros. Você realmente tem alguma ilusão que uma petição vai fazer com que os produtores voltem atrás? A única maneira que você tem de influenciar essa decisão é de não assistir o filme, mas eles sabem que isso nunca vai acontecer, então eles ganharam.

"Mas eu vou ver o filme na internet, não vou dar dinheiro pra eles." Talvez, mas você vai conversar sobre o filme com teu broder, que depois vai querer assistir no cinema. Eles ganharam de novo, esquece cara, eles são muito mais experientes nisso que você. Você realmente acha que o Pirate Bay continuaria a existir se os picas-grossas da indústria do entretenimento não deixassem? Se você respondeu que sim, eu conheço um príncipe nigeriano que precisa da sua ajuda com uma transação bancária.

O fato é que você tá fazendo um enorme investimento psíquico numa questão que é, no melhor dos casos, superficial. Mas tudo bem, eu entendo, se você investir sua energia psíquica no autodesenvolvimento vai se dar conta que sua vida é uma mentira, é difícil aguentar esse tipo de choque. Isso é, mais uma vez, masturbação. Pensa bem: seus 15 minutos foram mais mal gastos do que com uma punheta, porque pelo menos com a punheta você goza.


III.

A única coisa que interessa pros produtores é quanto dinheiro vai entrar na conta deles depois que o filme sair. É por isso que eles gastam centenas de milhões pra promover os filmes, a ideia é saturar você com a ideia do filme até que você assistir o filme seja inevitável.

Ou seja, quando você chama o pessoal pra participar na petição, a única coisa que você tá fazendo é promover o filme, porque o que importa é que as pessoas estejam falando sobre o filme, foda-se o conteúdo efetivo da conversa. Até uma prostituta ganha um pouco de (ou muito) dinheiro quanto ela vende o corpo. Você vendeu a alma e não ganhou um tostão.

A escolha do Ben Affleck foi uma controvérsia fabricada, eles não escolheram ele apesar da reação dos fanboys, eles escolheram ele por causa da reação dos fanboys. Eles contaram com sua petição, cara. O artigo acima ainda faz o favor de mostrar a futilidade dessa discussão dando o exemplo da reação dos fanboys à escolha do Heath Ledger. Eles reclamaram, resultado, o Heath Ledger virou um rock star e dirigiu seu carro até o pôr do sol.

Alguém lembra da atrocidade que foram os filmes do Batman que vieram antes do Chris Nolan? Schwarzenegger e Jim Carrey, sério? E o Ben Affleck é ruim? Olha, eu até concordaria se fosse dez anos atrás. Todo mundo fala do Demolidor (?!?) mas esse cara fez Gigli, desculpa, Contato de Risco, puta merda, mas felizmente o Ben Affleck não é que nem você, ele evolui, ele cresceu, e hoje em dia ele tem uma pilha de Oscars e buceta à la carte e você não tem nada.


IV.

Falar mal do Affleck é fácil, mas eu te garanto que você trocaria de vida com ele num piscar de olhos. A verdade é que ele é perfeito pro papel: ele é branco, ele é atraente, ele tá perto dos 40, ele é um bom ator. Que mais você quer, porra? Mas não, o problema não é que ele não daria um bom Batman, eu te garanto que vai tar todo mundo pagando pau quando o filme sair, o problema é que ele não é quem você imagina na sua fantasia do Batman.

O Christian Bale é conhecido por fazer papeis difíceis e sombrios, portanto ele é bom, enquanto o Ben Affleck faz filmes de ação e comédias românticas, portanto ele é ruim. O que você esquece é que eles são atores, eles são pagos pra mentir pra você, os papeis que eles tiveram antes do Batman não tem absolutamente nenhuma relevância ao desempenho deles como Bruce Wayne.

Mas isso é só secundário, a principal razão que você não consegue imaginar outra pessoa no papel é que os filmes do Nolan foram seu primeiro contato real com o Batman (não, assistir o filme do Tim Burton aos oito anos não conta), ele que é o SEU Batman. Ou você acha que seu primo mais velho não achou que o Christian Bale era uma péssima escolha? (tá, tudo bem, talvez nem tanto porque qualquer pastel seria melhor que o George Clooney, que claramente tava zoando com o diretor - e por extensão, com você)

A única maneira de descobrir se o Affleck vai ser bom como Batman vai ser de assistir a porra do filme. O que acontece é que você não consegue sair dessa bolha que é sua existência, em que tudo gira em torno de você. A escolha do ator TE desagradou, portanto você vai mover mundos e fundos (= fazer uma petição, xaropar no Facebook) pra deixar perfeitamente claro pra todo mundo que você é um grande conhecedor do cinema e sabe melhor do que ninguém quem seria ideal pro papel. Tudo isso é uma ótima distração à percepção que você é praticamente irrelevante, ou seja, inexistente.

Eu aposto que você pensa que se fosse um quaquilionário você também seria um justiceiro. Talvez não enfrentando mafiosos e corruptos, mas de alguma forma. Mas isso é uma fantasia, se você tivesse nascido num berço de ouro você taria cheirando coca na bunda de uma stripper e batendo racha bêbado com sua Porsche. O que tornou o Bruce Wayne no Batman foi a morte dos pais dele. Ele (relativamente) rapidamente chegou à conclusão que toda a riqueza no mundo não preencheria o vazio que ele sentia, nada fazia sentido na vida dele, na verdade ele só virou o Batman porque ele não tinha nada a perder.

