quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Peludo? Eca. Incompetente na cozinha? Rawr!

I.

Rá, fiz você olhar, agora lê!
Oh céus, mais uma controvérsia: dessa vez tão processando a Gillette por discriminação contra homens peludos, devido a uma campanha publicitária que caracterizava homens peludos como nojentos ou sei lá que. Hmm, tá, e por que ninguém processa as propagandas de produto de limpeza por caracterizar os homens como incompetentes e incapazes? O que acontece é que esse caso tem credibilidade com o público porque eles criaram a controvérsia - no caso dos produtos de limpeza, não há controvérsia implícita, ou seja, ninguém questiona nada.

E o pior é que retratar os homens como idiotas é complicado porque os homens realmente acabam saindo prejudicados na parada - essa história de peito raspado, no final das contas, não afeta ninguém. Seria fácil fazer a mesma campanha com a mensagem inversa: é só deixar implícito que homem de peito raspado é boiola e criar um hashtag tipo #homemdeverdade. A questão é que pra deixar o peito peludo não precisa comprar nada.


II.

Se você acha que o mecanismo da propaganda é que o cara vai sair correndo pra farmácia querendo raspar o peito e vai comprar Gillette, então com certeza a propaganda vai funcionar em você, porque você acha que não vai ser afetado pela propaganda. Veja bem, essa campanha é muito mais pras mulheres que pros homens. Muito provavelmente, se o cara já tem o peito peludo, ele não vai querer raspar arbitrariamente. Ele pode até ver a propaganda, mas ele sabe que não é ter o peito raspado ou não que vai mudar o quanto ele pega no Carnaval. Se ele achasse que fizesse diferença, já tinha raspado. Agora, se tiver uma outra motivação...

Imagine a situação: a Fulaninha vê a propaganda. Como ela sabe que é pra homem, ela acredita que a propaganda não é pra ela (dica: se você tá vendo, é pra você), então passa tudo batido. No entanto, o que ficou registrado com ela, ou seja, o que é implícito na propaganda, é que peito raspado é o novo masculino. Tempos depois, ela vai começar a fazer pressão no namorado, sobretudo depois que as amigas delas zombarem o peito peludo do Fulaninho. Resultado: claro que ele acaba cedendo e compra...uma G/gilllette (se você é marketeiro e consegue fazer que o nome da sua marca vire substantivo comum, parabéns, você zerou o jogo).

Em outras palavras, o marketing funciona tão bem porque as pessoas acham ou que o marketing não é visado pra elas ou que elas são imunes ao marketing. Infelizmente, nenhum indivíduo pode ser. O marketing das grandes empresas não funciona a nível individual, mas a nível social. O marketing de verdade da campanha da Gillette é fazer com que as pessoas acreditem que masculino é raspar o peito, é "pegar todas", é encher o cu de cana (a AmBev agradece). Eu espero que fique bem claro que, enquanto você só questionar o que a autoridade te disser pra questionar, você vai continuar à mercê dos departamentos de marketing, provavelmente americanos pra piorar. O verdadeiro escravo é aquele que não sabe que é escravo.

E se você ainda não acredita, olha o que disse a Gillette: "a campanha “baseia-se em um vídeo engraçado e irreverente focando na preferência das mulheres por homens lisinhos, sempre respeitando nossos consumidores”.


III.

Você pega aqui, eu pego ali...

Repare também que o mesmo mecanismo que se aplicava pro caso do Silas Malafaia também se aplica aqui. A propaganda reforça a identidade tanto de quem raspa o peito quanto de quem não raspa. O cara que raspa vai se achar o gostosão da balada, enquanto o cara peludo diz que não raspa porque não é gay. Acontece que os públicos-alvo são diferente. O cara que raspa o peito quer as piriguetes do carnaval, enquanto o peludo quer as minas indie/hipster/cult bacaninha. No final das contas, os dois saem ganhando com a propaganda, por isso ninguém pára pra pensar.

"Críticas à campanha foram publicadas na própria página da Gillette no Facebook. “A maior palhaçada que eu já vi na minha vida! Em pleno século XXI, me aparece uma marca tentando impor um padrão estético”, escreveu o internauta Italo Bacci. “Ô Gillette, eu gosto de homem PE-LU-DO!”, protestou a consumidora Cristiane Souza."

Ítalo: uma marca É uma imposição de um padrão estético. A única coisa que interessa pras empresas é impor um padrão estético. Marketing funciona a base de persuação, não de convicção. Cristiane: ponto pro barbudo que te pegou depois dessa.

Mas teve também que curtiu. "Que legal! Já imaginaram as mulheres peludas? Direitos iguais? Por que o homem não pode depilar? Acho que todos já assistiram filmes das décadas de 70-80-90. Viram cenas de nudez? A mulher tinha mais pelos pubianos que o necessário. Hoje 99,9% usam a depilação em todo o corpo", escreveu J Icassati Icassati.

Mais que o necessário? Cara, não existe uma "quantidade necessária" de pêlos pubianos. Alguém já explicou que essa história das mulheres rasparem os pêlos pubianos começou com um grupo de irmãs brasileiras? Chama "Brazilian wax". Taí uma boa pra aula de marketing. Ah, e outra coisa: devo admitir que não foi científica, mas minha pesquisa pessoal revelou que esse número de 99,9% não bate nem um pouco. Pelo menos agora ele pode usar os pêlos da mina como desculpa pra quando ele brochar: "parada nojenta, sifudê".


IV.

Outro ponto que vale ressaltar. Esse aqui é de um comentário no artigo: "Isso não existe preconceito contra pessoas peludas , pelos é uma coisa que dá pra se tirar , isso é só desculpa pra ganha um dinheirinho em cima do processo". Eu aposto meu ovo esquerdo que você nunca mais vai ouvir falar desse processo. Sabe por quê? Há duas possibilidades em relação a quem iniciou o processo: ou gente doida mesmo (você acha que algum juiz o que seja acreditaria que isso é discriminação mesmo? Júri? Cara, isso não é Law & Order), ou funcionários da própria Gillette.

"Ué, por que que a Gillette se processaria?" Pra que você estivesse aqui conversando comigo sobre o processo, depois de ler o artigo no G1. Isso é que é o marketing de verdade. O G1 não fica postando essas coisas de graça. Por que falar dessa propaganda e não da outra? Porque teve processo. Por que teve proceso? A-ha...

Ah, e isso tudo sem contar as feministas que vão ficar falando no Facebook que mulher já tem que se submeter a isso por conta de machismo, mais uma vez divulgando a marca de graça. Claro que a nossa sociedade é machista (não por muito tempo), mas vale lembrar que escravidão requer consentimento.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Na terra dos cegos

I.

"Me bate que eu gosto!"

Recentemente tenho visto muito no Facebook as pessoas postando sobre o Silas Malafaia e sua coorte de lacaios e prestidigitadores. Quer dizer, já faz tempo isso, mas teve um pico esses tempos. O que você provavelmente não percebeu até agora é que é exatamente isso que eles querem que você faça. Não acho que conscientemente, mas a consciência não tem muito espaço no nosso mundo pós-moderno (pós-consciência?)