Se você tivesse a escolha de ser o Batman, mas tivesse que perder seus pais aos 8 anos, você o faria? Eu também não. Não é a vida do Batman que você quer, é a máscara dele.


V.

Tudo bem que é um alvo fácil, quem passa seu tempo em sites assim não tem muita esperança anyway, mas vale mostrar alguns pra exemplificar o que eu tou falando:

As pessoas nao tem mesmo mais com o que se preocupar ne?

Realmente, essa galera que fica postando nos sites da Globo é foda

Só lembrando, ele acabou com o Demolidor!!!!!!!!!!!!!!!!

Não, quem acabou com o Demolidor foi você que não consegue assistir um filme em que ninguém usa uma máscara (e você é o que você consome)

Samuel L. Jackson é o Nick Fury, CHRISTIAN BALE é o Batman, Matt Damon é o Jason Bourne. Certas coisas não se deve mudar.

Certamente não você né campeão

Acho que tem que ser o Christian Bale novamente,ele é perfeito…

Errado, ele pode ser o melhor ator da história mas ele ainda é um ser humano (uma característica clara do narcisismo é uma incapacidade de ver indivíduos, apenas imagens, tipos)

O resto dos comentários é do mesmo naipe, "eu acho", "eu acredito", "na minha opinião" PUTA MERDA EU JÁ SEI, seu nome tá logo acima caralho. É tudo eu, eu, eu, o que acontece aqui não é avaliação crítica, não é distanciamento objetivo, é afirmação de identidade. O problema é que essas pessoas tão afirmando a identidade delas num vácuo, elas não conhecem as outras pessoas que tão postando, elas tão fazendo isso unica- e exclusivamente pra se reafirmarem pra si mesmas

"Ah mas você tá aí falando desse assunto, quem é você pra criticar?" sim, tudo bem, a diferença é que você tá se posicionando como PhD em Batmanologia, enquanto minha pretensão é apenas ser um espelho. O que você vê?

domingo, 18 de agosto de 2013

Inteligente ou inconsciente?

I.

Pessoas inteligentes

"Pessoas mais inteligentes dormem tarde, afirma estudo." Eis a manchete de um artigo postado no blog Engenharia É. O que você acha que tá lendo é que a ciência mostra que seus hábitos noturnos foram justificados, mas o que você lê de verdade é somente um reforço a sua identidade, à identidade que você acha que escolheu pra você mesmo. Se você tá lendo esse blog, certamente você se acha um cara inteligente, e provavelmente é, pelo menos num sentido de capacidade de raciocínio lógico e espacial. Mas o que esse artigo realmente faz é dar uma desculpa pra você não mudar. Se você leu, é pra você.

Vamos olhar pra você, Pedro Henrique, aluno de engenharia. Você tá no 6o semestre, já bombou uma ou outra matéria, não sabe direito o que quer da vida ainda, mas ei, pelo menos vai ter um bom emprego quando se formar, certo? Você tá passeando pelo Facebook às 3 da manhã, e vê a manchete acima. É claro que você vai clicar no link, porque isso permite que você alivie a sensação de inutilidade que pervade sua vida. Esse artigo vai passar a mão na sua cabeça e te assegurar, dizendo que não é culpa sua que você passa seu tempo memorizando dados e jogando videogame e dormindo mal pra caralho, é porque você é um cara Inteligente, é você que vai salvar o mundo do Feliciano, naquele momento mágico em que você for O cara.

Uma rápida passada pelo artigo, e amanhã você comenta isso com teu broder enquanto vocês matam a aula pra comer um salgadinho: "Quem dorme mais tarde é mais inteligente!" Repare que você trocou a causalidade sem nem pensar no assunto. Isso é porque esse artigo, esse estudo, são uma fraude. Começa com o estudo: cadê ele? Não tem nenhum link pra tal estudo, só pro jornal de onde eles tiraram essa informação. Isso já devia acionar seus alarmes, mas eu acho que duas décadas de Coca e Cheetos devem ter deixado ele meio defeituoso. Mas tem pior.

II.

"Outros estudos encontraram uma ligação entre o período vespertino com tirar notas boas na escola"

"Outros estudos", ou seja, impossível saber se foi algo rigoroso ou se eles só tiraram isso tudo da bunda e assinaram os nomes de cientistas em baixo. Mas tem outro problema. Você pensou "eu tirei boas notas, eu durmo tarde, há, sou eu!", parabéns, pode mandar seu contracheque direto pro BB e pro PT, você perdeu, cara. Quem sai ganhando aqui é o Sistema, porque você continua vivendo sua vida medíocre, achando que tá tudo bem porque você é "inteligente". Você já parou pra pensar o que são notas e o que elas medem? Vou te dar uma dica: não é inteligência.

Achar que é "inteligente" pode funcionar pro PH enquanto ele tá na facu, mas não vai adiantar muito quando ele tiver se divorciando e odiando o emprego dele fazendo banco de dado pro TCU. Esse tipo de artigo não é ciência, é masturbação, é punheta mental. Pro blog ele serve pra gerar conteúdo, porque os editores sabem que você vai acabar postando esse link no muro da sua mãe, e olha só que bacana, saiu um livro novo do Dan Brown, como que eu não sabia disso?