Tudo que vou descrever são mecanismos inconscientes. Com certeza há um punhado de cretinos que fazem isso deliberadamente, mas de que adianta criticar uma pessoa que não tem moralidade? O que acontece nessa charada é você e o Silas são dois dos participantes no Jogo da Identidade, em que um reforça a identidade do outro, e assim perpetuam o status quo - todo mundo ganha e o espírito humano perde.

O vídeo abaixo, que tem circulado bastante, é um exemplo disso. Esse blogueiro preocupado (com o quê?) explica como a genética desprova os comentários de nosso querido pastor no programa da Marília Gabriela (e repare bem, não é porque você não assistiu que essa entrevista não foi feita pra você), reforçado pelo eco interminável de comentários inanes. A ciência mais uma vez vindo à defesa! Mas se o argumento dos religiosos é de uma influência sobrenatural, você acha que é a ciência natural que vai convencer eles?


Veja como ele começa o vídeo: "Oi Silas Malafaia, tudo bem?" Perae, quê? Você acha que o Silas vai ver esse vídeo? No máximo ele vai usar isso no próximo sermão como prova da influência do demônio ou qualquer coisa do tipo. O homem (desculpa, "ser humano") que traz a espada da racionalidade prum duelo contra a pistola da irracionalidade não vai se dar muito bem.


II.

Uns comentários aleatórios no vídeo:

"A entrevista do silas malafaia é triste. Cheia de falácias e ad homines, que parecem convincentes porque ele grita, e grita e grita. Aí os crentes, por acharem que ele acabou com a mulher, vão ecoar toda a ignorância que esse bispo vomitou o programa inteiro, "glória, DEUS. O bispo é um intelectual, acabou com a gabi". Aí chegam aqui, e bem... vejam só, todo mundo dando de cara com argumentos consolidados, baseados em pesquisas empíricas. O que eles fazem? O que sempre fizeram: fecham os olhos."

Ou seja, o cara vem e insulta os milhões de "crentes" Brasil afora, e espera que eles venham ouvir sua grande sabedoria? Muito legal acusar o outro de usar falácia de argumentação (mais sobre isso em breve) e cometer uma falácia no mesmo argumento (por exemplo, a falácia do acidente ou a falácia do espantalho). Só que nada disso importante, porque o que rola na igreja não é convencimento, é persuasão.

"*Criar um filho que venha a ser homossexual ... -_-"

Questionar a lógica de um pastor é fácil, quero ver você questionar o uso da expressão abominável que é "criar um filho".

"Véi, vc já imaginou se do dia pra noite a gente tivesse q parar de sentir tesão em bunda e peitos? Fodeuuu, meu jovem."

Ou seja, a homossexualidade é tão horripilante pra você quanto pro Silas. Oy vey.


III.

Mas então, por que que essa gente toda diz isso, sendo que os evangélicos sequer vão ver o vídeo, e muito menos os comentários? É simples: o que você, compartilhador de Facebook e comentarista de YouTube, estão fazendo, é afirmando e reforçando suas próprias identidades. Os comentários não são pros evangélicos lerem, são pros ateus feministas veganos lerem. Você tá dizendo que a ciência desprova as crenças do bispo ("desprovar crença" é ótimo), mas o que todo mundo lê é que você é um intelectual culto que tem o refinamento de saber das nuâncias genéticas inerentes ao homossexualismo (opa, não, foi mal, você usaria "homosexualidade"). Você quer que as pessoas te vejam como Ser Racional, o que é claro só faz com que você negue mais ainda sua irracionalidade e a projete em alvos convenientes como o Silas.

Aqui um colunista do UOL nos explica que até a Igreja católica não condena mais os homossexuais, como se a Igreja fosse um grande parágono da moralidade e da ética. Ele nos diz que até a própria Bíblia contém alusões à homossexualidade, etc... Mas, mais uma vez, o único evangélico que vai ler esse artigo é o Silas, pra depois usar no sermão dele como prova de que os não-crentes caíram sobre a influência do demo. Resultado final do seu compartilhamento: você projeta uma identidade de racional e intelectual, o Silas projeta a identidade de defensor dos pobres e oprimidos, e tudo continua exatamente na mesma merda que tá há milênios.

Mais uma vez, independentemente de você ser crente ou ateu, gay ou homofóbico, homem ou mulher, o que acontece é que você participa do debate na forma que foi determinada por quem detém o poder. Lembrem que quem sai ganhando numa guerra não é um lado nem outro, é a indústria bélica. No caso, quem tá ganhando aqui é quem faz propaganda no YouTube ou no UOL. O que reina é a discórdia, e o espírito conciliatório desaparece.


IV.

Tá com raiva do Silas? Ponto pra ele!

"Mas então que que eu vou fazer, deixar esses homofóbicos ganharem?" Cara, por que que você ainda acredita que isso é uma luta? Quem disse que você tem que ganhar? Que se dane o que Silas Malafaia acredita! Ao comentar no barzinho que você viu (os primeiros 2 minutos e meio da) a entrevista, ao compartilhar o post da ATEA ou do humor inteligente ("pleonasmo..."), você tá não só criando uma identidade e esperando que os outros acreditem que você é essa pessoa, você também tá entregando munição pros evangélicos fazerem essencialmente a mesma coisa do lado deles. O olho-por-olho deixa todos cegos no final das contas.

Pare de mandar os pastores evangélicos à merda. Como você se sentiria se um evangélico já chegasse acusando você de ser um pecador imoral (erm, tá, talvez não foi o melhor exemplo, há uma boa chance que você adoraria isso)? Se você quer ajudar os homossexuais, pare de dar credibilidade aos homofóbicos! Se você quer convencer os "ignorantes" a "ouvirem a voz da razão", esquece, a razão é só 50% da história.

Mas se a razão não vai convencer ninguém, por que que os evangélicos continuam indo à igreja e dando o dízimo? Já te falei, não é convencimento, é persuasão. Você já se imaginou no lugar de um cara desses? "Ah, mas se eu fosse ele, eu..." errado, se você fosse ele você não seria você, tem que ser tudo sobre você? Se você vivesse na escassez e não tivesse nenhuma oportunidade pra subir na vida (e não me vem com esse papo que a classe C tem maior poder de compra - não deixa de ser classe C), quem você iria ouvir? O cara que diz que tudo isso é um acaso, e que se você nasceu pobre, azar o seu? Ou o cara que diz que tudo isso é uma prova, é coisa do diabo, que no fundo você é merecedor do céu (e pode dividir em dez vezes!)?

Olha, tudo bem, eu sei que seu propósito não é se mostrar como superior, mas quando você acusa alguém de ignorância, você se coloca necessariamente como superior. Sem contar que trazer a ciência pruma discussão religiosa é tão ruim quanto trazer a religião pruma discussão científica. Isso não quer dizer que religião e ciência são mutuamente exclusivos, mas que um argumento científico não tem lugar num debate religioso e vice-versa. No final das contas, você acaba se colocando como adversário, e só vai reforçar ainda mais a crença do indivíduo.

E a sua própria.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Empatia ou narcisimo?

I.

Ah, se tivesse Facebook na 2a Guerra...