O PH nunca parou pra pensar que nenhuma criança na história disse "quando eu crescer, quero ser programador de banco de dados!". Quando ele era pequeno ele tinha sonhos de ser jogador de futebol, de ser caubói, de ser ninja. Hoje em dia o sonho dele é sentir tesão pela mulher que tá cada dia mais gorda e mais perua, mas nem isso rola. Ele esqueceu dos sonhos dele pra viver uma fantasia que ele absorveu dos pais/família/sociedade/cultura. Pra isso que serve esse tipo de artigo: depois de mais uma noite em que a mulher dele tem dor de cabeça, ele se lembra que pelo menos ele é inteligente, ele dorme tarde. Ah, mas hoje em dia ele não dorme mais tarde. Será que ele emburreceu?

III.

Toda psiquê é possuída de mecanismos de defesa, sem os quais seria impossível sobreviver os massacres diários da vida. Precisamos ter um sentido de identidade consolidada, senão não dá pra aguentar seu chefe cretino: "eu posso ser um reles empregado, mas pelo menos não sou um babaca que nem ele". O problema é que o pai do PH foi ausente ou fraco, ele prestava mais atenção ao futebol e à secretária dele do que aos próprios filhos. Resultado: o PH nunca aprendeu a superar os mecanismos de defesa, ele ficou subserviente a eles, a mãe dele disse que ele podia ser qualquer coisa e o pai dele não disse porra nenhuma e agora ele acha que precisa ser tudo, sem ser nada.

O PH aprendeu que ele pode escolher o que ele quiser, o que parece lindo, mas o problema é que ninguém ensinou pra ele COMO escolher. Depois ele se encontra fazendo inscrição no vestibular, sem nunca se perguntar pra que diabos serve essa merda de vestibular, não, os pais dele sempre reforçaram que o importante era ele passar no vestibular, senão não ganhava carro, e como ele não aprendeu a escolher ele deixa os outros escolherem por ele. E ele escolhe uma engenharia qualquer, meio arbitrariamente, porque aí a mãe dela ia poder se gabar pra vizinha: meu filho passou em engenharia! E daí?

Anos depois, o PH tá miserável na engenharia, ele só estuda pra não receber bronca dos pais por bombar mais uma matéria. Estuda porra nenhuma, memoriza. Ninguém ensinou ele a estudar também. Só que largar o curso tá fora de cogitação, todo mundo ia ver que ele não é "inteligente" nem "responsável". A mãe ia ficar horrorizada. "Tudo bem, eu vou fazer um concurso, aí depois que eu passar eu posso descobrir quem eu sou." Resultado: mais alguns meses ou anos de memorização inerte, um concurso nada meritocrático, dois semestres de francês, uma viagem pra Europa, algumas aulas de violão, e a percepção que ele tá mais perto dos 40 do que longe.

O que nos leva a um ponto crucial no artigo:

IV.

"A pesquisa também afirma que  as pessoas que ficam acordadas até tarde são menos confiáveis e mais propensas a sofrer de depressão e vícios diversos."

Ele nunca vai admitir isso pra ninguém, mas o Pedrinho sabe que no fundo ele não é confiável e que ele é deprimido e viciado em pornô/bebida/maconha/videogame. Ele racionaliza/projeta que quem não é confiável é o Malafaia, é o Sarney. Mas ele sabe que no fundo esse "estudo" tá falando dele, que não precisa se preocupar com a depressão e o vício porque ele é "inteligente", e ele pode falar isso pra mãe, que conta pra vizinha que sim, meu filho dorme absurdamente tarde, mas isso só mostra que ele é inteligente (NB. como ela sabe que não fez merda nenhuma na vida, ela usa o filho pra se redimir).

Ou seja, ele ainda faz tudo pra manter a identidade que passaram pra ele, de que ele é inteligente porque ele tirou nota 10 na prova de ciência da 5a série. Já que ele nunca se preocupou em procurar uma identidade própria, já que ele recebeu tanto reforço positivo pra ser quem mamãe queria que ele fosse (tudo que ela não foi), ele não consegue se imaginar sendo outra coisa. O artigo e punhetas parecidas são o que faz com que o Pedro Henrique não tome duas caixas de Dorflex, ao mesmo tempo em que impedem que ele reconheça que ele não é tão "inteligente" assim, mas que não tem absolutamente nada de errado com isso.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Representante, sim, mas de quem?

I.

"Feliciano não me representa!"

"Um governo do povo e para o povo". Taí um dos maiores moinhos do quixotesco povo brasileiro. "Mas, afinal, nós vivemos numa democracia, e elegemos nossos representantes". O problema aqui é que você até questiona o termo 'elegir' de vez em quando (sobretudo quando você quer impressionar as minas que tão no protesto), mas você nunca questiona o termo 'representante'. Será que o deputado Fulano, o presidente Beltrano realmente representam seus interesses? Todo mundo adora dizer que o Feliciano não os representa, mas se não é ele, quem então? É a Dilma?

Pense bem: coloque-se no lugar de um político qualquer. O que é mais importante? Garantir a permanência no cargo e o aumento da influência, ou fazer sacrifícios em prol de alguma minoria obscura? "Ah, mas eu tivesse no Congresso eu ia lutar pelos direitos de todos!" Ah, é? Então por que você não tá lá agora? A política, por natureza, atrai tipos que se interessam por poder, e não em ajudar os outros. Quem quer ajudar os outros faz caridade, doa seu tempo, seus recursos, porque o que interessa não é seu próprio benefício mas o benefício de todos. Quem é bonzinho assim não consegue sobreviver (às vezes literalmente) o jogo político porque seu senso de auto-preservação não é tão afiado.

E não se engane, a política é isso mesmo: um jogo. É uma briga por poder, por posicionamento, por fama. O progresso humanitário real não hierarquisa. A diferença entre nossa atual era pós-moderna e a Idade Média é que ninguém sabe direito quem é o rei hoje em dia, e em vez de um exército de soldados, ele usa um exército de lobistas. E tudo isso é um jogo. Quem é o mais fodão do quarteirão?


II.

Eu já mencionei antes que o cúmulo na política brasileira é o voto secreto. Isso confirma de fato que você não tem a menor ideia quem um devido político representa. Quer dizer, dá pra ter uma ideia sim, é só ver quem patrocinou a campanha dele, direta- ou indiretamente. Às vezes é difícil saber mesmo. Mas o que interessa é que definitivamente o representado não é você. A representação é uma ilusão. E já que você ainda pode comprar seu iPad e seu carro, ainda que a preços exorbitantes, você não tá nem aí pro que os políticos fazem, mesmo quando eles esfregam na sua cara que tão gastando seu dinheiro com cocaína e segurança particular.

"Mas então basta ver quem doou mais?" Hah, se fosse tão simples assim. Peguemos o caso das eleições municipais de Curitiba em 2012. O então-prefeito Luciano Ducci recebeu, de longe, mais doações do que todos os outros candidatos juntos (se você não sentiu um cheio podre aí pra começar, bom, talvez o AirWick tá dessensibilizando seu olfato). Mas infelizmente pra ele, isso não foi o suficiente. Saiu na Veja, por estranha coindiência, alguns meses antes da eleição, uma matéria em que ele é acusado de alguma corrupção ou outra. Se ele realmente roubou ninguém sabe (o MPF arquivou o caso, claro), mas o dano estava feito: o Ducci não conseguiu ir nem pro segundo turno. Ou seja, mesmo se, apesar dos milhões em doações, o Ducci fosse um "candidato do povo" (e quem melhor do que um médico pra saber como é ser um cidadão comum), ele não teria tido chance perante a máquina midiática - quem decidiu a eleição não foi você, foi a Veja.

Mas talvez mais interessantes sejam as eleições pra vereador. O candidato Zezinho do Sabará recebeu 6.600 votos e não foi eleito, enquanto o candidato Geovane Fernandes foi eleito com 2.861. Isso é a sua democracia representativa. Todo mundo aceita essa putaria porque, tanto na escolinha quanto em casa, que o que é válido é o que a autoridade diz quando fala sobre 'democracia'. O que não vale é pensar por si próprio o que a democracia realmente significa. Por que que você acha que as provas são quase sempre V ou F ou múltipla escolha? Porque aí não há necessidade de pensamento crítico ou filosofia, é só memorizar o que a autoridade determinou como sendo a escolha certa. E não adianta querer mudar as regras do jogo: não é você que escolhe elas. Você ainda pode, no entanto, parar de jogar.


III.

É aí que entra o Feliciano. Ele é só mais um numa lista infindável de distrações. Se você prestar bem atenção, sempre se discutem questões tangencias à democracia, e nunca a democracia per se. Todo mundo adora falar dos escândalos de corrupção e dizer pros amigos como fica revoltado, todo mundo compartilha posts anti-Feliciano e anti-Calheiros, e acaba que ninguém se pergunta por que que sempre aparece um escândalo de corrupção, por que que sempre tem um Feliciano ou um Calheiros.

Mais uma vez, tudo volta à educação. O que que a gente aprende na escola? Que teve escravidão, que teve monarquia, que teve ditadura. Nos apresentam uma sucessão de vilões que podemos odiar, e que nos permitem pensar "nossa, eu tenho problemas, mas antes era bem pior!" Nos dizem que hoje o Brasil é um país democrático, um país onde controlamos nosso destino. Dê uma olhada nesse artigo do site Brasil Escola:

"Nos tempos coloniais, observamos que o exercício dos direitos políticos se restringia a uma limitada parcela de proprietários de terra, conhecidos como “homens bons”. No interior das câmaras municipais, eles decidiam quem ocuparia os cargos políticos mais importantes e quais leis teriam validade."

"Em nossa independência, vemos que uma elite interessada em manter suas vantagens econômicas capitaneava o fim do pacto colonial."

"Na chamada Primeira República, vemos que a exigência ainda se somou a um sistema eleitoral corrupto e contaminado por mecanismos que determinavam a alternância das oligarquias no poder."

Como se tudo isso não acontecesse hoje em dia! O mundo sempre foi governado por "elites" interessadas em manter suas "vantagens econômicas", pouco importa se elas estão vestidas de monarquia ou democracia (ou até de comunismo). Se você ainda acha que o interesse dos políticos é de avançar o país, você precisa parar de comer lasanha congelada e miojo, esses produtos químicos tão estragando teu cerébro. Se você sai ganhando como consequência de alguma decisão política, pode ter certeza ou que isso é um efeito colateral ou que o político precisa do seu voto.