Parte do nosso objetivo aqui é de analisar não os eventos per se, mas a maneira em que as pessoas reagem a esses eventos. Naturalmente, me senti compelido a comentar (os comentários sobre) a tragédia de Santa Maria. No entanto, Lucas Napoli o faz de maneira muito mais eloquente. Portanto, vou me limitar a, bem, comentar o comentário no comentário sobre o comentário. Se você quiser me acusar de andar em círculos, vá em frente, é um elogio.

Enfim, o que vale é que nosso amigo aí acerta na mosca, e quem sabe você dá mais credibilidade a ele porque ele é, de fato, um psicanalista. Se você não teve saco pra ler ("pô, cara, não tenho paciência pra ficar lendo desse tanto, eu sou uma pessoa trabalhadora" - eu também, mas bom), a ideia é essa: você compartilhou a imagem acima, ou algo similar, pelo mesmo motivo que você comprou a pulseira do Lance Armstrong, ou seja, porque o que vale é a imagem que você transmite. Sua mensagem de "luto" (não é à toa que a palavra é a mesma que a conjungação em primeira pessoa do verbo 'lutar') não vai consolar ninguém, do mesmo modo que sua pulseirinha não vai curar câncer nenhum (como se o câncer fosse uma doença só). Mas, em compensação, ela vai dar a dica: olha como eu me preocupo com os outros!


II.

O cara do blog é simpático demais pra jogar a real nesse/a comentador/a, mas eu não tenho tais restrições. Essencialmente, essa pessoa dá mais uma demonstração da questão que o cara tava falando. Vamos por partes:

Entendo o ponto de vista, mas não consigo concordar. Muitas pessoas ficaram realmente chocadas com essa tragédia, uma coisa que poderia ter acontecido em qualquer lugar do Brasil, qualquer boate… Poderia ser você, seus filhos, seus amigos, seus irmãos.

Hmm, tá, isso já aconteceu na Argentina, mas você não tava nem aí. Sem contar que isso não quer dizer nada, qualquer coisa "pode" acontecer em qualquer lugar a qualquer hora.

E isso choca. Minha familia por parte de mãe é toda de Santa Maria, foi onde meu irmão mais velho nasceu, foi onde eu passei minhas férias, foi onde eu fui estudar por um tempo, onde a minha irmã faz faculdade. No momento estou fazendo estagio na França e, mesmo de longe, essa tragédia me pegou em cheio.

Ah, agora começa a fazer sentido. Repare que o fato da pessoa estar na França é completamente irrelevante ao argumento dela, mas ela se sente obrigada a mencionar do mesmo jeito. Deu pra ver como o que interessa aqui não é a tragédia em si, mas é a própria pessoa que comenta? É uma questão de credibilidade: eu estudo na França, portanto eu sou inteligente, portanto você deve me ouvir. Ou seja, o que ela quer é ser vista como uma pessoa ao mesmo tempo sofisticada e compassiva. Mas isso não tem a menor importância, só o que deveria ter aqui é uma explicação de por que ela acha que o autor está errado.

Quando acordei e vi a noticia, liguei pra minha irmã e senti um alivio quando seu namorado atendeu e falou que eles estavam em casa dormindo, nem sabiam o que tinha acontecido naquela madrugada. Vi todos os meus amigos de Santa Maria desesperados atras de seus amigos, de seus vizinhos, colegas de infancia. Vi seus pais agradecendo a Deus por seus filhos não terem ido aquela boate naquela noite.

Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu...

Quem não morava em Santa Maria parou para pensar como são as boates que eu frequento e a maioria viu que poderia ser qualquer um de nós ali, mortos em 5 minutos, por não termos mais ar pra respirar, porque não conseguimos achar a saida, porque nossos olhos não conseguem mais enxergar. Talvez seja eu, não sei, mas foi dificil dormir ontem a noite, a imagem daquelas pessoas desesperadas, fico imaginando e SE… se tivesse mais uma saida, se a porta fosse maior, tivessem exaustores, janelas nos banheiros, extintores que funcionassem, se eles tivessem conseguido controlar o pânico, se abaixar como é dito pra fazer em caso de fumaça… Eu fico pensando E SE… quantas pessoas poderiam ter saido dali com vida… Também penso na dor desses pais e no trauma desses jovens sobreviventes, que se salvaram, mas tiveram que deixar amigos pra tras, que viram pessoas morrerem em seus braços, viram um mar de vidas acabadas ali, bem na sua frente.

Resumindo: a vida é um filme, e você é o personagem principal. Certamente você já reparou que conhece um monte de gente que sofre da mesma condição narcísica: "se eu tivesse estudado mais", "se os políticos não fossem corruptos", "se ela soubesse o quanto gosto dela", etc...Sim, se minha tia tivesse um pinto ela seria meu tio. Olha, tragédias acontecem toda hora. Isso foi só mais uma. Sim, foi péssimo, minhas condolências pras famílias das vítimas, etc, mas meu Deus, se eu for postar alguma coisa cada vez que alguém morrer sem ser de velhice (outra coisa que não existe, mas enfim), vou passar o dia fazendo isso. Essa tragédia em particular é cativante porque as pessoas podem se imaginar se safando, fazendo as coisas certas, salvando vidas, e tudo mais. Mas é aquela velha história: todo mundo acredita que sobreviviria ao apocalipse zumbi.

Cada pessoa no meu facebook que eu vejo prestando homenagem ou desejando condolências eu realmente acredito que, assim como eu, elas desejam paz para todas essas pessoas que morreram ou que hoje choram pela ausência de alguém querido. Eu realmente acredito que por menor que seja o seu pesar, o seu sentimento, boas energias somadas poderão aos poucos confortar essas pessoas que tanto precisam de paz.

Eu também acredito nisso, uai. Que tipo de filho da puta não desejaria paz pras vítimas e suas famílias? Quem é que fica mandando energias negativas pra que as pessoas sofram mais? A diferença é que eu não sinto necessidade de transmitir isso publicamente, porque não é o post no Facebook que vai fazer a diferença, é a intenção, que é puramente abstrata e não precisa de mais ninguém. Fica claro que a pessoa não entendeu o que o Lucas tava falando: sim, com certeza você sentiu empatia pelas vítimas e tal, mas desde quando isso quer dizer que todo mundo precisa saber (o que já é meio óbvio se você não é um psicopata)?


III.

"Tenho certeza que ele está num lugar melhor."
"Sério, por que ninguém me falou antes?! Agora posso voltar ao normal!"

Imagine a situação: você chega em casa, e sua mãe te fala que o pai do Fulaninho morreu de cirrose/sífilis/cocada na cabeça. Vem aquela sensação péssima: putz, que terrível, não consigo nem imaginar isso acontecendo comigo, queria poder ajudar o Fulaninho. E você pode, mas não da maneira que você pensa.

Agora é o funeral. Todos tristes, ninguém sabe muito bem o que dizer, rola empatia mas rola um certo desconforto também. Nunca te ensinaram como se comportar em tal situação, e seu avô morreu quando você tinha 5 anos, então você nem se lembra como é direito. Você se sente super mal e quer ajudar, mas não sabe direito como. Nesse momento, você avista o Fulaninho sozinho, chorando. Como você não tem ideia de como agir, você se volta ao que você conhece: filmes, desenhos, etc.