IV.


Mas nada disso importa. Afinal, você tem sua casa ("faltam só 257 prestações!"), seu carro semi-novo, seu laptop, seu iPod. Você pode usar sua camisa da Aéropostale, pode xingar a Dilma na internet. Você vive uma ilusão de que atingiu o objetivo da vida. Agora, é só relaxar e esperar a aposentadoria. Enquanto isso, o Marcos Valério tá passando a mão na sua grana, mas de boa, você assinou a petição no AVAAZ. Enquanto isso, o governo continua usando dinheiro público para fazer propaganda de si mesmo. E você continua trabalhando que nem um condenado (ou não trabalhando nem um pouco, depende se você foi pro setor privado ou pro público) pra conseguir pagar as parcelas da TV de 50 polegadas.

Você pode até achar que tá fazendo uma diferença com suas petições e compartilhamentos no Facebook, mas o sistema não tem o menor problema com isso, porque você ainda é uma bateria alimentando o sistema. Você ainda vota certinho (afinal, é obrigatório) e ainda paga seus impostos bonitinho, ainda consome de maneira totalmente irracional, e é só isso que interessa pra eles.

Quer dizer, isso tudo funciona muito bem, até você for se aproximando da casa dos 50. Depois do divórcio, dos filhos que te ignoram, das dívidas, você vai perceber que seu Citroën e sua impressora wireless não significam absolutamente nada, não vão te levar pro céu ou pra próxima vida, e certamente não vão te adiantar depois que seu fígado desistir.

Sabe por que que a escravidão foi abolida? Porque o melhor escravo é o escravo que não sabe que é escravo.

domingo, 17 de março de 2013

A culpa é de quem eu elegi!

I.

Renan Calheiros resolveu vender sua casa, pois o IPTU está muito alto


Dois dos grandes tópicos do momento (tá, da semana passada...retrasada) são os cargos atingidos pelo Padre Feliciano e pelo Renan Calheiros. Meu Deus, o Facebook pegou fogo. "Que absurdo!", "Temos que fazer uma petição agora!", "Protesto no dia 20!". Enquanto isso, alguma maracutaia muito absurda tá rolando debaixo dos nossos narizes e a gente só consegue prestar atenção no Feliciano falando mal dos gays ou dos negros.

Não se preocupe, não vou vir com aquela velha lição de moral de que você provavelmente nem se lembra em quem votou pra deputado (o que não deixa de ser verdade), portanto devia participar melhor do processo democrático pra ter direito de reclamar, blablabla. Eu não tou nem aí pra quem você votou porque não faz a menor diferença. Mesmo se você se lembra em quem votou, você sabe me dizer quem foi responsável pela melhoria na rodovia? Pra qual vereador você tem que agradecer pela renovação da escola? Se o cara em que você votou é, basicamente, bom ou ruim no trabalho dele? O que faz, exatamente, um deputado? Ah, ele faz lei. Ah...mas pra quem e por quê?

Prova de que não é importante é que no Brasil, pra ser eleito basta ser famoso, não importa o motivo. Vide o Tiririca, o deputado mais votado nas últimas eleições. Mas tudo bem que ele com certeza teve ajuda dos hipsters, que votaram nele porque seria "irônico". O próprio Tiririca mostra que, se você tem grana, não precisa nem saber ler e escrever direito - o que importa é que seu nome seja reconhecível. Isso sem contar que as pessoas nem votaram no indivíduo: votaram num papel, numa imagem. Ninguém votou pro Francisco Silva, todos votaram pro Tiririca - um personagem.


II.

Um belo dia, você tá lá postando mais uma foto sua no espelho, quando aparece um link pruma petição contra o Renan Calheiros. "Ah, boto fé, vou assinar. Foda-se esse Renan Calhorda." E você se sente uma bela duma cidadã. Comenta com todos seus amigos que assinou a petição. Até quem não tá nem aí vai ficar sabendo. Enfim, resultado final da petição: Renan Calheiros continua presidente do Senado. E mesmo que ele caísse, ia entrar um cara igual, só que talvez com uma aparência um pouco mais honesta.

Eu aposto R$50 que você nem sabe quantas assinaturas precisam pra que a petição valha alguma coisa, ou se é que é possível que faça uma diferença. O que interessa é que seu nome tá lá, e portanto você é um Cidadão. "Eles deviam se sentir assim na Grécia antiga!" Meu amigo, se você acha que consegue ter um mínimo de noção de como se sentia um grego, esquece, você não tem noção nenhuma.

É a mesma coisa com o protesto. Eu admito que já fui a um desses, mas também admito que me senti ridículo marchando numa faixa da pista, 500 pessoas no máximo, carros passando ao lado, a polícia ditando tudo. Mas que seja um protesto de dezenas de milhares de pessoas. Nada disso vai fazer diferença nenhuma porque a única coisa que importa é a eleição, e os políticos se preocupam muito mais com a massa popular religiosa do que com um monte de aspirante a revolucionário (eu convido quem tiver usando uma camisa do Che a viver da França na época do Terror que sucedeu a ilustre Revolução). O que um político quer é que qualquer um de nós quer: um emprego fixo. E o que ele precisa pra manter o emprego dele é ser eleito. E você que vota nele.