Nos filmes as pessoas sempre vão fazer alguma coisa pela pessoa que sofre, algo que as faz sentir melhor. Mas acho melhor já estourar sua bolha aqui: nada, absolutamente nada que você disser vai fazer ela se sentir melhor. Que isso fique bem claro: se alguém perder uma pessoa próxima e não se sentir triste, algo está errado. Isso é a resposta natural e necessária a qualquer perda do tipo (por exemplo, um término: quando sua namorada terminou com você, você nada mais sentiu do que luto pelo relacionamento). Só que você não sabe lidar com o sofrimento alheio, porque seus pais passaram toda sua infância tentando fingir que o sofrimento não existe ou que ele pode ser evitado ou prevenido.

Acho que a essa altura do campeonato a vida já deve ter te ensinado que a coisa não funciona bem assim. Mas pensa bem: alguém conseguiu acabar com aquele aperto no coração? Não. Mas você acha que tem que dizer alguma coisa pro Fulaninho, que você é um escroto se não for lá e der seus conselhos amadores e gestos semi-automáticos. É isso que uma Pessoa Que Liga faz, e você é uma Pessoa Que Liga. A realidade que não há nada, de fato, que você possa fazer, é mascarada para tentar evitar um sentimento pior que o sofirmento-por-empatia: a falta de poder. O que te dá agonia não é a morte do pai, nem as lágrimas do Fulaninho: é que não há nada que você possa fazer, e isso vai ao contrário do que te foi dito pelos seus pais, professores, tios, e tal.

Qual é a resposta apropriada então? "Fulaninho, sinto muito por sua perda. Se você precisar de qualquer coisa, não hesite em me ligar." Ponto. Final. O sofrimento da pessoa é da pessoa. É ela que sente, é ela que tem que lidar com isso. Isso não quer dizer que você a deva rejeitar: se ela quiser falar com você, chorar no seu ombro, você cancela seus compromissos do dia. Também não quer dizer que você não deve ficar preocupado se o Fulaninho ainda tiver remoendo a morte depois de 3 anos. Mas além disso, não há nada a se fazer a não ser dar tempo ao tempo.


IV.

Pra fechar, vale voltar àquela palavra "luto". Às vezes vale dar uma olhada mais concentrada num conceito pra entendê-lo melhor. Aqui vai uma definição:

s.m. Profundo pesar causado pela morte de alguém.

Ou seja: o luto é um sentimento, uma coisa particular, que só quem sente vai saber como é. Quando ocorre uma morte à sua volta (e Santa Maria é bem longe, se liga), seu reflexo é de querer ajudar de alguma maneira, e não há nada de errado com isso. Mas por favor, se você quer ajudar, vai fazer uma doação, faça uma prece, um pentagrama, sei lá. São coisas que realmente podem trazer um ganho qualitativo, se não pras vítimas, pra possíveis futuras vítimas ("Mas prece não traz ganho qualitativo!" Ah é, você é perito em religião por ser ateu, foi mal). O que não faz diferença nenhuma é postar no Facebook que você se sente mal pela tragédia, ou falar pro Fulaninho que vai ficar tudo bem, que o pai dele era ótimo.

Não posso saber o que você sente de fato ou não, portanto não posso te julgar com base nisso. Mas sentimentos são, ahn, sentidos, e se você sente (ahá) necessidade de transmitir ao público o que você tá sentindo sem que o público tenha pedido, talvez você seja um narcisista.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ausência de fatos não compromete matéria de jornal

I.

"Espelho, espelho meu, quem sou eu?"

Tá, saiu uma matéria no Correio Braziliense, e no site só tem uma prévia, mas nessa prévia tem tudo que a gente precisa. Lembre-se, saiu no jornal é Verdade (ok, não sei quem tá lendo, então só pra deixar claro, não, não é Verdade, é verdade, e se você não percebe diferença, faz bem meditar um pouco sobre o assunto). Essa matéria nos diz, essencialmente, que não são necessários dois pais para uma criança crescer saudável (o que isso realmente quer dizer, só Deus sabe). Suponhamos que o estudo seja representativo...

...não, isso não funciona. O estudo é pura prestidigitação (o que palhaços como David Blaine e Criss Angel fazem). Primeiro, o estudo foi realizado nos Estados Unidos. Talvez você nunca tenha ido aos Estados Unidos, mas deve ter uma noção que você foi criado com valores diferentes que o Jimmy. Agora imagine como deve ser diferente pra Yuhiko ou pro Vijay. Certamente foi diferente pro seu vô, e mais ainda pro vô do seu vô. Ou seja: esses estudos não são universais, como eles querem que você acredite, mas puramente específicos de uma geração de uma zona geográfica/cultural. Se você deixou de pensar no que define o "ser humano universal", eu te perdoo, isso não existe, é um beco sem saída filosófico. Sim, tem arquétipos, mas num nível que está além da nossa existência. Não há arquétipos de carne e osso.

Mas mesmo que fosse feito com gente do mundo todo:

"Após estudar 86 crianças, os cientistas concluíram que..."

Se você leu o final da frase, game over, cara. Um estudo de 86 pessoas não diz nada, a não ser que você conheça essas pessoas. Mesmo se o estudo fosse realmente representativo, ele foi feito nos Estados Unidos e você tá lendo no Brasil. Mas sério, 86 pessoas? Posso pegar 86 pessoas aleatórias no meu Facebook e fazer um estudo com elas, mas eu saberia que ele já teria um viés enorme. Tudo bem, quanto mais gente mais a gente pode falar de verdades (lembre-se, não de Verdade), mas se você tá chegando a conclusões (e ponto final!) com 0,0000000287% da população, talvez você seja um narcisista.

Mas antes de você começar a zoar o cientista, pare pra pensar sobre o fato que é basicamente isso que você lê o tempo todo. O jornal pega um estudo que representa a mensagem que quer transmitir e publica um artigo. Perae, quem disse que o artigo sequer está de acordo com as conclusões do(s) próprio(s) cientista(s)? Uma rápida procura por informações adicionais nos dá esse pequeno dado:

"O estudo não estudou mães solteiras diretamente, e todas as famílias incluíam dois pais."

Isso não contradiz diretamente o título do Correio? "Ausência do pai ou da mãe não compromete o desenvolvimento dos filhos". Ou seja, eles chegaram à conclusão que o fator X tem um efeito Y nas pessoas, sendo que o estudo não considerou nenhum caso X! O jornal, em outras palavras, não quer que você saiba a Verdade: ele quer vender propaganda. E você, ainda pega suas informações com a mídia? Espero que seu filho não seja preso tentando comprar maconha na favela.


II.

Mas, se o cara que escreveu esse artigo (quer dizer, mais provável que tenha sido uma mulher, mas perae, pra que essa raiva? Se você chegar à conclusão que eu sou machista, você não tá lendo o blog certo) tem as bolas de dizer o contrário do que diz o estudo (enviesado e parcial), quer dizer que você tá lendo e acreditando. Por que que ele/a achou que você ia ler isso?