III.

Perceba que a faixa não quer dizer nada

Mas a grande sacada, o grande truque das eleições é que elas satisfazem tanto eleitores quanto candidatos porque nada muda no final das contas. O deputado sabe que vai ser re-eleito sem muito esforço porque ele pode essencialmente comprar os votos da maioria leiga, funcionalmente analfabeta, e portanto garantir seu lugar na mesa dos adultos. Do outro lado, o eleitor ganha porque ele fica totalmente livre das consequências de suas ações: o que der errado é culpa do governo/da oposição. Todo mundo esquece que ser cidadão significa ser responsável pelas escolhas de seus representantes.

E é aí que entra o outro fator: o governo é algo distante. É algo a qual não nos sentimos intimamente ligados. Desse jeito fica muito fácil ficar culpando os políticos, porque eles são praticamente lorde feudais (pense bem, eles colhem os impostos e gastam em seu próprio benefício) então a gente não tem culpa se eles só fazem merda. Enquanto você não se sentir responsável pelo que você vê na sua frente, enquanto você não se admitir que é parte da corrupção que ocorre de maneira absurdamente aberta, a situação vai permanecer do jeito que quem tá no topo quer: a mesma.

O clássico exemplo é o fulano que reclama a torto e à direita do governo, e dos partidos, e do presidente, mas que não sente nenhum remorso por furar sinal, por enganar a Receita, por colar na prova da faculdade. Os políticos são convenientes porque eles te ajudam a projetar seu próprio lado corrupto neles, se sentindo desse jeito livres de corrupção. O que vale é o que a gente faz, não o que a gente fala.


IV.


Uma solução é não ser responsável pela corrupção. Eu não voto, portanto não me sinto culpado quando descubro que um deputado roubou não sei quantos milhões. Por outro lado, eu também aceito as consequências disso, ou seja, que quem se eleger faz o que quiser. É o que acontece de qualquer jeito, então whatever.

"Ah, mas e se eu não votar, os que vão contra meus princípios vão ser eleitos!" Só que o único princípio que os políticos servem é a auto-preservação, já que a política atrai quem quer poder, não quem quer fazer mudanças reais no mundo. Sempre vai haver deputado honesto - mas até que ponto ele é honesto só na imagem? O voto é secreto! Você nem sabe pra quem seu deputado tá votando, como você sabe quais são os princípios dele?

O único jeito que você tem de mudar o que quer que seja é de ser responsável pelas próprias escolhas. No entanto, é decididamente mais fácil quando a mamãe-governo tá ali pra nos proteger se algo der errado. O governo tá ali pra te proteger de você mesmo - é só ver a proibição contra as drogas. Não tomar heroína deveria ser uma escolha moral e pessoal, não a escolha do governo. No Brasil, não nos responabilizamos por nosso uso de drogas. Se você nunca tomou heroína porque é ilegal, então tá na hora de cortar o cordão umbilical. Você não devia tomar heroína porque ela te fode, mas se você quiser se fuder, quem sou eu pra julgar? O corpo é seu.

E se você ainda tem fé no poder do seu voto, eu só te lembro que o Fernando Collor é senador hoje em dia. Um povo tem o governo que merece.

sábado, 9 de março de 2013

Se um não quer, dois não transam

I.

Uma cruzada feminista não deixa de ser guerra

Você não precisa ter um doutorado em psicologia social pra saber que o Brasil é um país tremendamente machista. Certamente as feministas não nos deixam esquecer. E o pior é que grande parte do machismo é velada, inconsciente. É que nem o racismo: o problema geralmente não é que a pessoa é racista intencionalmente, mas que ela nem sabe que está sendo racista. Nesse sentido, o avanço do feminismo é positivo, feminazis à parte, porque traz à tona a questão do preconceito sexual e da objetificação. A questão é: nossa atitude em relação ao preconceito e à objetificação ajudam a eliminá-los, ou, em muitas instâncias, simplesmente o reforçam?

Façamos uma analogia com os Estados Unidos. O que acontece lá? Cada dia que passa as opiniões lá se tornam de mais em mais extremas. Hoje em dia não há mais espaço para a conciliação: ambos os lados se recusam a ceder o que quer que seja, e botam a culpa de tudo nos opositores. É claro que nesse caso a situação é mais ampla e mais grave, mas é um bom indicativo de onde as coisas podem acabar aqui: de um lado os progressistas, de outro lado os conservadores, ou seja, feministas e machistas. Vale perguntar: até que ponto o feminismo ativamente encoraja o machismo? Nos Estados Unidos, se você é democrata e discute com um republicano, você só acaba reforçando a imagem dele, e o extremismo reina. Veja aqui para entender melhor como funciona essa dinâmica.

"Mas que absurdo, o problema são os machistas cretinos!" Sim, eles são a origem do problema. Mas numa briga a culpa é tanto de quem começa quanto de quem continua. É claro que as pessoas devem continuar lutando por igualdade de direitos (e deveres, mas ninguém gosta de falar disso no Brasil), mas é preciso tomar muito cuidado com nosso discurso. É claro que há uma tremenda objetificação, mas o problema não é que apenas as mulheres são objetificadas, mas que todo mundo é. É claro que as mulheres são alvo de preconceito, mas quem realmente tenta entender por que isso acontece?