Dá uma olhadinha no começo da matéria. Ele fala sobre três mulheres de idades e situações diferentes, mulheres como você, que têm filho e o cafajeste do marido caiu fora. Mas o que, pelamordedeus, o que que essas mulheres têm a ver com você? "Uma delas é jovem, loira com luzes, que nem eu!" Tá, mas ela tem a mesma religião que você? Veio do mesmo estado? Tem o mesmo emprego? Gosta das mesmas coisas? Claro que não. Essas mulheres tão aí pra você se sentir próximo, pra você se identificar. Por que que um jornal, que supostamente deveria apresentar as notícias objetivamente, tá falando de casos particulares? Pra te dar impressão que o que eles vão falar pode afetar a vida da mulher comum. Ah, por falar nisso, as Casas Bahia tão com uma promoção imperdível!

"Tá, eu sei por que o jornal publicou, mas por que eu tou lendo?" Ora, porque você se sente melhor. Se o seu marido te largou pela secretário, se você não lembra pra quem deu na saída da boate, o Correio tá aqui pra te resgatar e te dizer "não, shh, vai ficar tudo bem, você é forte, você pode..." Eu espero que já tenha ficado claro aqui que os dois pais são essenciais. Sim, você tá pegando a coisa, figuras paterna e materna. Ou seja, sim, é possível criar filhos de boa sem o pai ou sem a mãe, mas você tem que ver que é bem mais fácil quando tem um homem e uma mulher* com a idade certa por perto.

O que a matéria quer que você acredite é que sua situação é não só normal mas "saudável". Ela tá te reassegurando, passando a mão na sua cabeça. Mas não se esqueça que sua mãe também te diria que "vai ficar tudo bem" se você descobrir que tem câncer ou se o seu pai saiu de casa, isso não quer dizer que é verdade. O leitor da matéria, no final das contas, provavelmente não teve pai (presente, eficiente): se você engravida aos 17, sua mãe vai te dizer que tá tudo bem, seu pai vai te dizer que, porra, se prepara, vai ter que pagar o preço da sua irresponsabilidade. Só que seu reflexo é de ler e acreditar na matéria. Ponto pras Casas Bahia.


III.

"O novo diretor da revista gosta de trazer o bichano pro escritório"

Por um lado, isso não quer dizer que os repórteres e editores e tal do jornal estejam fazendo isso conscientemente (mas pode ter certeza que alguns tão ligados), mas por outro, eles sabem exatamente o que estão fazendo. Eles sabem que você nunca vai tentar achar o estudo per se, se é que existe. Eles sabem o que faz você clicar nos links e comprar os jornais/revistas**. Tudo que eles precisam fazer é justificar sua existência.

Voltando ao cenário anterior: você engravidou aos 17. Hoje tá com 20. Você tá tomando café da manhã, e dá uma olhada na edição do Correio que sua mãe ainda assina, tomando seu café no copo de requeijão. De repente, você se depara com uma notícia sobre um estudo americano (se você falar "estadunidense", por favor, vá embora) que diz que pais solteiros podem ter filhos saudáveis (bem, não exatamente, mas é isso que você lê). De repente, não é tão ruim assim que o Jorge trocou você por aquela vadia. O jornal basicamente diz Mães Solteiras = Fodonas. E isso só reforça sua identidade.

Agora, você pode chegar pra sua amiga e falar "um estudo lá diz que filhos não precisam de pai pra ser saudáveis***, meu filho não precisa daquele escrotinho do Jorge". Sua amiga vai entender você, ela sabe que você é forte e que seu filho vai ser alguém na vida (mas será que ele vai saber quem?). Resultado: você se preocupa ainda menos com a função paterna, e num piscar de olhos seu filho tá dirigindo loucasso e destruindo o carro "que ainda faltam 16 prestações".

Presta bem atenção: essa matéria não traz nenhuma informação útil ao leitor. Ela não ensina mães solteiras a desempenhar bem as funções paterna e materna. Ela não diz como a família da mãe solteira pode ajudar a compensar a falta do pai (só que ela pode). Ela não diz como um viúvo pode encarar a situação. É tudo um grande monte de nada, que em vez de gerar uma conversa produtiva, gera renda pra megaempresas e dívida pra você ("porra, mas tava em 8 vezes sem júros, como que eu não ia comprar?"). Aliás, não é bem um nada. É um espelho, só que não é um espelho real, "verrugas e tudo mais", não, é o espelho do Harry Potter, e o que você mais deseja é uma identidade.


IV.

Mas assim, não esqueça, uma identidade não é algo que você descobre. Não é algo que te é explicado nos jornais (e nem nos blogs). Não é algo que se escolhe de um leque infinito. É algo que se vive. A sua identidade é determinada pelas suas ações, não por estudos realizados numa cultura diferente. É o que você faz que conta. Infelizmente, esse tipo de matéria só serve pra reforçar a ideia que a única coisa que você pode fazer que faz uma diferença é compras.

Meu objetivo aqui não é demonisar os coitados dos repórteres não. Não duvido nada que eles acham que estão fazendo um bom trabalho, algo produtivo. A questão é que, não, que isso fique BEM claro, não é legal não ter pai. Sim, certamente a maioria das pessoas não fica bitolada, nem precisa de remédio de tarja preta, mas daqui a pouco você tá achando que é até melhor não ter pai (afinal, homem é tudo cafajeste, né) e seu filho te odeia e você não sabe o que fazer, mas tudo bem, ele é "saudável".






* sim, os gays também podem ser pais, calma, não é a situação ideal mas é certamente melhor que o 3/4 de mãe e 1/5 de pai da classe média comum

** "pô, mas tu não vai falar logo da Veja?" 1. você não lê mais Veja 2. eu me sentiria um hipster curtindo música sertaneja

*** já sabe como funciona o telefone sem fio, né?

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sindicato dos restaurantes quer competir com a indústria automobilística

I.

Então hoje eu entro no CorreioWeb, e qual a notícia principal? "Preços sobem até 22% em restaurantes, bares e lanchonetes do DF". Será que algum editor encontrou uma mosca na sopa? Domingo é o dia que o povo mais sai pra comer, e a notícia é publicada às 8 da manhã e é a principal manchete no site.

Mas o problema é que no fundo ele tá fazendo um favor pros restaurantes, publicando numa "notícia" a desculpa do sindicato, porque todo mundo lê o que tá no jornal como sendo Verdade. Veja o que eles dizem:

"Em discurso unânime, donos de bares e restaurantes dizem ser quase impossível não mexer nas tabelas: as variações dependem do tipo de negócio e do tamanho da margem de lucro aplicada pela empresa. Eles elegem como principais vilões as bebidas de maneira geral, a carne, os legumes e as verduras. Reclamam, ainda, da carga tributária de produtos como o vinho (que corre o risco de encarecer cerca de 15% nas próximas semanas) e do impacto da folha salarial, responsável por algo entre 20% e 30% do custo operacional de um restaurante."

Isso é tudo deflexão, que que a folha salarial tem a ver com o aumento dos preços? Vai me enganar que o salário dos funcionários tá aumentando? Mas mesmo se tivesse, aumentaria no máximo no passo da inflação. Tudo isso que eles falam não encobre um simples fato: "Alguns estabelecimentos, porém, chegaram a reajustar os cardápios em até 22%, quase quatro vezes a inflação oficial acumulada nos últimos 12 meses". Ou seja, mesmo se houvesse algum custo a mais além da inflação, isso não justifica um aumento quatro vezes maior. Resumo: os restaurantes aumentam os preços de maneira abusiva, depois recebem simpatia porque botam a culpa no governo, e todo mundo sabe que a culpa sempre é do governo.