II.

Você vai pensar que eu tou sendo um puta hipócrita falando que o discurso feminista é muito opositorial, sendo que eu mesmo provoco e enfatizo as oposições? Mas a questão é justamente essa: eu tou fazendo de propósito. Eu provoco pra que você não tenha uma atitude passiva de "ahã, ahã" - é por isso que eu não tou aqui declamando os absurdos do machismo: bastante gente fala disso. Eu enfatizo as oposições pra que você perceba que há oposições e que eles afetam nossa visão de mundo em todos os aspectos. A ideia é que você olhe para si mesmo de uma perspectiva diferente - as conclusões às quais você chegar são problema seu.

Da mesma forma que no exemplo citado acima, dos evangélicos versus os ateus, se você tá participando da batalha, você já perdeu. Se o cara vem e fala que a mulher foi estuprada porque as roupas dela (ou a falta de roupa, no caso) provocaram o estuprador e a culpa não é dele, olhe pra ele com desdém porque esse tipo de opinião não merece seu tempo. Se você começa a debater o cara, ele só vai ficar defensivo e vai insisitir ainda mais na (i)lógica dele. Esse tipo de argumento não é mais sobre lógica ou filosofia ou o que seja, é pessoal, é sobre eu x você. Aliás, não exatamente. É sobre a imagem de 'eu' x a imagem de 'você'.

Esse cara que culpa a mulher no caso do estupro não chegou a essa conclusão porque ele fez uma decisão racional. Desde o século XVII, o racionalismo tem bombado, e realmente, naquela época precisava mesmo, mas o que aconteceu foi que acabamos nos esquecendo que a irracionalidade é 50% da realidade. Esse cara diz que é culpa da mulher porque ele tá se identificado como "macho de verdade". O machismo dele não é uma escolha consciente per se, mas um sintoma da escolha de imagem dele. Ele tá preocupado demais com o que as pessoas acham dele pra refletir sua própria moralidade, e se ele tenta estabelecer essa identidade de macho, é porque de alguma maneira ele é recompensado. O problema não é que ele é machista, o problema é que ele é narcisista.


III.

Mas falemos de objetificação. Vamos deixar bem claro que o papel da mídia é execrável, pra você não vir gritando sobre os padrões inatingíveis. Mas quem que tá consumindo a mídia mesmo? A mídia é má, pode até ser, mas ela só faz isso porque dá IBOPE. A questão aqui não é a mídia, ainda tem muita propaganda por aí pra comentar isso.

Pra entender essa questão melhor, precisamos considerar a diferença entre sexo e masturbação. O que os dois têm em comum é que em ambos os casos há uma expressão da sexualidade, da libido. A diferença é que no sexo você transa com um outro ser humanos, enquanto que na masturbação você transa com um objeto. Mas isso é óbvio, certo? O que não é óbvio é que masturbação não é só o que você faz no chuveiro sozinho. O Carnaval, por exemplo, é um festival de masturbação.

"Uai como é que é masturbação se eu tou transando com a outra pessoa?" Não, você não tá transando com outra pessoa, você tá transando com um objeto. Você só tá preocupado em gozar, em botar mais nome na sua lista de conquista, em dizer que pegou geral. O que rola não é uma troca de energia vital com outra pessoa. Ou vai querer me convencer que você liga pra outra pessoa? Que você quer saber o que ela gosta de ler, o que ela do marxismo, de onde vem a família dela?

Veja bem, isso não quer dizer que há algum problema com a masturbação. Masturbação é divertido e todo mundo faz de vez enquando, sozinho ou não. Quem não goza fica pirado (vide os escândalos sexuais nas igrejas onde os padres são celibatos), não há dúvida. Mas que fique bem claro: masturbação é sexo com objeto. Se você vai no churrasco da universidade e depois reclama que os caras lá são todos babacas machistas, o problema é que você foi lá em primeiro lugar. Você sabe que as pessoas lá vão te encarar como objeto, esse é praticamente o objetivo declarado do evento! "Chupol", chama o churrasco do curso de Ciência Política. Se você sai num encontro com o cara e ele passa o tempo todo olhando pros seus peitos e não presta atenção no que você fala, sim, ele é um cretino. Agora, se você vai de mini-saia e decotão pruma bacanália qualquer, o cara que fica olhando pros seus peitos não é cretino, ele é honesto. É uma questão de intencionalidade.

Ou seja, há objetificação sim, mas tenho que repetir: se um não quer, dois não brigam. Se você fala em "pegar vários" ou só quer um monte de one-night stand, massa demais, só não vem reclamar que não consegue achar homem/mulher que preste. "Ah mas o cara que pega vários é garanhão, e a mulher que pega vários é fácil, isso que é o machismo!" Sim, então faça o que é melhor pra todo mundo: vá embora. Não converse com essa pessoa. Se você não dá valor ao comentário que você é 'fácil', então esse pedaço de discurso desaparece. E você ainda promove sua própria individualidade: você não é mais 'fácil' ou 'difícil', você é a/o [insira seu nome].


IV.