Por que os restaurantes aumentaram tanto os preços? Pelo mesmo motivo que o Brasil tem o carro mais caro do mundo: porque você é trouxa e paga.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Santo Lance


I.

"Eu, eu, eu, eu, eu, eu..."

Você deve ter ouvido por aí que um tal de Lance Armstrong usou esteroides pra conquistar um monte de troféus na França. “É uma vergonha pro esporte”, hmm, será mesmo que o esporte liga pra isso? Veja o caso de Barry Bonds, do baseball. Ele é o cara que acumulou mais home runs em sua carreira na história da liga. Mas ah, tem um asterisco ao lado do número (que provavelmente nunca será ultrapassado), ele trapaceou! Sim, tá, ninguém vai falar que o cara é um modelo a ser seguido ou coisa do tipo, mas você parou pra pensar que todo mundo naquela época usava esteroides? Ele era bombado, mas o Barry Bonds acertou mais bolas pra fora do campo do que qualquer um na época. O mérito de um jogador sempre deve ser comparado ao de seus contemporâneos, os esportes e as pessoas evoluem. Mas ele trapaceou, ou seja, ele teve coragem de fazer o que você não fez mas faria se soubesse que ninguém ia saber.

Sim, mas o Lance. Tava demorando pra chegar o mea culpa. “Mas o importante não é que ele admitiu os erros e aceitou a culpa?” Uh, será que ele fez isso mesmo? Você também deve ter se sentido super nobre quando admitiu um erro pro chefe ou sei lá, mas veja bem, você não o fez na frente das câmeras (você é honesto quando te filmam?). E putz, se você precisa de um pouco de simpatia do público, quem melhor pra recrutar que a Oprah? Presta atenção, o Lance não tá lá pra admitir culpa. Nos olhos dele, ele não é culpado. Taí um momento pra refletir sobre a diferença entre culpa e vergonha. Essa entrevista não foi pra ele pedir desculpas pro público ou sei lá como o agente dele descreveu. Essa entrevista foi pra ele poder reconstruir a história dele ao vivo. E você acreditou.


II.

Digamos que você toma uma bomba e ganha um monte de competição, mas no final das contas encontram provas (note que não falei “descobrem que”) que você se dopou. Se você sente culpa, o que você faz? Bom, espero que a garrafa de vodca não seja sua primeira escolha. Na verdade você não faz nada, porque você vai tar se sentindo o maior dos vermes do mundo, você não vai conseguir dormir, você vai começar a chorar no meio do banho. A última coisa que você quer ver é o olho público. Se você já se sente péssimo consigo mesmo, como que você vai lidar com milhões de estranhos te julgando sem te conhecer? Mas não é tarde pra mudar. Depois de um tempo você começa a se reabilitar. Você escreve um diário. Ajuda os vizinhos, etc... O importante é perceber que as pessoas NUNCA vão conseguir te julgar sem viés, então foda-se eles e vai ajudar umas crianças pobres a andar de bicicleta, blz?

Mas o Lance não sentiu culpa. Ele sentiu só vergonha. Vergonha de ter sido pego. Vergonha de ter permitido que descobrissem o segredo dele. Vergonha que ele não era a pessoa que ele dizia ser. Todo mundo achava que o Lance era um cara bacanão. Exemplo de esportista, ele venceu o câncer (sei lá, se o câncer levou uma das bolas dele, quem é que venceu mesmo?), ele ajudou milhares de pessoas com câncer (é, bom, não tem como verificar isso, mas você acredita que o que falta pra cura do câncer é dinheiro, então manda brasa). Mas aí veio o doping, e todo mundo viu que ele era fake. A sorte aqui é que ele não apelou pra boa e velha raiva, porque isso é uma puta duma ferida narcisística. É isso que descreve o momento que alguém ou alguma coisa estilhaça a imagem que o narcisista criou com tanto cuidado, e se você tiver por perto, tome cuidado. A solução: “olha, Oprah, eu não sou mais o tipo de cara que faz isso.”


III.

"Pronto, esse ângulo tá melhor."

No Correio:

“Em seguida, Oprah perguntou se Armstrong "viveu uma grande mentira". Em resposta, o ciclista afirmou que "era uma história perfeita, mítica. E não era verdadeira". "Fiz as minhas próprias decisões. Foram meus erros. Estou aqui para pedir desculpas", disse.”

A grande mentira aqui não é a carreira dele, é essa entrevista. Veja como ele mesmo descreve o episódio todo como uma “história mítica”. Você até começa a acreditar que nada disso aconteceu, que aquilo tudo foi um filme de Sessão da Tarde. Sim, Lance, não era uma história verdadeira, mas esse lero-lero aí também não é verdadeiro não. Eu acreditaria que você tá sendo honesto se você dissesse algo do tipo “sim, eu sei que trapacear é feio, mas todo mundo fazia naquela época, e se eu não tomasse bomba eu sempre ia ser um João Ninguém” – e bom, deu certo, vai demorar pra gente esquecer ele. Mas se ele dissesse isso todo mundo ia achar ele um babaca apesar do fato que muita gente faria (e fez) exatamente a mesma coisa.

Guarda essa faca, eu não tou dizendo que ele tem razão. Ele foi um babaca por ter se dopado. Ele devia saber que o objetivo do esporte não é ser coroado príncipe do mundo, é fazer o mais esforço possível dentro dos limites impostos pelo próprio esporte. A questão é que ninguém espera que ele seja honesto. Todo mundo já decidiu que é um ladrão, um trapaceador. E já que ninguém espera honestidade, ele não vai ser honesto, porque seria mais um choque pra audiência. Veja bem: nada da vida do Lance é verdadeiro. Mas enquanto alguém acreditar em alguma coisa, ele vai continuar a falar.

"Em alguns momentos, ficou com lágrimas nos olhos na entrevista que deveria bater recorde de audiência nos Estados Unidos. Armstrong, porém, quis deixar claro para Oprah que não usou doping quando voltou a competir a Volta da França em 2009 e 2010. Nestas duas competições, ele não venceu, mas conquistou um terceiro lugar. Segundo ele, nos anos em que foi campeão seria impossível ter ganho sem o uso de doping."

Lágrimas de crocodilo, é claro. "Olha, tudo bem, eu fiz merda, mas eu parei de fazer merda tá, agora eu sou um cara bacana!" Aqui ele menciona que seria impossível ter ganho sem doping, ou seja, terceiro lugar é praticamente campeão mesmo, ou será que ele realmente acha que o esporte mudou completamente dois ou três anos?

O Lance também diz que quer liderar por exemplo (afinal, você ainda acredita que ele é um líder). Mas perae, exemplo de quê? Se ele quis dizer exemplo de uma geração (ou duas ou três) cuja patologia dominante é o narcisismo, então bingo, mandou bem! Ao ler o artigo, me perguntei se o Lance teve um pai alcóolatra ou bunda-mole. Surpresa! A mãe o teve aos 17, o pai biológico largou a família quando ele tinha 2 anos, ele foi adotado aos 3, e o pai adotivo divorciou a mãe quando o Lance tinha 17 anos.

"Mas eu já te falei que fui muito bem educado apesar do meu pai ter perdido a batalha contra o vício". Sim, ouvi dizer que o rum tem um baita dum gancho esquerdo. A figura do pai é importante porque é ela que vai permitir que a pessoa internalize o super-ego. O pai, basicamente, tem que ser o Capitão Nascimento* pro aspirante a gente. Se o Lance realmente tivesse tido um Pai (pra diferenciar do pai biológico, a gente ainda não conversou sobre Deus), ele teria aprendido que ele tem que ganhar não pra ser amado (sem dúvida mamãe tava lá em todas as corridas), mas porque foi um objetivo pessoal. A pessoa que vai ser considerada um bom compasso moral é aquela que age moralmente, não a que diz que é moral.

"Com todos os seus títulos retirados e banido do esporte, o ciclista insistia na mentira até a noite de segunda-feira."

Não, você que voltou a acreditar nele. É diferente.


IV.

No Tropas Estelares, o livro (faça-se um favor, compre e leia - é claro que um livro desse naipe não tem versão em português), o professor fodão fala pro protagonista imaginar um cenário (parafraseando): imagine que você tá na escola, e tem uma competição de corrida; você até que corre bem, dá umas corridinhas de vez em quando, tal, e chega em 5o lugar; aí, depois da corrida, te entregam um troféu de primeiro lugar. Você se sentiria orgulhoso do troféu? Ia tirar onda? É claro que não: você não mereceu.

"Ué, o Lance não tá tirando onda". Sim, agora que descobriram que ele é uma farsa. O que importa pro Lance não é o troféu de primeiro lugar. O que importa pra ele é que todos vejam ele como campeão (bom, agora como um santo da honestidade), não importa onde ele chega na corrida, nem se ele participou da corrida. Tanto faz se ele ganhar a corrida ou se ele faz uma entrevista com a Oprah: o que vale é que você tá olhando pra ele, e pior, validando ele.

 E isso é revelante, uh, relevante.

V.

Se o Lance não fosse bom de bike...

Sabe quando você tá esperando na saída do shopping e tem um idiota que passa com o carro rebaixado e um som tão alto que você não sabe se é funk ou axé? Se você olhou pra ele e falou como ele é um filho da puta, parabéns, o Lance Armstrong ganhou.





* será que nos filmes ele conseguiu desempenhar esse papel? Ainda não vi o 2, mas em breve veremos se foi um sucesso por causa de identificação ou por causa de pensamento desejoso (é claro que a ideia de wishful thinking sequer existe no português)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Assassinato pós-meditado

I.

Cuidado, ele pode te esquartejar

Uma das "notícias" (o caso começou em março passado) mais lidas no G1 recentemente é sobre o assassinato de uma atriz britânica por seu irmão. Vamos tentar entender não só o que levou a esse crime mas, sobretudo, por que esse artigo é um dos mais populares de um site que todos visitam quando não têm nada pra fazer (sim, tudo bem, você vai dizer que é pra se manter atualizado em relação aos eventos importantes que ocorrem mundo afora - por isso que o que você mais lê o Planeta Bizarro, né?)

Uma olhada no título, "Atriz britânica teria sido morta por irmão após briga por torneira aberta", já nos dá uma informação pertinente: o cara não matou a irmã por causa de uma torneira. Também vão  enfatizar o uso de maconha por parte do irmão. "É o sistema querendo criminalizar uma erva, maconha não leva a violência!" Calma aí, cara, a raiva veio antes da maconha, mas veio do mesmo lugar. Isso tudo tem a ver com uma figura notável por sua ausência - o pai.

Antes que você venha me dizer como você foi criado muito bem apesar do seu pai ser um alcóolatra, que fique bem claro que quando me refiro ao pai, não me refiro necessariamente ao pai biológico, mas a qualquer figura que tenha desempenhado essa função na vida da pessoa. Se isso foi sua mãe biológica, ótimo, mas é meio complicado ela desempenhar duas funções (uma já não é fácil) ao mesmo tempo que trabalha pra te sustentar (sem dúvida algo que você ouve bastante). Enfim, o que interessa é que não consegui encontrar uma biografia da atriz pra ver como era a relação com o pai, mas já podemos adivinhar.


II.

"O caso ganhou destaque na Grã-Bretanha por causa das circunstâncias nas quais a história veio à tona: primeiramente, com a notícia do desaparecimento de Gemma, seguida da detenção de Tony, que havia ido à polícia para registrar seu desaparecimento, e o encontro do corpo desmembrado e espalhado em vários locais."

Hmm, não, o caso ganhou destaque na Grã Bretanha porque os ingleses são como nós: adoram quando a linha entre a realidade e ficção (novelas) fica borrada. Isso não quer dizer que eles sentem um prazer sádico quando a atriz é morta, isso quer dizer que eles o sentem quando o vilão é preso e "paga por seus crimes" (nesse caso é válido porque não acredito que ele vá saber se defender na prisão). Perceba que o que importa é a história. Esse tipo de assassinato acontece no mundo todo todo dia, mas esse caso é popular porque a vítima era uma atriz, e tudo se desenrolou exatamente como aconteceria na novela.

Pense nessa história: "a vítima desapareceu, e o culpado, que havia registrado seu desaparecimento para tentar se safar, tentou esconder o corpo". É por isso que o caso ganhou destaque? Isso já aconteceu milhões de vezes. Esse caso ganhou destaque porque as mídias britânica e mundial deram destaque, e elas fizeram isso porque sabem que você vai querer ler, e eles precisam vender propaganda. Nesse sentido, esse caso não é nada mais que um BBB Vida Real.

"O torso da atriz foi encontrado no dia 6 de março do ano passado no Regent's Canal, canal que liga o Parque Olímpico, no Leste de Londres, ao Regent's Park, cortando alguns dos mais importantes cartões postais e bairros ricos de Londres."

Por falar nisso, a TTT Turismo está com uma promoção de pacote pra Londres imperdível, 10x sem juros pra você e um acompanhante poderem contar pros seus amigos como lembraram da coitada da atriz quando passeavam pelos "cartões postais", é triste saber que coisas tão horríveis acontecem num país tão culto e civilizado (ainda bem que o ônibus do tour não passou perto do estádio depois do Chelsea perder pro Arsenal).

Mas você não vai questionar a estranha menção dos "bairros ricos", afinal já tá se imaginando lá, fazendo pose do lado do guarda, indo ao British Museum e fingindo que aquilo vai automaticamente te tornar uma pessoa mais inteligente (não, não vai). Mas perae, não tinha um torso nessa história?

"Mais partes do corpo, desde então, vinham sendo removidas do canal, embora a polícia somente tenha achado a cabeça da atriz meses depois, em setembro."

Ela foi encontrada no artigo da BBC que todos os outros canais ao redor do mundo compartilharam. Sério, só eu acho estranho botar uma foto da cabeça dela depois de falar que acharam a cabeça decapitada?


III.

Na segunda metade do artigo, que você não vai ler porque tem uma foto grande e ei, um cara na China fez uma parada mó esquisita, a polícia tenta explicar o crime.