Acima: 'homem de verdade' de verdade

Mas o grande risco do feminismo é que as mulheres queiram se tornar homens. O problema do machismo não é que ele subvalora a mulher, mas que ele subvalora o feminino, e isso são coisas distintas. Afinal, a gente fala de 'feminismo', não de 'mulherismo'. As feministas novatas apontam para o pequeno número de mulheres presidentes, CEOs, diretoras, etc, sem perceber que aí elas tão deixando sua definição de sucesso ser aquela do masculino. O feminino, arquetipicamente, não busca atingir uma posição de liderança externa, isso não importa, é coisa do masculino. "Ah mas e se a mulher quiser virar presidente?" Ótimo, que ela o tente (Dilmão conseguiu - o apelido não é à toa) - mas isso vale pra mulher que características masculinas.

A questão toda é uma questão de valoração, não uma questão de valorização. A valorização implica dar um valor, ou seja, tornar aquilo um objeto. 'Valoração' significa 'dar valor a', e é isso que faz tanta falta no caso do feminino. Dizer a uma mulher para ele se valorizar é muito perigoso - e sim, eu entendo que não é nesse sentido que a palavra é usada, mutabilidade da língua, blablabla, mas a escolha de palavras não deixa de ser importante, até pela atuação no nível inconsciente.

Como podemos ver mais uma vez no caso do racismo, não demora muito pra projeção seguir a desvaloração: as características associadas aos negros (seja quais fossem) eram negadas pelos próprios brancos, e eles as projetavam (projetam...) essas características de volta nos negros, sentindo-se desse modo desassociados a elas. Mas o Jung não foi o único a perceber que isso leva a uma série de problemas, que geralmente permanecem no plano do inconsciente.

É isso que acontece no mundo da guerra dos sexos. O feminino já é desconsiderado há muito, e o ápice veio no Iluminismo - por mais que se falasse de igualdade e liberdade, o irracional ficou de lado. Ele teve um breve ressurgimento no Romantismo (não por coincidência, quando o movimento feminista começou), mas hoje em dia ainda vive em maior parte no subterrâneo (é só ver como é popular hoje em dia ser geek, babar ovo da "ciência" - que por sinal não é tão racional quanto pensam - etc...).

O resultado não é que os homens subvaloram as mulheres, mas seus próprios lados femininos. Isso, em consequência, faz com que ele gaste ainda mais energia projetando uma imagem de ser masculino, e só consegue ver o feminino na mulher. Por exemplo: o masculino se preocupa em espalhar a semente, enquanto o feminino se preocupa em manter um só masculino. Ou seja, é masculino sair metralhando por aí, e é feminino se dedicar a um relacionamento só. No entanto, o cara procurar um relacionamento saudável torna-o por definição mais feminino, e isso apavora os narcisistas machistas. Além de tudo, ainda sentem raiva das mulheres pistoleiras, porque eles as vêem como que roubando seu papel. Se os narcisitas machistas (vejam que eu evito que 'homem é assim' e 'mulher é assado' - aí, perde-se o sujeito) conseguissem aceitar seus próprios lados femininos ("homem não chora!" - até que o papai corta a grana do fim de semana), não sentiriam necessidade de criticar mulheres mais masculinas, não as sentiriam como ameaça.

Quem sai perdendo mesmo é a mulher feminina, porque os machistas vão todos dar em cima dela, e as feministas vão criticá-la por não apoiar o feminismo ativamente (ou seja, de forma masculina). Ou seja: se você quer ser feminista, dê valor ao próprio feminino em vez de realçar as suas características masculinas. A discriminação contra as mulheres é uma consequência, não uma causa.


V.

Voltamos então ao título. Sem dúvida você pensou "como assim, no estupro a mulher não quer mas o cara transa com ela!" Aí é que tá: isso não é transa, é masturbação (o objeto sendo não uma mulher, mas um ser humano inferior de alguma - é uma fantasia de poder, olha quanto estupro tem na prisão). A transa, ou seja, a sexualidade, requer dois sujeitos.

Sem dúvida o feminismo é importante, mas no sentido de valorar o feminino. Ou seja, essa questão será resolvida não quando mais mulheres forem presidentes ou cientistas, mas quando o narcisismo e o anti-socialismo (desrespeito às regras sociais - leia-se, estupro, nesse caso) não forem mais as forças dominantes, quando o extremismo de qualquer tipo for eliminado - ou pelo menos restrito às margens, não sei se é possível acabar com o extremismo. O mundo ideal não é um mundo feminista - é um mundo em que o feminismo não é necessário.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Feliz Pá$coa

I.

Mais um cai na armadilha

O jornal anuncia: "Ovos mais caros e menores deverão prevalecer na Páscoa deste ano". Você acredita que isso é um exemplo do jornal zelando pelo bem do consumidor, esquecendo-se completamente de quem paga as contas dos jornalistas não é você, são as empresas que vendem anúncios no jornal. A ilusão é que só esse ano que os ovos vão ficar mais caros e menores, quando na verdade isso acontece todo ano.

Ainda pretende comprar ovos? Uma barra de Hersheys (130g) nas Lojas Americanas tá R$4; um ovo do Angry Birds (170g) custa R$28. Parabéns, você acabou de comprar um chaveiro por vinte e poucos contos. Mas o brinde mesmo é a diabetes.
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