"Segundo o promotor Crispin Aylett, havia uma tensão crescente entre os dois irmãos, principalmente por conta do consumo frequente de maconha e skunk (forma mais potente da droga) por Tony."

Primeiro, ignore que o repórter (finge que?) não sabe absolutamente nada sobre maconha.

O que a srta. McCluskie devia saber é que o irmão dela fumava maconha provavelmente pelo mesmo motivo que ela virou atriz - um pai (arquetípico) ausente. Mas também não ache que isso é psicologia popular, não tem nada a ver com o fato que ninguém avisou pra ele/a que maconha/vida de atriz é "perigoso". Todo mundo tá careca de saber isso. Não, o problema aqui é que o pai criou (nada reprsenta uma cultura como sua escolha de palavras) um filho narcisista. "Mas você não sabe que ele era egoísta/megalomaníaco." Realmente, mas isso não é narcisismo.

O narcisista é aquele que não se preocupa em agir de acordo com alguma essência moral, alguém para o qual o que importa é a imagem que ele transmite. Ele é o personagem principal e todos os outros são coadjuvantes. Não podemos dizer se Gemma era narcisista, afinal, por mais que sua carreira seja na TV, ela realizou coisas na vida. Por mais que seja uma novela, uma carreira requer uma certa consistência de esforço. O que não requer esforço é fumar maconha às custas da irmã.

Calma, Cheech, o problema não é fumar maconha. O problema é fumar maconha como substituto para, simplesmente, fazer alguma coisa, ou melhor, fazer coisas. Certamente era suficiente para Tony que ele era irmão de uma pessoa (relativamente) bem-sucedida. "Ah, no pior dos casos minha irmãzinha me ajuda." O problema é que o pior dos casos já devia ocorrer há anos. Claro, ele poderia ter sido demitido recentemente, os tempos são de recessão, mas não há nada que indique isso. Não acho que você vá encontrar muitos tipos financeiros curtindo um baseado (eles preferem pó).

O que determina sua identidade não é quem você diz que é, é o que você faz. Pode ter certeza que o Tony tinha mil projetos pra vida. Por ter certeza também que a irmã já tinha reclamado várias vezes que ele só falava e não fazia nada. Por que então que ele estourou dessa vez? Comparar com o álcool seria injusto, então é suficiente deixar claro que maconha aumenta muitas coisas, sensações, palas, gostos...mas a raiva não é uma delas (valeu Robin). Não se engane: não tem nada a ver com a maconha, e nada a ver com a irmã. A dica tá aqui:

"Tony McCluskie, de 35 anos"

Quando se está ainda nos 20 e tantos anos, o mundo ainda é cheio de possibilidades. Ainda há energia vital e bastante tempo pela frente. Aos 20 e tantos, você ainda acredita quando diz que daqui a pouco vai parar de fumar e fazer alguma coisa "produtiva" na vida. Aos 35, é mais difícil.

O que aconteceu com o Tony foi que ser expulso do apartamento da irmã significava que ia ter que arranjar um emprego, começar um negócio, alguma coisa. Mas ownar neguinho no Call of Duty não é uma habilidade desejada pelo mercado. Você não precisa ser Carl Jung pra perceber que a "gota d'água" (o que é linguagem e o que é realidade mesmo?) foi altamente simbólica. Doía toda vez que o Tony era chamado de maconheiro, porque ele sabia que ele era um cara criativo/empreendedor/etc. Mas ele não podia sair batendo na irmã ou nos pais, senão os outros perceberiam que ele é um cara raivoso (veja mais uma vez como são suas ações que determinam sua identidade, não o que você fala). Evidentemente, ser expulso de casa destruiria qualquer imagem que ele tinha conseguido preservar até então.

A raiva é a consequência natural do narcisismo. Isso não quer dizer que temos que condenar todos os narcisistas pro inferno. Os adolescentes são narcisistas por natureza, é uma etapa necessária do desenvolvimento. No entanto, é uma etapa, ou seja, precisa ser ultrapassada. O objetivo do narcisismo na adolescência é permitir que a pessoa crie uma identidade própria, testando máscaras diferentes até achar a que caiba. Então se a sua filha de 16 anos fuma maconha/ouve black metal/usa roupa de marca, relaxa, larga esse martelo, ela só faz isso porque você não gosta.

Eu sei que a notícia é da Inglaterra, mas o site é brasileiro, e você tá lendo. Quem não leu o artigo e pensou que o cara é um louco? Sim, é óbvio que ele é doido, mas isso é só uma desculpa pra não pensar no caso, "eu não sou maconheiro, não sou pirado que nem esse cara". Por acaso, o próprio Tony já deve ter dito isso várias vezes, bom talvez às vezes "não sou pirado como vocês pensam". Essa notícia deveria ser um aviso: o Ministério da Saúde adverte, se preocupar com sua imagem e não com sua essência causa raiva, que pode se manifestar de diversas formas. E você, acredita em quem vê no espelho?




V.

"Segundo o relato do promotor ao júri, Tony tentou criar pistas falsas ao enviar uma mensagem ao celular da irmã no dia seguinte ao suposto crime, no dia 1º de março, para fazer aparentar que ela ainda estava viva.

Ele depois registrou seu desaparecimento à polícia, que com base nos detalhes passados por ele, categorizou o caso como de baixo risco.

Tony também disse à polícia que um ex-namorado devia dinheiro a ela e que as autoridades deveriam falar com ele."

Vejam bem como ele tenta construir uma história, criar uma meta-narrativa. "Eu não sou o tipo de cara que faria isso, quem faz isso é aquele ex safado dela". Felizmente, a lei ainda dá mais peso aos fatos do que aos testemunhos, mas sabe-se lá quanto tempo isso ainda vai durar.

A cereja no bolo é quando Tony diz que não premeditou o crime (eu acredito, tente fazer um plano coerente depois de fumar n baseados como nosso amigo aqui) mas que não se lembra de nada. Sim, eu acredito que o cara que bebeu 10 vodkas com energético não lembra de nada no dia seguinte, mas se ele passa a manhã preocupadamente deletando mensagens e fotos e rezando pra que ninguém tenha postado nada no Facebook, eu começaria a ter minhas dúvidas.

VI.

Não, eu não sou psicólogo, nem repórter nem nada, mas isso não é motivo pra você quebrar essa garrafa. Eu espero que fique claro que eu não tenho nenhuma pretensão de que "todos vejam a Verdade". Não, não há Verdade. Eu posso estar completamente enganado, e a mídia pode ter distorcido a história até nos detalhes. Mas isso não interessa. Os fatos do caso, a real patologia do Tony, só interessam à família e aos amigos da vítima e à polícia. O que me interessa é a história que você tá lendo.

Sim, tudo isso é meio nonsense. Eu sei. Acabei de falar: o que interessa é a história, e não um ponto de vista absoluto a se ter em relação à história. Dane-se se você acha que o Tony é vítima de abuso de drogas, que isso é um crime que chocou uma nação, blablabla. Dane-se por quê? Porque a mídia já me diz isso a qualquer oportunidade, e repetir o que o repórter/tradutor da Globo disse não é debate nem aqui nem na China (bom, talvez na China). O que eu quero é que você tenha mais de uma perspectiva, e no fundo não importa qual é, e que você nunca esqueça que você é o que você faz.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...